domingo, 30 de junho de 2013

Filmando #10 - Se beber, não case - parte III

Eu assisti a "Se beber, não case - parte III" e gostei. O filme garante boas risadas, apesar de ser mais fraco que os anteriores.


Nessa terceira parte o maluco Alan Garner está no ápice de sua loucura e logo no início do filme acaba matando uma girafa que ele acabara de comprar. Isso rende ao seu pai uma multa e um infarto que o mata imediatamente. Assim, a família e os amigos percebem que Alan está precisando de ajuda psicológica para voltar à realidade, e se unem para interná-lo numa clínica de recuperação. É ai que as confusões começam.

No caminho para o Arizona, o carro deles é interceptado pelos capangas de Marshall, o criminoso dono das drogas que Doug negro vendeu para o 'bando de lobos' no primeiro filme e que desencadeou todos os acontecimentos trágicos daquela noite em Las Vegas. O traficante quer que os amigos encontrem Chow, que teria roubado dele uma fortuna em barras de ouro, e que vinha se comunicando por cartas com Alan durante todo o tempo em que estivera preso numa prisão de segurança máxima em Bangkok, de onde ele acaba de fugir. Para coagir os caras a encontrarem Chow, Marshall, claro, prende Doug e ameaça matá-lo se eles não recuperarem o ouro roubado.


Alan consegue contato com Chow que acaba envolvendo os três amigos numa grande confusão e rouba mais uma parte do ouro de Marshall. Então agora, eles precisam recuperar todo o ouro, entregar Chow e salvar Doug. Eles vão se envolvendo em situações cada vez mais hilárias e arriscadas para tentar cumprir as ordens do mafioso.


O personagem vivido por Ken Jeong, Chow, ganha muito mais espaço nesse final de trilogia e em vários momentos rouba a cena, como quando eles estão invadindo uma mansão e têm que cortar os fios que disparam o alarme. Ao longo dos três filmes sua atuação fui crescendo e ele conseguiu conquistar o público, se tornado um dos personagens principais desse terceiro episódio.


Muita gente pode não gostar do filme nem achá-lo muito divertido por ele não seguir a mesma linha dos dois primeiros, com os amigos viajando e acabando drogados numa confraternização e acordarem sem lembrar de nada no dia seguinte, mas a ideia do diretor de explorar novas possibilidades não diminui em nada a qualidade da estória, e o filme ainda tem seus momentos hilários. Alan está ainda mais avoado que antes e Stu ainda mais relutante em aceitar suas atitudes, e essa relação entre os amigos cria situações impagáveis.

O ideal para quem é fã dos filmes anteriores é ir ao cinema com a mente aberta e preparado para ver algo diferente finalizando as loucas aventuras do 'bando de lobos'. Assim, as risadas serão garantidas e as reclamações com as pequenas mudanças na sequência de acontecimentos dos primeiros filmes não atrapalharão o divertimento.


sexta-feira, 28 de junho de 2013

Sexta de música #27

Durante essa semana muitas pessoas prestaram suas homenagens ao cantor Michael Jackson, relembrando a data de seu falecimento há 4 anos. Também vou relembrar um pouco do trabalho do cantor aqui, no dia de música do blog, postando para vocês os meus vídeos preferidos dele.

Na década de 80 aqui no Brasil não tínhamos MTV e nem sonhávamos com a internet, portanto, as coisas de fora chegavam lentamente pela TV aberta. Foi assim com o vídeo de "Thriller", que nos EUA foi um dos maiores responsáveis pelo crescimento da MTV americana e é considerado até hoje como o melhor videoclipe de todos os tempos.

Com mais de 13 minutos de duração e uma forma inovadora de produzir um vídeo, ele conta uma estória de terror que começa com um casal de jovens conversando tranquilamente num lugar escuro e deserto, quando, de repente, o menino, que no caso é Michael, se transforma em lobisomem. Nesse momento a cena muda para uma sala de cinema onde o casal está, na verdade, assistindo a um filme de Vincent Price, o mestre do horror, chamado "Thriller": 


Para os anos 80, os efeitos especiais usados são incríveis, e foi isso que ajudou a chamar a atenção para o vídeo e alavancar a popularidade da música. Mesmo já tendo lançado os vídeo de "Beat it" e "Billie  Jean", foi com "Thriller" que Michael conseguiu chamar a atenção mundial para seu trabalho.

"Smooth Criminal" é um single do terceiro álbum de Michael e seu vídeo é parte do filme "Moonwalker". Nele, Michael está de terno branco e chapéu num bar cheio de mafiosos e faz, outra vez, passos de dança incríveis que se tornariam uma de suas marcas. Gosto dessa música mas tenho uma admiração especial pelo vídeo. Foi nele que vi pela primeira vez Michael fazer o "The lean", aquele passo em que ele inclina o corpo a 45 graus:


Já no início da década de 90, Michael lançou o inovador vídeo de "Black or white", que parou o Brasil na noite de seu lançamento no "Fantástico". Quem não se lembra do burburinho causado pelo vídeo, que trazia o que havia de mais moderno em tecnologia e manipulação de imagens e retratava exatamente a mensagem que o cantor queria passar com a música, a de que, independente da cor, somos todos iguais:

"... it's a turf war on a global scale
I'd rater hear both sides of the tale
See, it's not about races
just places, faces
where your blood comes from
is where your space is
I've seen the bright get duller
I'm not going to spend my life being a color..."

"... é uma guerra de territótios numa escala global
eu preferiria ouvir os dois lados dessa história
veja, não se trata de raças
apenas lugares, rostos
de onde seu sangue vem,
é onde fica o seu lugar
eu já vi o brilhante ficar mais opaco
eu nãovou passar a minha vida sendo uma cor..."

