sexta-feira, 24 de maio de 2013

Sexta de música #23

Ontem postei aqui a resenha de "O livro branco", uma compilação de 19 contos escritos por autores brasileiros e todos baseados em músicas dos Beatles. Muito bem, hoje vou aproveitar o assunto e falar sobre as canções de 3 contos que acho que merecem destaque.


Os Beatles sempre rendem muito assunto não é mesmo? Eu já falei sobre eles em novembro, vocês podem ler esse post clicando aqui.


Aos trabalhos. Um dos contos do livro se chama "Blackbird", mesmo nome da música em que a autora se baseou para escrevê-lo. Essa é uma canção composta por Paul McCartney que foi gravada no "Álbum branco", de 1968. Sua letra é uma espécie de metáfora dos conflitos raciais existentes na América, e, principalmente, uma crítica ao tratamento dado às mulheres negras na época, que lutavam para se integrar à sociedade mas eram extremamente discriminadas. O refrão da música deixa essa mensagem bem clara:

"Black bird fly, black brid fly
into the light of the dark black night"

"Pássaro negro, voe, pássaro negro, voe
para o clarão da escura noite"

Acredito que o mote para o conto foi a frase: "... pássaro negro cantando no morrer da noite, pegue estes olhos fundos e aprenda a enxergar...", já que na estória a autora conta como uma mãe arrancou os próprios olhos ao encontrar a filha morta depois de ser estuprada. A essência do conto é o sofrimento da mãe e a atitude desesperada que ela tomou ao se encontrar numa situação de tristeza profunda e irremediável, e apenas um pequeno de trecho da canção serviu para desenvolver toda uma estória, mostrando que é possível trabalhar com a obra de outro artista, sem prejudicá-la ou restringir a criação àquilo que já existia antes.


Eu gosto muito desse tipo de exercício, ouvir uma música e imaginar outra cena a partir dela, muitas vezes, fugindo totalmente do tema inicial da canção. Já fiz isso algumas vezes, e um dos meus resultados preferidos pode ser conferido clicando aqui.  

O próximo conto a ser comentado é "O barbeiro e o besouro". Quem leu o post de ontem sabe que eu o achei parecido com os contos de Poe, e fiquei com a impressão de que a autora Ana Paula Maia também é fã desse escritor. A música escolhida por ela para trabalhar foi "Penny Lane", e ela seguiu um caminho bem interessante: ao contrário da sua letra, que retrata algumas situações cotidianas, como o barbeiro que espera por um novo cliente e o banqueiro que aguarda um novo corte, ou seja, uma mudança na economia - cenas que seriam comuns ao membros da banda - ela pegou uma situação que poderia ser corriqueira, a do homem pedindo comida delivery e apimentou, transformando-a no cenário perfeito para o ataque de um assassino em série. Um morador totalmente recluso, que não tinha amigos e tampouco conversava com os vizinhos jamais poderia ser apontado como autor de um crime, até por que, ele não deixa nenhuma prova de sua existência.


A alusão à canção é bem clara na estória: o criminoso alugou um apartamento na rua Penny Lane, e essa é a única referência da música utilizada pela autora na construção do conto, mas deu um toque especial ao conto.

"Penny Lane" também foi escrita por Paul e lançada como single do álbum "Strawberry fields forever" (1967). Ela fala da rua homônima que foi muito importante na vida dos meninos do Fab Four. Essa rua até hoje é ponto de encontro dos fãs da banda, que deixam ali inúmeras mensagens ao grupo e, constantemente, roubam a placa com o nome da rua, que tem que ser reposta pela prefeitura da cidade.

Um trechinho da letra para ilustrar o clima bucólico do lugar que deixava os Beatles tão nostálgicos:

"Penny Lane there is a barber showing photographs
of every head he's the pleasure to have known
and all the people that come and do
stop and say hello..."

"Em Penny Lane há um barbeiro mostrado fotografias
de cada cabeça que ele teve o prazer de conhecer
e todas as pessoas que passam por ele
param e dizem olá..."

E para finalizar o post de hoje, a música "A day in the life", do álbum "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band" de 67. Essa nunca foi uma canção que chamou minha atenção, mas acho que o conto que inspirado  nela foi um dos melhores da antologia. Escrito por Márcio Renato dos Santos, a estória tem o mesmo nome da música e fala de um dia na vida de um ganhador da loteira. O mais legal é que ele criou toda uma atmosfera de sonho para a narrativa, então não sabemos ao certo se o personagem realmente tirou a sorte grande e ficou milionário, ou se ele vai acordar a qualquer momento tão pobre quanto sempre foi.  


Nesse sentido, o autor manteve a mesma linha que segue a música: viagem total. Lennon e McCartney criaram essa canção juntando duas partes, cada uma escrita por um deles, e por isso ela tem um clima meio psicodélico, com sons estranhos e repetitivos, que dão a impressão de que ela não tem fim.

Além disso, existem algumas frases que parecem fazer referência a drogas, o que fez a canção ser  O resultado final ficou tão estranho que essa canção chegou a ser proibida em algumas rádios inglesas. Na época John estava no ápice de seu vício em LSD e Paul fazia uso de maconha. O conto tem em comum com a música o clima de 'viagem total', e o primeiro verso da canção foi o que inspirou o autor e a partir dai ele criou a sua própria ilusão:

"I read the news today oh boy
about a lucky man who made the grade
and though the news was rather sad
well I just had to laugh
I saw the photograph..."

"Eu li as notícias de hoje, oh garoto
sobre um sortudo que ganhou na loteria
e embora as notícias fossem um tanto tristes
bem, não pude deixar de rir
eu via a fotografia..."


Na parte da letra que foi escrita por John vemos um jogo de palavras, muito usado por ele em suas composições, e que dá o clima onírico à canção, mas que também remete ao possível abuso de drogas pelo músico: "I'd love to turn you on" (eu adoraria excitar você), é a frase apontada como apologia ao LSD. E no trecho composto por Paul, apesar de ser mais pessoal que o de Lennon, também há indicações de que ele usa metáforas para o uso de drogas:

'Found my way upstairs and had a smoke, 
somebody spoke and I went into a dream..." 

"Me encaminhei para o segundo andar e acendi um cigarro,
alguém falou e então entrei em transe..."

O fato de ele dizer que, logo após fumar o cigarro, começou a sonhar, foi o bastante para os críticos de plantão imaginarem que ele estava falando de uma viagem causada por uso de maconha. Isso não desvaloriza em nada a música, só aumenta a atmosfera mítica que existe em torno dos Beatles.

A banda tem centenas de músicas, desde os rocks mais simplesinhos, estilo iê-iê-iê mesmo, até as músicas mais experimentais, psicodélicas, compostas já na fase final da carreira do grupo. Ou seja, tem para todos os gostos, basta procurar e achar aquela que vocês mais gostam. Um bom começo seria ler o livro resenhado ontem e partir das canções usadas pelos autores para criar suas estórias. É a música ajudando a literatura. E a recíproca sempre será verdadeira.

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