sexta-feira, 26 de abril de 2013

Sexta de música #20

Ainda falando sobre "1984", de George Orwell, que resenhei ontem para vocês, não tenho certeza se consegui transmitir a essência da estória, talvez por não ter gostado muito do que li. Então, para ilustrar um pouco melhor o enredo, vamos aproveitar nosso momento musical aqui no blog e tentar esclarecer um pouco mais esse livro tão complexo:


Basicamente, o livro fala de controle do poder, da mente, das pessoas. Uma única entidade, aqui chamada de "Grande Irmão" ou "Partido" controla a tudo e a todos: as pessoas vivem de acordo com suas regras, comem, bebem e vestem apenas aquilo que lhes é propiciado e têm dentro de suas próprias casas uma "teletela" que vigia todos os seus passos. Claro que nas ruas as pessoas também são monitoradas e nada escapa aos olhos do Grande Irmão. Qualquer desobediência é castigada e o povo é condicionado a passar a vida inteira sem questionar nada, apenas aceitando as informações que lhe são transmitidas através das "teletelas" pelo Partido.

Pensando em uma música que ilustrasse essa situação, me veio à cabeça um grande clássico de Chico Buarque, "Apesar de você", que foi escrita por ele durante a ditadura militar no Brasil, quando as pessoas não tinham nenhuma liberdade para se expressar contra o regime. Em alguns momentos, a letra casa perfeitamente com a estória de Orwell, vejam:

"Hoje você é quem manda
falou, tá falado,
não tem discussão, não
a minha gente hoje anda
falando de lado
e olhando pro chão.

Você que inventou esse estado
e inventou de inventar
toda a escuridão
você que inventou o pecado
esqueceu-se de inventar
o perdão.

Apesar de você 
amanhã há de ser
outro dia
eu pergunto a você
onde vai se esconder
da enorme euforia,
como vai proibir
quando o galo insistir
em cantar?
água nova brotando
e a gente se amando
sem parar.

Quando chegar o momento
esse meu sofrimento
vou cobrar com juros, juro.
Todo esse amor reprimido 
esse grito contido
esse samba no escuro
você que inventou a tristeza
ora, tenha a fineza
de desinventar
você vai pagar e é dobrado
cada lágrima rolada
nesse meu penar.

Apesar de você
amanhã há de ser
outro dia,
inda pago pra ver
o jardim florescer
qual você não queria
você vai se amargar
vendo o dia raiar
sem lhe pedir licença
e eu vou morrer de rir
que esse dia há de vir
antes do que você pensa

Apesar de você 
amanhã há de ser
outro dia
você vai ter que ver
a manhã renascer
e esbanjar poesia
como vai se explicar
vendo o céu clarear
de repente, impunemente
como vai abafar
nosso coro a cantar 
na sua frente?"

A canção reflete perfeitamente a situação vivida por Winston e o resto das pessoas da Oceania em "1984", como por exemplo no primeiro verso que diz "Hoje você é quem manda falou, tá falado, não tem discussão...". Assim era durante o governo do Grande Irmão, o povo não podia falar livremente, nem mesmo pensar por sí mesmos, já que o Partido conseguia controlar até o que se passava na cabeça de cada um, através do controle pelas "teletelas" e reconhecendo suas expressões faciais em cada momento do dia e da noite.

Chico usou a música para protestar contra a opressão do regime militar em nosso país, e fica claro na letra que, apesar de todo o mal que estavam causando à população no momento, ele ainda tinha esperanças de que a vida iria melhorar, ainda que contra a vontade dos governantes e suas ordens: "inda pago pra ver o jardim florescer qual você não queria, você vai se amargar vendo o dia raiar sem lhe pedir licença...". Poético, não?


Outra música que pode ser usada como exemplo para entendimento do livro é "Admirável chip novo", da Pitty: 

"Pane no sistema, alguém me desconfigurou
aonde estão meus olhos de robô?
eu não sabia, eu não tinha percebido
eu sempre achei que era vivo.
Parafuso e fluido em lugar de articulação
até achava que aqui batia um coração,
nada é orgânico, é tudo programado
eu eu achando que tinha me libertado.
Mas lá vêm eles novamente
eu sei o que vão fazer 
reinstalar o sistema.

Pense, fale, compre, beba
leia, vote, não se esqueça
use, seja, ouça, diga
tenha, more, gaste, viva."

Nessa letra temos uma pessoa que está se sentindo cerceada, controlada, por algo ou alguém que sequer a permite pensar livremente. Para quem não leu o livro, talvez não faça muito sentido, mas é exatamente assim que o personagem Winston se vê: sem direito de agir ou pensar por conta própria, sem espaço para desenvolver suas ideias e fomentado um ódio cada vez maior pelo Partido, porém, com medo de se rebelar. Ou seja, ele pensa que "tem coração", mas ele não pode permitir que seus sentimentos venham à tona. Quando finalmente ele o faz, vem o Partido e tenta "reinstalar o sistema", que, através de tortura quer mudar tudo aquilo em que ele acredita.


Para encerrar o assunto Grande Irmão, vou citar também o filme "O show de Truman", que seguee a mesma linha de observação e controle de pessoas, mas aqui com uma conotação mais cômica do que política:  Jim Carrey faz o papel de Truman, um homem que nasceu dentro de um reality show e que, desde a sua concepção, no útero da mãe, é vigiado por inúmeras câmeras que transmitem ao vivo cada minuto de sua vida. O programa tem grande audiência e muitas pessoas se envolvem emocionalmente com as aventuras de Truman, seus fracassos e seus sucessos, suas dúvidas e suas alegrias. Ficaram curiosos, então vejam o trailer:


Na página da revista SuperInteressante tem uma matéria muito boa sobre "1984", vale a pena dar uma passada por lá. Clique aqui e seja redirecionado.


Um comentário:

  1. Oi Joana! Eu nunca li nada do George Orwell, tenho muito vontade ler esse. Ele tem uma mensagem muito boa. Gostei dessa música do Chico Buarque, ilustra bem o livro, e a sociedade atual.
    Você já leu "Revolução dos bichos"?
    xx

    beafreebird.blogspot.com.br

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