Além dessa mensagem, a letra também faz clara referência a alteração na cor da pele de Michael, que vinha levantando muita polêmica na época.

O vídeo ainda conta a participação do astro (ainda mirim) Macaulay Culkin: logo na abertura, ele está ouvindo rock com o som bem alto, e seu pai entra no quarto e começa a gritar com ele para desligar. O menino num momento de rebeldia pega uma caixa de som imensa, leva até a sala onde estão os pais, conecta nela uma guitarra e toca uma nota num volume ensurdecedor, o que faz a poltrona do pai sair voando pelo teto e cair na África, onde ele encontra Michael e a música começa:


Outro vídeo de Michael que sempre me chamou a atenção foi "Remember the time", pela fotografia impecável e a sequência de dança em grupo, além das participações de Eddie Murphy (que fazia muito sucesso nos cinemas) e Magic Johnson, astro do basquete americano. O vídeo se passa no Egito antigo e também conta uma estória, fazendo uso dos melhores efeitos especiais disponíveis: a rainha está entediada e pede ao rei que lhe proporcione algo para se divertir, então vários artistas se apresentam e não conseguem satisfazê-la. Até que entra um encapuzado, joga uma areia misteriosa no chão e desaparece sobre ela, e a roupa que fica no chão se transforma em Michael Jackson. O artista conquista a rainha imediatamente. Mas apesar do vídeo ser incrível, eu gosto mesmo é da música, com sua melodia tranquila e que dá vontade de dançar:


Falando em boas músicas, também sou fã de "The way you make me feel", do álbum "Bad", e sua melodia envolvente. O vídeo não é nenhuma superprodução como os outros, mas também é bem interessante, pelo menos pelos passos de dança que ele faz enquanto segue uma bela mulher por ruas escuras e tenta seduzi-la:


Esses são os meus vídeos preferidos, é claro que ficou faltando muita coisa boa, mas a homenagem é válida, e não dá pra falar de todo o trabalho de Michael Jackson num único post. Para finalizar, a performance do cantor no Super Bowl de 1993, ano em que ele lançou o álbum "Dangerous" e foi assistido ao vivo por mais de 100 milhões de pessoas:


quarta-feira, 26 de junho de 2013

Ele é o cara #22

Semana passada foi o lindo do Chico Buarque, e hoje mais um maravilhoso artista brasileiro é "o cara" do blog: Gilberto Gil.


Completando hoje seus 71 anos de vida, Gil já contribuiu muito para o crescimento da música popular brasileira. Desde o lançamento de seu primeiro disco, em 1963, até hoje, ele emplaca grandes sucessos e conquista fãs de todas as idades.


Estudando acordeão desde os 8 anos, Gil ganhou da mãe seu primeiro violão, já na adolescência, e conheceu o trabalho de João Gilberto, que o influenciou imediatamente. Quando entrou para a faculdade, conheceu Caetano, Bethânia, Gal e e Tom Zé, e juntos começaram a se apresentar publicamente. Mais tarde, eles formariam o grupo Doces Bárbaros, sem Tom.


Gil participou dos festivais de música comuns na década de 60. Sua primeira apresentação, em 1965, foi com a música "Iemanjá", e, dois anos depois, ele chamou a atenção do público com sua música "Domingo no parque", no Festival de Música da Record, que o tornou conhecido nacionalmente.



Junto com o amigo Caetano Veloso, Gil criou um novo estilo de musical, o tropicalismo, que misturou influências artísticas de vanguarda e da cultura pop da época, tanto nacional quanto estrangeira, transformando tudo isso em expressões da arte brasileira. O movimento foi responsável por uma mudança notável nas artes pláticas, no cinema, no teatro e na música.

Durante o regime militar Gilberto Gil foi preso, junto com Caetano, sob acusações de atividades subversivas, e também teve que sair do país e se exilar em Londres por 6 anos. No seu retorno ao Brasil, lançou o disco "Refazenda", que se tornaria um de seus trabalhos mais marcantes, e trazia as canções "Tenho sede", composta por Dominguinhos, e a música que dá nome ao álbum e que até hoje levanta discussões sobre o real significado de sua letra:

"Abacateiro acataremos teu ato
nós também somos do mato
como o pato e o leão
aguardaremos brincaremos no regato
até que nos tragam frutos
teu amor, teu coração
acabateiro teu recolhimento é justamente
o significado da palavra temporão
enquanto o tempo não trouxer teu abacate
amanhecerá tomate e anoitecerá mamão
abacateiro sabes ao que estou m e referindo
porque todo tamarindo tem
o seu gosto azedo, cedo antes
que o janeiro doce manga venha ser também
abacateiro serás meu parceiro solitário
nesse itinerário da leveza pelo ar
abacateiro saiba que na refazenda
tu me ensina a faze renda que eu te ensino a namorar
refazendo tudo
refazenda
refazenda toda
guariroba"

Na verdade, o próprio Gil já disse em várias entrevistas que a letra não trás nenhuma significado oculto ou metáfora ao regime militar, é apenas poesia: do aprendizado com o passar do tempo e da volta à natureza.


Uma outra canção de Gil que faz sim referências a um assunto que o marcou muito é "Sandra", do álbum "Refavela", que fala sobre a época que ele passou num hospício após ter sido detido por porte de drogas durante uma turnê que fez pela região sul do país:

"... Carmensita, porque ela sussurrou: 'Seja bem vindo'
(no meu ouvido)
na primeira noite quando nós chegamos no hospício
e Lair, Lair
porque quis me ver e foi lá no hospício..."

