terça-feira, 7 de maio de 2013

99 sonetos sacanas e 1 canção de amor - resenha


"São textos de um amor bem real, vivido, encarnado e desfrutado e onde o platonismo anda longe... São textos com uma fortíssima carga erótica que enfileiram com a rica e sempre presente tradição erótica e satírica na poesia de língua... portuguesa." (David Rodrigues, professor universitário, haicaísta português e autor dos livros 'Gaza' e 'Respirar').

Quando terminei de ler "Cinquenta tons de cinza", estava naquela onde de romance erótico, e encontrei esse livro na internet. Achei que ele seria na mesma linha do outro, mas não, esse aqui é bem mais... ousado.

O autor criou uma centena de sonetos, todos com temática sexual, e, como o próprio título do livro diz, bem sacanas. Ok, achei interessante a ideia, mas quando comecei a ler acabei não caindo de amores por ele.

Eu gosto de poesia, adoro sonetos, principalmente os bem escritos, mas sempre penso neles como algo muito romântico, carregado de sentimentalismo, quase como uma declaração de amor. E os escritos por Henrique Pimenta não são bem assim.

Não que eu tenha ficado ruborizada ao lê-los, nem tenha me chocado com seu conteúdo altamente erótico, é que gosto de soneto clássico, sou até um pouco chata com isso, e não acho que esse tipo de construção seja a mais apropriada para falar de sexo tão explicitamente.

O autor conseguiu um bom resultado, mas, infelizmente, não fez a minha cabeça. Achei que os sonetos expuseram demais um momento que deve ser de intimidade. E tudo isso, para mim, ficou além daquilo que eu entendo como poesia.

Um exemplo desse meu ponto de vista fica claro na página 41, soneto "Sessão de Descarrego", que pensei em transcrever aqui, mas não tive coragem.

Um ponto que achei bem interessante no livro foi a homenagem que o autor fez a dois tipos de mulheres que são, muitas vezes, preteridas pela maioria: as magrinhas e as gordinhas. "Varapau" (pág. 12) e "Dos quilinhos a mais" (pág. 97)lembram que qualquer que seja seu porte físico, toda mulher sabe satisfazer um homem.

Outro soneto bacana é o "Levante o dedo!" (pág. 32), dirigido àqueles homens que estão sempre fazendo pose de machões e se preocupam demais com seus próprios músculos e têm vergonha de admitir que, as vezes, também falham na hora H:

"Levante o dedo médio se você
nunca brochou, se diz que é show, propaga
virtudes varonis e faz auê,
o mulherio num fogaréu sem água.

Levante e vá adiante, em abecê
cabeça, que o que queima não se apaga,
repete pelo bis, no fuzuê,
a próxima é a vovó sem nem anágua.

Avante em sua lida cabeluda!,
e malha mais o ferro, com saúde!,
e dá-lhe mais no fogo, que diabo!

Entanto ao despertar, ai, ai, caluda!,
dos sonhos de fodão, tenha atitude
e enfie o dedo médio no seu rabo!"

Claro que dentre tantos poemas não poderia faltar um mais meigo, mais delicado. É o caso de "Anjo" (pág. 27), tão terno que ficaria quase infantil, se o leitor não entendesse sua conotação sacana:

"É como um ajno que caiu do ninho...
Fez dodoi, mas eu cuido. Coitadinha.
Sem manta, Sem vergonha. Caladinha.
Sorridente, e tão carente. Denguinho.

Abraço, que se esquente. Calorzinho. 
Apalpo para ver. Ai, que carinha!
Papai lhe põe no colo, passarinha.
Com a língua nas feridas, lhe acarinho..."

Chega! Não vou entregar tudo aqui! Quem quiser, que leia livro, rs.

O momento de humor lascivo fica por conta de "Pet shop girl": "...a corda com cuidado no pescoço, as vezes de coleira para pet, a guia em meu poder..."

Tem também um soneto bem singular, que fala sobre um momento delicado na vida de todos nós, a velhice, e dos desejos que ainda estão à flor da pele. Ficou fofo, quase destoando de toda a sacanagem anterior: "O velho japonês, por encomenda, (o velho japonês é solitário), recebe sua compra, aniversário, presente para si, para que renda o resto de seus dias..." (A caixa, página 83).

Mas o meu preferido entre os 99 sonetos foi "Avesso Perfeito", na página 91, que ficou bem discreto, quase romântico, e que exige do leitor um pouco de interpretação para encontrar sua sacanagem: 

"Os fios se desenredam como um TOC
dos olhos ao olhar, e, por mantê-lo,
as tramas desafiam o novelo
com nós e com maranhas, por Masoch..."

Vocês podem estar a achando a resenha meio controversa, mas na verdade, eu não detestei o livro, pelo contrário, achei que ele tem na maior parte do tempo uma linguagem muito pesada, mas possui seus bons momentos. O livro é bom, com seus versos fesceninos feitos para agradar a quem procura esse tipo de literatura, e com a sonoridade lasciva das rimas mais explícitas.

99 poemas sacanas e 1 canção de amor
Henrique Pimenta
editora Life
110 páginas

Um comentário:

  1. Donatien Alphonse François de Sade se revirando no caixão...

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