quinta-feira, 23 de maio de 2013

O livro branco - resenha


"Ao longo de cinco décadas reinando como a banda de rock mais importante do mundo, os Beatles influenciaram diferentes gerações não só na música, mas também em moda, comportamento e - como não? - na literatura. Após o sucesso da antologia "Como se não houvesse amanhã: 20 contos inspirados em músicas da Legião Urbana", Henrique Rodrigues reuniu mais uma vez um time de primeira linha com a intenção de revelar como as canções dos rapazes de Liverpool poder ser refletidas na atual produção literária brasileira. Mais populares que Jesus Cristo, John, Paul, George e Ringo romperam barreiras e deram origem a uma das mais admiráveis mitologias de todos os tempos. Mas, além das fãs ensadecidas, dos cortes de cabelo, das experiências psicodélicas, das polêmicas, os Beatles são, mais que tudo, suas canções... Em "O livro branco" - referência a um dos mais famosos discos da banda - a riqueza do legado beatle, de mil imagens e mui citáveis frases, acende a imaginação de uma heterogênea turma e renasce em forma de relatos emotivos, engenhosos, assombrosos, delirantes, singelos, brutais, scanas e sagrados. Pelo olhar de vinte escritores, alguns clássicos do repertório dos Beatles ganham os mais diversos contornos literários."

Queria ler esse livro já há alguns meses: gosto muito de Beatles, apesar de não ser uma fã fervorosa, e sempre acho interessante essa brincadeira de escrever com base em alguma música, passando para o papel aquilo que ela te inspira (ou não). Por isso, quando tive a oportunidade, comprei logo o livro.

Nos contos, organizados por Henrique Rodrigues e escritos por vários autores brasileiros, vemos o quanto o Fab Four influenciou a vida das pessoas em todos os âmbitos. Suas músicas inspiram outras músicas, filmes, peças, literatura, enfim todo o tipo de arte.

Nessa antologia há contos para os mais variados gostos e estilos, desde uma conversa sincera e inocente entre mãe e filho em "1986", de André Leones (pág. 109), até um conto no estilo epistolar escrito do apóstolo Paulo (que no caso seria Paul) para o apósto João (metáfora para John Lennon), na época da separação da banda, "Carta de são Paulo ao apóstolo João", escrito por Felipe Pena (pág. 137).

Meus textos preferidos foram: "O bolachão do Help pela Cristiane", de Godofredo de Oliveira Neto (pág. 21), que, obviamente, faz referência a música "Help", e conta uma estória hilária de um cara que vai para Londres tentar comprar o disco dos Beatles, que já foi de sua esposa, mas ficou com um de seus ex-namorados. Cristiane está grávida e quer a todo custo reaver o "bolachão" que lhe era tão caro, e isso coloca o marido em uma situação, no mínimo, inusitada.

"PM", de Marcelino Freire (pág. 51), inspirado pela música Eleanor Rigby, narra a dificuldade de um jovem homossexual ao receber em sua casa a tia mais querida, que está na cidade para assistir a mais um show de McCartney, de quem ela é muito fã. O problema é que o rapaz não quer revelar a ela sua orientação sexual, e seu parceiro, João, não entende o que ele tem a esconder da tia. O conto é leve e bem humorado e retrata com perfeição o fanatismo dos fãs de Paul.

"Nothing is real", escrito por André SantAnna (pág. 69), mostra um diálogo fictício entre os quatro Beatles, dentro de um banheiro público, fumando maconha, e viajando em vários assuntos. Por exemplo,  eles imaginam que alguém os pega em flagrante ali e eles falam que a droga é da Rainha. Muito divertido, pena que é tão curtinho.

"Blackbird", de Stella Florence (pág. 105) é uma narrativa dramática sobre uma mãe que arranca os próprios olhos depois de encontrar a filha estuprada e morta. Com um texto envolvente e muito forte, a autora aproveita para fazer uma crítica a uma das situações mais irracionais da nossa sociedade.

Mas os dois melhores, na minha opinião são "O barbeiro e o besouro", de Ana Paula Maia (pág. 65), que lembra um pouco os contos de Edgar Alan Poe ao dar vida a um psicopata urbano, que vive de cidade em cidade fazendo muitas vítimas. Mas, apesar do tema ser um pouco pesado, o texto ficou ótimo - fluído e com um final que é a cara do personagem principal: frio e doentio. A autora se inspirou na canção "Penny Lane", e isso foi muito interessante, já que, para mim, a última coisa que essa música lembra é um assassinato. E ela está presente no conto - é o nome da rua onde o serial killer mora:

"... A casa foi alugada por três meses, pagamento adiantado. É assim que costumo fazer. Escolhi a Penny Lane, pois me contaram ser uma rua tranquila. É do tipo em que há vendedores de flores e garotos brincando pelas calçadas..."

E finalmente "Uma jornada particular", escrito por Márcio Renato dos Santos, uma estória sobre um homem que ganha na loteria... e de repente percebe que o dinheiro não pode comprar tudo. O texto parece a narrativa de um sonho, onde não sabemos exatamente onde começa nem onde termina. Mas eu me identifiquei bastante com ele, pois achei que o estilo do autor lembra um pouco o meu próprio jeito de escrever, com frases curtas e situações quase absurdas:

"... A casa está vazia. Estou aqui, aqui mesmo? Sigo neste quarto a olhar pela janela - olhe, não há ninguém na rua. Onde estão todos? Vou conferir que dia é hoje. Onde estão os calendários."

Esse conto foi baseado na música "A day in the life" e está na págna 73.

O livro é muito bacana, e o projeto gráfico impressiona: com a capa totalmente branca e as letras em cinza, que ficaram bem discretas, ele chama a atenção logo de cara pelo fator minimalista do design, e as páginas amareladas faciltam em muito a leitura.

Indicado para os fãs da banda e principalmente, para os não fãs, aqueles que ainda não conhecem o  legado dos Beatles. Vale a pena ler e ouvir as músicas da banda, para depois, quem sabe, deixar a própria imaginação voar e criar outros contos baseados em canções diferentes. A discografia deles é bem extensa e pode render boas estórias.


O livro branco
Henrique Rodrigues (org.)
editora Record
160 páginas

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