Já na década de 80, Gil fez uma turnê com Jimmy Cliff, logo depois de ter gravado uma versão em português da música de Bob Marley, "No woman, no cry", e que acabou trazendo algumas influências do reggae para o Brasil.


Em 1985, Gil fez parte do grupo de artistas que fizeram coro durante a gravação da música "We are the world", que levantou fundos para ajudar a situação difícil vivida na África, no movimento chamado USA for Africa.

E quem não se lembra da interpretação de Gil da música "Sítio do Pica-Pau Amarelo"? "Marmelada de banana, bananada de goiaba, goiabada de marmelo....". Fui a um show dele em 2003 e essa música fez muito sucesso entre o público mais jovem que estava presente.

Além de músico muito competente, Gil é engajado na política: elegeu-se vereador em Salvador no ano de 89, pelo PMDB. Mais tarde, filiou-se ao PV e foi Ministro da Cultura nos primeiros anos do governo Lula, deixando o cargo em julho de 2008.


Quer mais? O cantor tambem luta pela flexibilização dos direitos autorais, principalmente pela mudança que a internet trouxe à propriedade intelectual. Outra causa pela qual ele trabalha é a da liberdade digital, defendendo o software livre e "novas formas de interação e articulação, da liberdade real de produção e difusão da subjetividade, da busca do saber, da informação, do exercício da sensibilidade e da coletividade." (trecho de seu discurso no Fórum Social Mundial em 2005 sobre o tema). O assunto foi, inclusive, objeto de uma matéria do jornal americano "The New York Times", em 2007, com o título "Gil ouve o futuro, mas com direitos reservados".

Por todos esses motivos, Gil não poderia deixar de figurar entre os caras mais importantes da música em nosso país, tampouco deixar de ser "o cara" aqui no blog.

É difícil escolher uma música como preferida, ou indicar a vocês para ouvir, mas vou fechar o post com uma canção dele que gosto muito. Ela está num dos seus álbuns mais recentes (ou nem tanto), "Quanta", de 1997. É nesse CD que também está a música "Pela internet", que ficou muito famosa depois de ser usada pelo Itaú numa de suas propagandas (ouça clicando aqui):


Para quem quiser saber ainda mais sobre o trabalho do cantor, conferir a agenda de shows e conhecer alguns dos muitos livros que falam sobre sua carreira, acessem o site oficial clicando aqui.  

terça-feira, 25 de junho de 2013

As capas mais legais da minha estante

Olá leitores! Hoje quero compartilhar com vocês 5 capas que eu acho mais bonitas e interessantes dentre os livros que tenho na minha estante. Quando tive a ideia do post, já planejei escolher apenas cinco, e tinha pelo menos 3 em mente, mas na hora de selecionar foi difícil... Bem, vamos a elas:


O quinto volume de "As crônicas de gelo e fogo" tem uma capa incrível, em tons de vermelho e com o dragão de Daenerys, uma das minhas personagens preferidas.


"Lonely hearts club" de Elizabeth Eulberg e sua versão da clássica foto dos Beatles atravessando a Abbey Road também é muito legal. Foi a capa que me chamou a atenção e me fez querer ler esse livro.


A capa desse livro é muito bonita: "A breve segunda vida de Bree Tanner" tem o fundo escuro que destaca a areia vermelha da ampulheta caindo, e as letras prateadas seguem o mesmo estilo das usadas nos livros da saga Crepúsculo. Analisando o todo, é uma das que mais gosto.


Comprei esse livro no Submarino só para completar a minha coleção de grandes clássicos e, assim que ele chegou, me encantei com sua capa. Acho que é porque adoro roxo, rs. Além disso, os detalhes em preto e laranja remetem a um clima de Halloween, que traz à lembrança coisas assustadoras.  E a arte da capa é perfeita, mais um ótimo trabalho da editora Leya.


Para finalizar, essa capa psicodélica de "No buraco", do Tony Bellotto, que mistura itens contidos na própria estória, e que tem um buraco no meio... isso mesmo, essa parte redonda em preto, onde está o título do livro, é vazada, como tentei mostrar na foto a seguir. 


Muito legal e inusitado. Espero que tenham gostado. Até!

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Um pouquinho de...


"Você se atreve a usar os meus feitiços contra mim, Potter? Fui eu quem os inventei: eu, o Príncipe Mestiço! E você viraria as minhas invenções contra mim, como o nojento do seu pai, não é? Eu acho que não... não!
Harry mergulhara para recuperar a varinha; Snape lançou um feitiço na varinha, que voou longe, no escuro, e desapareceu de vista.
- Me mate então - ofegou Harry, que não sentia o menor medo, apenas raiva e desdém. - Me mate como matou ele, seu covarde...
- NÃO... - gritou Snape, e seu rosto ficou inesperadamente desvairado, desumano, como se sentisse tanta dor quanto o cão que gania e uivava preso na casa incendiada às suas costas - ... ME CHAME DE COVARDE!"

página 474, capítulo 28

domingo, 23 de junho de 2013

Série a sério #7

A Fox exibiu uma série produzida no Brasil, de 5 episódios, todos baseados em contos de Edgar Allan Poe. A ideia de adaptar os contos foi de Pedro Morelli, que também é o diretor, e a produção é de Fernando Meirelles.


Cada um dos cinco episódios é baseado num conto específico, são eles: "Bere", inspirado em "Berenice", "Priscila", inspirado em "Metzengerstein", "Íris", inspirado em "O coração delator", "Cecília", inspirado em "A máscara da morte rubra" e "Lenora", inspirado em "O gato preto" e "O barril de amontillado".


