segunda-feira, 12 de novembro de 2012

As esganadas



"A cidade do Rio de Janeiro da década de 30, durante a era Vargas, é a cidade palco para esse novo romance de Jô Soares, onde um serial-killer ataca apenas as mulheres gordas. Formada por um delegado rabugento e seu assessor medroso (que está sempre trajando um terno branco impecável), e apoiados por um ex-inspetor português que conheceu o poeta Fernando Pessoa e uma linda repórter da revista "Cruzeiro", a trupe tenta, aos trancos e barrancos, desvendar os misteriosos assassinatos das mulheres gordas da cidade. O serial-killer, Caronte, dono da funerária mais conhecida da cidade, e cidadão acima de qualquer suspeita, age sempre da mesma forma: atrai as vítimas com uma variedade incrível de doces portugueses expostos no carro funerário disfarçado, e, após satisfazer sua gula, as leva para um barracão abandonado onde as mata com requintes de crueldade, utilizando algumas das receitas portuguesas preferidas de sua mãe, que também era gorda. É o suspense na tentativa de capturar o assassino que move o leitor pelas páginas do livro, e o prazer em acompanhar a narrativa do autor, que mescla seus profundos conhecimentos históricos com seu característico bom humor, sendo capaz de criar personagens marcantes e nos levando, inclusive, a torcer para que o culpado não seja pego no final."

Jô Soares sabe como ninguém conduzir uma boa trama policial carregada no humor. Ele abusa das piadas, mas isso não empobrece o enredo em nenhum momento, que, aliás, é recheado de fatos históricos contados com propriedade, já que o autor nasceu no ano em que se passa a história de Caronte, o protagonista da estória: um agente funerário que se sentia rejeitado pela própria mãe, mas que adorava saborear suas comidas e seus doces portugueses, só poderia acabar com Complexo de Édipo. Suas vítimas eram sempre mulheres gordas, assim como sua mãe, com quem ele sempre manteve uma relação de amor e ódio. Enquanto Caronte adorava sua progenitora, ela o tratava sempre como um inútil e o desprezava sempre que podia.

Apesar de tantos maltratos, Caronte adorava as guloseimas preparadas pela mãe, e acabou usando-as como arma para matar suas vítimas. Ele atraía as mulheres mais gordas e comilonas a um carro cheio de doces portueses deliciosos, porém carregados de sonífero, e, quando elas comiam, ele aproveitava para sequestrá-las e levá-las a um lugar escondido atrás de sua funerária. Lá ele as torturava usando muita comida até que eles morriam de tanto comer. Como todo serial killer, Caronte sentia prazer em matar essas mulheres e imaginava que estava matando a própria mãe. Além disso, ver as mulheres sofrendo até morrer o deixava excitado. 

Já na parte engraçada do livro temos o policial português, e inteligente, que vem ao Brasil para ajudar na elucidação desse caso, e que acaba virando piada pronta para o leitor. Ele jura que conheceu Fernando Pessoa e sempre faz alusões ao seu relacionamento com o poeta, tirando do sério o delegado responsável pelo caso. As peripécias do investigador e sua colega repórter em busca da identidade do assassino rendem boas risadas durante a leitura.
É com muita maestria que Jô nos conduz pelo enredo: enquanto a graça de ler uma trama policial, geralmente, é acompanhar o passo a passo até que se descubra o bandido, aqui o autor já deixa claro quem é o culpado no começo do livro, mas não deixa que o leitor perca o interesse na história, utilizando sua inteligência refinada e seu grande conhecimento histórico-cultural, que se encaixa perfeitamente na trama e enriquece a leitura. 

Sendo um bom criador de personagens, Jô os constrói aqui com graça e elegância, dando a cada um deles um perfil que passeia entre o cômico e o trágico, como é o caso do assessor do delegado, que está sempre pronto para tudo, muito bem vestido e alinhado, mas que no fundo é um grande covarde.

O autor pinta de forma engenhosa um retrato do Rio de Janeiro da época, e nos conquista com sua narrativa simples e direta. O livro é envolvente e é impossível para de ler antes do final. Não é a toa que ele esteve na lista dos mais vendidos por semanas logo após seu lançamento. 


As esganadas
Jô Soares
264 páginas
Editora Cia. das Letras

4 comentários:

  1. Preciso parar de ler resenhas... do contrário vou parar de trabalhar e largar a faculdade pra poder ler tudo que quero!

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  2. Eu já queria ler esse livro, agora quero muito mais!

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