Os personagens são distintos em cada capítulo, mantendo-se como protagonistas fixos apenas Edgar, interpretado por Marcus de Andrade, que trabalha na dedetizadora "Nunca mais" (nome usado em referência ao conto "O corvo", que repete sempre never more), e o dono da empresa, seu amigo Fortunato, vivido por Danilo Grangheia.


O ponto de partida para cada episódio é a desinsetização de alguma casa ou comércio pela Nunca Mais, onde, posteriormente, acontecerá uma tragédia. Edgard, por algum motivo que não é revelado, meio que pressente que algo de errado vai acontecer ali e sempre deixa com o cliente algum produto contra os insetos para que ele use, caso necessário. No último episódio é revelado o mistério que envolve esse personagem, envolvendo sua esposa, e a importância de Fortunato na série.

O legal dessa série é que os contos são adaptados e ambientados na São Paulo atual, e o roteirista cria situações intrigantes que envolvem pessoas comuns e as encaixa no enredo de cada estória, de forma sutil e sem descaracterizar o personagem criado por Poe.

Na minha opinião, o melhor episódio foi o 4o., "A máscara da morte rubra": o terror psicológico é intenso, e  fica ainda mais apavorante pela ausência de sons durante as cenas e, quando há algum barulho, ele é usado para ampliar ainda mais a sensação de terror. 


Aqui, diferentemente do conto original, a estória não se passa na nobreza, nem tem uma doença mortal invadindo o país e matando todas as pessoas, mas a essência do conto está presente: um baile de máscaras acontece e existe um intruso entre os convidados, assombrando a anfitriã da festa e usando a máscara rubra. Antes dessa festa, é criada toda uma situação de terror envolvendo a personagem principal e uma pessoa misteriosa que a ataca e estupra dentro da sua própria casa. O terror e a morte comuns aos contos de Poe não faltam nessa adaptação.

Todos os episódios podem ser assistidos na íntegra pelo Youtube, inclusive o primeiro, que está aqui embaixo:


"Berenice" é um conto de horror escrito em 1835, e que escandalizou os leitores da época por seu conteúdo altamente violento. Ele narra a estória de Egeu, que vai se casar com a prima, Berenice, e que sofre de alguns momentos de blecaute, quando se desliga totalmente do mundo exterior. Berenice sofre de uma doença desconhecida que acaba com todo o seu corpo, e seus dentes são a única parte que fica perfeita, então, Egeu desenvolve uma obsessão por eles. Quando a esposa é enterrada, ele continua a venerar seus dentes, até que acorda de um dos seus apagões e descobre que o túmulo de Berenice foi violado e que ela continua viva. Misteriosamente, ele encontra ao seu lado uma caixa com 32 dentes sujos de sangue e um poema sobre 'visitar o túmulo de minha amada'.


Para os fãs de Poe, a série é imperdível. E para os que ainda não conhecem a obra do escritor, também. Vale a pena assistir aos vídeos, ler os contos e entender por quê Edgar é ainda hoje um dos autores mais consagrados da literatura mundial.


sexta-feira, 21 de junho de 2013

Sexta de música #26

Acredito que para os fãs de Game of Thrones o final da 3a. temporada da série exibida pela HBO foi um tanto quanto surpreendente. Pelo menos para quem (como eu) ainda não leu os livros (só li o primeiro). Não vou poder me aprofundar muito nos motivos que causaram tanta surpresa para não criar spoilers, mas, se você assistiu, sabe do que estou falando.


Com tanta coisa me incomodando após esse final tão incrível quanto decepcionante, só conseguia pensar no que mais pode sair da cabeça de George R. R. Martin, o criador dos personagens mais intensos da literatura, mas também o seu algoz.


Esse cara não se apega a nenhuma de suas criações, e é capaz de acabar com todos eles quando você menos espera. Então, quando ler os livros ou assistir à série, esteja preparado para tudo.


Como sempre faço relação entre a literatura e a música, fiquei imaginando qual seria uma canção com a cara de Martin: que trilha sonora ele ouviria enquanto estava imaginando a saga Game of Thrones? Será que ele é louco? Ou estaria apenas sob o efeito de drogas poderosas? A música que retrata o frenêsi que envolve o nascimento e a morte desses personagens tinha que ser bem agitada, beirando a insanidade, daquelas que te fazem querer pular sem parar. Vejam se concordam comigo:


Olha a referência ao pássaro que está sempre rondando o jovem Bran (rsrs).

Fazendo um contraponto a toda essa agitação do punk rock dos Ramones, vamos imaginar que um dos personagens agora pudesse se expressar através de uma única música, uma que disesse tudo aquilo que ele estava sentindo no exato momento em que a 3a. temporada da série terminou. Estou me referindo a Robb Stark: ele poderia usar uma das viagens psicodélicas do Pink Floyd para desabafar e colocar para fora todo o seu sofrimento. E ele teria quase 10 minutos para fazê-lo:


"Us, and them
and after all we're ordinary men.
Me, and you
God only knows it's not what we choose to do..."

"Nós e eles
e afinal somos todos homens comuns
eu e você
só Deus sabe que não é isso que teríamos escolhido..."

É isso aí, a casa Stark sempre nos emocionando com seus dramas... e suas péssimas escolhas.


quinta-feira, 20 de junho de 2013

O morro dos ventos uivantes - resenha


"Na fazenda chamada Morro dos Ventos Uivantes nasce uma paixão devastadora entre Heathcliff e Catherine, amigos de infância e cruelmente separados pelo destino. Mas a união do casal é mais forte do que qualquer tormenta: um amor proibido que deixará rastros de ira e vingança. Único romance escrito por Emily Brontë e uma das histórias de amor mais surpreendentes de todos os tempos, esse livro é um clássico da literatura inglesa e se tornou o favorito de milhares de pessoas."

*** Cuidado: se você ainda não leu o livro, acabei soltando alguns spoilers... sem querer.

Basicamente, essa é uma estória de amor. Catherine e Heathcliff se amam, mas não conseguem ficar juntos, e esse é o ponto principal da trama; é a partir da separação dos dois jovens que começam os dramas e o sofrimento dos personagens.

Heathcliff é adotado pelo pai de Catherine quando ainda era um garotinho, e a amizade entre os dois nasce assim que eles se encontram. Eles crescem juntos, correndo e cavalgando pela fazenda, e dessa grande convivência nasce um amor muito puro e forte entre os jovens. Infelizmente, Heathcliff é um cigano, e não tem nada a oferecer a Catherine, que é acostumada a levar uma vida muito tranquila proporcionada pelo pai. Ela não quer abrir mão de seu bem estar, apesar de seu coração pertencer a Heathcliff, então, acaba se casando com Edgard, o nobre  que mora propriedade vizinha.

Quando Heathcliff descobre que Catherine preferiu manter sua posição social a casar-se com aquele que ela realmente ama, ele foge e some por vários anos. Quando retorna, está muito rico e compra o Morro do irmão de Catherine, que estava totalmente endividado. Assim, estando numa melhor condição financeira, Heathcliff acredita que conseguirá conquistar Catherine de volta. Ele só não contava com o orgulho de Cat.

Agora que ela está casada com Edgard, não quer abrir mão da vida que está levando ao lado do marido, apesar de admitir que seu coração é todo de Heathcliff, que ela mesmo é o próprio Heatcliff. Isso para ele é  uma enorme traição, e ele não se conforma com a escolha de Catherine. Depois de uma vida inteira de sofrimentos e humilhações, ele acreditava que ter dinheiro lhe daria tudo aquilo que desejava, e, ao perceber que isso não aconteceria, ele se revolta e decide acabar com a felicidade de todas as pessoas ao seu redor, como vingança por não conseguir o que quer.

Heathcliff passa a fazer as maiores maldades com todos. Hareton, o sobrinho de Cat que mora no Morro é quem mais sofre com os desmandos de Heathcliff: o menino é tratado como um idiota, sendo ameaçado o tempo todo e ficando responsável pela manutenção da fazenda, realizando os trabalhos mais pesados. 

E a maldade de Heathcliff se estende a Cat, Edgard, sua irmã Isabela, os empregados e até o cachorro o da família. Ninguém fica imune ao seu ódio, e ele vai ficando cada vez mais sozinho. Depois de praticar as piores crueldades com todo mundo, seu final só poderia ser a solidão e a loucura.

Quando Cat morre, ele enlouquece e perde totalmente o respeito pela vida das outras pessoas. Catherine promete no leito de morte que nunca o deixará em paz, pois o considera responsável por sua morte. Então Heathcliff começa a ver o fantasma da amada e passa a viver atormentado pela lembrança  de seu amor, principalmente depois de conhecer a filha de Cat, que é muito parecida com a mãe. Ele termina seus dias punindo a menina pelo mal que Catherine lhe fez durante a vida.

O livro não é fácil de ler. Tanto que, da primeira vez que o li, não gostei da estória, achei-a pesada e cansativa. Voltei a lê-lo recentemente, já com uma outra visão, e acabei gostando muito. O enredo é drama puro: todos os personagens sofrem muito, e na maioria das vezes senti muita raiva de Catherine, que é muito egoísta e mimada. Depois, quando Heathcliff faz as suas maldades, dá vontade de entrar no livro e dar uma surra nele, mas, analisando suas atitudes, é possível entender seu ódio e sua revolta com a decisão da amada de não se casar com ele.

É importante ter em mente a época em que o livro foi escrito e que, se hoje em dia esse tipo de romance talvez não cause tanta repercussão, em 1847 essa estória era um escândalo, principalmente por ter sido escrita por uma mulher.

Mesmo com a diferença gritante entre os costumes e as crenças daquele século e os de hoje, o amor entre Cat e Heathcliff ainda consegue cativar os leitores. Recomendo a leitura, mas também aconselho que se preparem para amar e odiar os personagens, sofrer e chorar com eles, enquanto eles lutam para conquistar sua felicidade.

O morro dos ventos uivantes
Emily Brontë
editora Lua de Papel
292 páginas

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Ele é o cara #21

Chico, seu lindo, hoje é o seu dia aqui no blog!


ADORO o Chico Buarque e vocês já devem ter percebido que ele aparece sempre por aqui: já falei de sua música aqui e de um dos seus livros aqui. E como hoje ele está completando 69 anos, vamos um pouquinho sobre a sua longa e brilhante carreira.

Chico apareceu para o mundo musical ao participar, e ganhar, o Festival da Música Popular Brasileira em 1966, com a canção "A banda": "estava a toa na vida o meu amor me chamou, pra ver a banda passar, cantando coisas de amor...". Na verdade ele empatou com  "Disparada", interpretada por Jair Rodrigues, mas, dizem, que se recusou a receber o primeiro prêmio em detrimento da belíssima canção apresentada por Jair. Essa estória só veio à tona quando o jornalista Zuza Homem de Mello escreveu o livro "A era dos festivais: uma parábola", em 2003, revelando as notas dadas a eles pelos jurados.


No ano seguinte ele também teve destaque no festival com a canção "Roda viva", uma de suas melhores construções, na minha opinião, quando se apresentou junto com o grupo MPB-4. 

"Tem dias que a gente se sente
como quem partiu ou morreu
a gente estancou de repente
ou foi o mundo então que cresceu...
A gente quer ter voz ativa
no nosso destino mandar
mas eis que chega a roda viva
e carrega o destino pra lá...
roda mundo, roda gigante
roda moinho, roda pião
o tempo rodou num instante
nas voltas do meu coração..."


Outra participação importante do cantor em festivais foi em 1968, quando compôs com Tom Jobim a canção "Sabiá" e venceu o Festival Internacional da Canção. Mas o público não aceitou esse resultado e adotou como vencedora a música "Para não dizer que não falei das flores", de Geraldo Vandré.

Mais tarde, Chico teve que sair do país para fugir da ditadura, e foi viver na Itália, fez alguns shows com Toquinho. Foi nessa época que ele compôs as músicas "Apesar de você" e "Cálice", ambas censuradas pelo regime. Então ele passou a assinar suas músicas com o pseudônimo de Julinho da Adelaide a fim de burlar a censura, que não deixava passar nenhuma canção que fosse assinada por Chico. Julinho chegou até a ter carteira de identidade e dar uma entrevista a um jornal da época.

Uma de suas canções que criticam o regime militar de maneira sútil e muito inteligente é "Meu caro amigo", que ele escreveu em forma de carta para o amigo Augusto Boal, que também estava exilado. Na carta ele conta as novidades (ou não) que acontecem no país, usando ironias como "... meu caro amigo eu quis até telefonar, mas a tarifa não tem graça...", se referindo ao Brasil apenas como "terra", onde se joga futebol, dança-se o samba e o chorinho, mas a situação está "preta".


Ao longo de todos esses anos de carreira ele já lançou 37 álbuns de estúdio e foi parceiro de grandes nomes da música como Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Toquinho Milton Nascimento e Caetano Veloso.

Alguns artistas também receberam letras de Chico para interpretar e eternizaram essas canções, como "Atrás da porta", na voz de Elis Regina e "Cio da terra" com a dupla Pena Branca & Xavantinho. Além deles, Ney Matogrosso gravou um CD inteiro apenas com canções dele, "Um brasileiro" (1996).

O músico também produziu trilhas sonoras para filmes, entre eles "Vai trabalhar, vagabundo" e "Os saltimbancos Trapalhões" e peças de teatro, como "Ópera do malandro".

Mas seu trabalho vai além da música: Chico também é escritor e tem publicados alguns livros, como "Budapeste", "Fazenda modelo", "Estorvo" e o infantil "Chapeuzinho amarelo" e já ganhou 3 vezes o Prêmio Jabuti.


Chico escrevia desde cedo seus contos e crônicas e passou a publicá-los no jornal Verbômidas, do Colégio Santa Cruz, em São Paulo.

Alguns de seus livros já foram adaptados para o cinema: "Benjamin" em 2003 e "Budapeste" em 2009. Nesse último o próprio autor faz uma participação especial.


As canções de Chico são famosas por refletirem o "eu" feminino com perfeição, e, por isso, ele é muito respeitado e admirado pelas mulheres (não só pelos seus belos olhos azuis, rs).

Por toda a sua história de luta contra a ditadura, e apesar dela, por suas canções incrivelmente bem escritas, sua leitura sensível da alma feminina, seus livros, peças e filmes, Chico Buarque figura entre as grandes personalidades do Brasil, e recebeu, merecidamente, o apelido de unanimidade nacional, criado por Millôr Fernandes. Por tudo isso ele também merece ser "o cara" de hoje.


terça-feira, 18 de junho de 2013

Tatiana Belinky

No último final de semana demos adeus a uma das maiores escritoras contemporâneas de livros infantis, Tatiana Belinky. 


Ela faleceu aos 94 anos e deixou para nós toda uma coleção de estórias, contos e poemas. Nascida na Rússia, veio para o Brasil com 10 anos e escreveu mais de 250 livros infanto-juvenis, além de ser a responsável pela primeira adaptação do "Sitio do pica-pau amarelo", de Monteiro Lobato, para a televisão. Portanto, se não fosse ela, talvez as criações do autor não fossem tão importantes hoje.


Junto com o marido Júlio, com quem se casou na década de 40, começou a escrever estórias, que se tornaram roteiros para teatro que ele dirigia. Foi essa parceria que fez funcionar a versão do Sítio para a TV.

Tatiana disse certa vez que, para ela, a personagem mais importante da literatura brasileira é a Emília: a escritora sempre quis ser uma bruxa, desde pequena, mas, ao conhecer a boneca criada por Lobato, ela se apaixonou e deixou a bruxaria de lado, passando a desejar ser Emília.


Ela também popularizou no Brasil os poemas no formato limerique, que é um estilo bem peculiar de escrever poemas: com apenas cinco linhas e ritmo ascendente, formado por duas sílabas átonas e uma sílaba tônica. Acredita-se que esse tipo de construção tenha se originado na cidade de Limerick, na Irlanda, e geralmente tem um tom humorístico ou obsceno.

Tatiana escreveu os livros "Melodiques", "O livro dos disparates com os limeriques de Tatiana", "Limeriques das coisas boas" e "Limeriques de um bípede apaixonado", todos com esse formato de verso.


É necessário ter um dom para escrever para as crianças, e cativá-las com nossas estórias, e Tatiana possuia esse conhecimento, por isso, era respeitada e amada pelos pequenos, que adoram seus livros. Para ela, escrever era tão fácil quanto respirar, e isso fica claro em seus personagens, suas estórias, que são simples e conseguem divertir, entreter e ensinar ao mesmo tempo.

Vejam uma de suas entrevistas ao apresentardo Sérgio Groisman no programa "Ação" da Rede Globo, onde ela fala dessa facilidade em lidar com as palavras clicando aqui. No vídeo abaixo, uma outra pequena entrevista com a autora para a revista Crescer, contando um pouquinho da sua relação com Monteiro Lobato e de seu gosto pela Emília:


Tatiana também era tradutora, já que tinha o russo como primeiro idioma e, ao chegar no Brasil, também já falava alemão e letão (língua falada na Letônia). 

Ela recebeu o prêmio Jabuti, o mais importante da literatura nacional,  em duas oportunidades: 1989 como personagem literária do ano e em 1994, na categoria ilustração, com o livro "A saga de Siegfried".


Em 2010, Tatiana entrou para a Academia Paulista de Letras, mas deveria ter entrado também na Brasileira.

Como escritora, sei que na minha cabeça passam muitas estórias e palavras o tempo todo, e sempre me pergunto como é com os outros colegas. Bem, Na entrevista a Groisman ela me respondeu isso, dizendo que em sua cabeça existem inúmeras estórias, e que ela as deixa sair, simplesmente, dando vida à tudo aquilo que imagina. Sábia Tatiana.


segunda-feira, 17 de junho de 2013

Um pouquinho de...


O quote de hoje vem do livro "O retrato de Dorian Gray", de Oscar Wilde, que já resenhei aqui.  

"Pois observar o quadro proporcionaria prazer real. Ele poderia acompanhar a própria mente adentro de seus locais secretos. Esse retrato seria, para ele, o mais mágico dos espelhos. Já que lhe revelara o próprio corpo, revelaria também a própria alma. E no momento em que o inverno viesse descer sobre o quadro, ele ainda estaria no ponto em que a primavera estremece com o raiar do verão. Quando o sangue se esvaísse daquele rosto, deixando uma máscara pálida de giz e olhos plúmbeos, ele ainda contaria com o esplendor da adolescência. Nenhuma flor daquela graça, por única que fosse, jamais enfraqueceria. Assim como os deuses gregos, ele seria forte, lépido, alegre. Não importa o que acontecesse com a imagem colorida impressa na tela, ela estaria a salvo. Eis tudo."

(página 141, capítulo VIII)

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Sexta de música #25

Na semana passada não pude postar essa coluna, sorry. Mas hoje ela volta, analisando uma das letras mais incríveis de Arnaldo Antunes, "O silêncio"


Essa música tem uma melodia bem característica, assim como a maioria desse CD, e a letra dela é tanto complexa quanto simples. Todos os seus versos vão nos levando de volta no tempo, até a época da formação do universo, e isso vai acontecendo conforme o cantor analisa as coisas que existiam (ou não) antes da popularização dos computadores. 

Essa é uma das artes visuais de Arnaldo, que podem ser vistas em seu site clicando aqui.

Para quem, como eu, gosta e acompanha o trabalho do Arnaldo, vai reconhecer logo de cara seu estilo de composição, sempre trabalhando muito bem com as palavras e criando as letras mais incríveis e próximas da realidade do ouvinte.


Essa é a capa do álbum que tem canções ótimas, já comentadas nesse post aqui, totalmente dedicado ao cantor.

Então vamos à essa letra:

"Antes de existir computador existia tevê
antes de existir tevê existia luz elétrica
antes de exisitr luz elétrica existia bicicleta
antes de existir bicicleta existia enciclopédia
antes de existir enciclopédia existia alfabeto
antes de existir alfabeto existia a voz
antes de existir a voz existia o silêncio
o silêncio
foi a primeira coisa que existiu
um silêncio que ninguém ouviu
astro pelo céu em movimento
e o som do gelo derretendo
o barulho do cabelo em crescimento
e a música do vento
e a matéria em decomposição
a barriga digerindo o pão
explosão de semente sob o chão
diamante nascendo do carvão
homem pedra planta bicho flor
luz elétrica tevê computador
batedeira, liquidificador
vamos ouvir esse silêncio meu amor
amplificado no amplificador
do estetoscópio do doutor
no lado esquerdo do peito, esse tambor."


Esse vídeo é bem bacana, foram usados desenhos de crianças da 6a. série para compor as imagens. E queria chamar a atenção de vocês para o backing vocal da música, feito por crianças e que sempre precisam repetir as palavras mais difíceis da letra. No vídeo a música foi cortada em algumas partes, e tentei carregar outro com a música inteira mas não consegui, então cliquem aqui e sejam redirecionados para ele.

Como eu sempre fui maluca por construção de frases e palavras diferentes, pirei logo na primeira vez que ouvi essa música. O Arnaldo é formado em Letras e Linguística, então ele entende muito bem da língua e usa todo esse conhecimento, com muita facilidade aliás, quando compõe suas canções. Todas elas são bem estruturadas e usam uma mistura de palavras comuns com outras não tão usadas no dia a dia para construir poesias musicais.

Em "O silêncio" há uma simplicidade incrível, que nos leva a uma interpretação mais complexa da importância que damos às menores coisas presentes no nosso dia a dia, mas que só nos damos conta do quão essenciais elas são quando elas nos faltam. Um exemplo claro disso é a luz elétrica: é tão fácil para nós bater a mão no interruptor e acender uma lâmpada que isso é quase um gesto automático. E quando falta a energia elétrica ficamos sem saber como agir.

Por outro lado, Arnaldo alfineta aquela nossa mania de substituir algo útil pela última novidade tecnológica lançada no mercado. Vejam no verso "antes de existir computador existia tevê": a televisão foi uma grande revolução à época de seu lançamento, dominou as residências e o gosto das pessoas durante anos, até que o computador se tornou acessível a todos. A sugestão da música é de que, por mais importante que seja, tudo se torna efêmero quando encontramos algo novo.


Se invertermos a ordem da letra, vamos começar lá nos primórdios do universo, quando tudo ainda era só silêncio, depois passamos pela voz, quando os homens conversavam mas ainda não tinha criado o alfabeto, passando pela organização das palavras numa enciclopédia e entrando na grande evolução que foi o uso da luz elétrica, indo direto para a criação da televisão e culminando na tecnologia de ponta criada pelo homem que são os computadores. Interessante, não?

E no refrão, minha parte preferida é "...o barulho do cabelo em crescimento e a música do vento..."; imagine viver num silêncio tal que você consiga ouvir o ínfimo som que faz o fio de cabelo ao nascer na sua cabeça! Claro que podemos ouvir o barulho que o vento faz quando sopra, mas, romantizando um pouco a coisa e viajando na poesia, imagine o som do vento como uma canção suave, que pode não só ser ouvida, mas ser aproveitada, sentida mesmo, sem ter nenhum interferência de outros sons. O barato da música é fazer você mensurar aquilo que quase ninguém percebe, fazendo um contraponto com outros sons que estão sempre presentes e que se tornam comuns, como o da batedeira ou do liquidificador.

Essa é uma das características das músicas do Arnaldo, fazer o ouvinte viajar, refletir, imaginar. Só um grande poeta, que domine totalmente as palavras, é capaz de criar coisas assim, e deixá-las leves, populares, bem próximas das pessoas. O silêncio de Arnaldo Antunes fala.


quinta-feira, 13 de junho de 2013

Sete de paus - resenha


"Em Sete de Paus, o leitor é conduzido por um enredo à altura dos clássicos do gênero, mas com um ingrediente que faz toda a diferença: seu peculiar humor. A trama tem início quando Hans Schneider, professor da Universidade Federal de Florianópolis, de reputação inabalável, aparece morto com um tiro na testa e com o próprio pênis enfiado na boca; Na virilha, uma carta de baralho: o sete de paus. Durante a investigação, ocorre outro assassinato com as mesmas características, o que leva a polícia a trabalhar com a hipótese de se tratar de um serial killer. Qual o motivo e, principalmente, quem estaria por trás desses crimes era uma pergunta que só o agente federal Ugo Fioravanti Neto e o seu jovem parceiro Darwin Matarazzo poderiam responder. E tinha que ser rápido - antes que o assassino em série fizesse mais uma vítima."

Conheci Mario Prata, e fiquei sua fã, quando li suas crônicas no jornal "O Estado de S. Paulo". Gosto do estilo de escrita dele, sempre irreverente e refletindo fatos reais, por isso, quando vi o livro na prateleira da loja, nem pensei duas vezes para comprá-lo.

Eu não era fã do gênero policial até ler a trilogia de Tony Bellotto com o detetive Bellini, e agora me encantei ainda mais com a qualidade da estória de Mário, que é intrigante, bem costurada e cheia de pequenas referências à outras obras, feitas de forma muito inteligente, se integrando ao enredo sem que ele perca a qualidade ou saia da linha que está seguindo.

Ambientada em Florianópolis, onde o autor mora há alguns anos, a narrativa brinca um pouco com os costumes dos manezinhos da ilha, como são chamadas as pessoas nascidas lá, e também usa vários lugares conhecidos e pontos turísticos da cidade para enriquecer a trama. 

O detetive Ugo Fioravanti é um boêmio, e tem agora como assistente o jovem Darwin, afoito por aprender suas melhores táticas de investigação. Com a morte misteriosa do professor Schneider eles têm a missão de descobrir quem é seu assassino e mais, impedir que outras pessoas sejam mortas por esse possível serial killer, que deixou como pista - ou aviso - uma carta de baralho na virilha do cadáver, no lugar do pênis decepado: o sete de paus (aproveitando a metáfora para fazer pilhéria com o membro arrancado da vítima). Isso foi uma clara alusão ao número de vítimas que o matador ainda planejava fazer. 

Na busca pelos possíveis alvos do assassino, os investigadores descobrem que os alvos dele seriam membros da maçonaria e que fariam parte de uma confraria secreta. Durante toda a busca, vamos conhecendo melhor as manias de Ugo e a diferença abismal entre seu estilo de vida e de Darwin. Os diálogos entre eles são brilhantes!

Um ponto forte do livro é a descrição dos personagens: o autor dedica uma atenção especial a eles, nos inteirando de todos os detalhes de sua personalidade ou de seu físico, sempre com uma pitada de humor e sarcasmo usados de forma muito inteligente.

Mesmo nos momentos mais tensos da narrativa, as tiradas do autor são perfeitas e dão um toque refinado de comicidade à estória. Isso é uma característica de Mário, sempre utilizada em seus textos e crônicas.

O final do livro é surpreendente e, após terminada a leitura, é possível identificar claramente cada uma das referências às famosas tramas policiais usadas durante toda a estória. 

Como primeira investida de Mário Prata no gênero, ele se saiu muito bem, conseguindo criar uma narrativa interessante, fácil de ler e cheia de momentos hilários.

"Sete de paus"
Mário Prata
editora Planeta
264 páginas