domingo, 2 de junho de 2013

Filmando #8 - Anônimo

Gosto muito de ler sobre as especulações em torno da identidade de William Shakespeare e a obra atribuída a ele:  desde o século XVIII as pessoas vêm colocando em dúvida se ele teria sido mesmo o responsável pelas mais brilhantes peças de todos os tempo, como "Hamlet", "Othelo" e "Rei Liar", ou se elas teriam sido escritas por outro dramaturgo, ou até mesmo por um grupo de pessoas. Já falei em mais detalhes sobre isso num post especial sobre o autor aqui.

Volto a esse assunto porque assisti ao filme "Anônimo" (2011), dirigido por Roland Emmerich ("O Patriota", de 2000 e "Independence Day" de 1996) que fala exatamente sobre isso, e mostra uma das muitas suposições que são feitas quanto a verdadeira autoria dos textos de Shakespeare.



No filme o escritor Ben Johnson está estreando sua mais nova peça, quando recebe no teatro a visita do Conde de Essex, Edward, que lhe pede para montar um espetáculo baseado em uma estória escrita por ele, mas sem revelar sua identidade. Para isso, o Conde lhe paga uma boa quantia em dinheiro e Ben aceita. A peça é um sucesso entre o público e seu verdadeiro autor, que está na plateia, transborda de felicidade. Mas as outras pessoas que estão assistindo a apresentação começam a gritar pedindo para que o autor venha ao palco. Quando ninguém se candidata, o jovem ator William, que está nos bastidores, vê o manuscrito da peça em uma mesa, toma coragem, e se apresenta como o responsável pela obra. Claro que ele é aclamado pelos espectadores, mas por outro lado, causa revolta em Johnson, que prometera a Edward manter o autor como anônimo.


Devido ao sucesso da primeira apresentação, o Conde de Essex entrega novo roteiro para Johnson, a fim de vê-lo encenado, e se trata de nada mais nada menos que o clássico "Romeu e Julieta". A peça também é um sucesso, e isso desencadeia uma série de apresentações de textos escritos pelo Conde, mas como se fosse de autoria de Shakespeare.


A tensão da trama se dá quando Ben (Sebastian Armesto, na foto acima), aparentemente, se sente usado por William, e até com ciúmes pelo sucesso repentino do amigo, sabendo que ele é praticamente analfabeto e não é merecedor da fama. Shakespeare é retratado quase como um aproveitador: ele vê a oportunidade de fazer seu nome como dramaturgo, e deixar para trás a carreira mal sucedida de ator. Então, para continuar carregando como sua a autoria das peças de Edward, Will chantageia o Conde e recebe muito dinheiro para isso.

Como pano de fundo vemos a cena política da Inglaterra da época, com a rainha Elizabeth tendo que se defender para não perder o trono para um nobre escocês e, ainda, convivendo com a cobiça de seu próprio conselheiro, que também pretende tomar o poder.


O foco da estória é no Conde de Essex (foto acima): sua vida desregrada, com muitas amantes, e o caso que teve com a rainha, que lhes rendeu um filho bastardo. Além disso, Edward tem que esconder seu dom, que é escrever romances incríveis, tragédias e comédias capazes de encantar toda a corte. O ofício de escritor é mal visto dentre os nobres, e é creditado a pessoas mais humildes, por isso, desde a adolescência, o Conde é desencorajado a escrever, sendo obrigado a estudar outras matérias que não a literatura, e aprender a duelar com a espada. Mas, como escrever, além de ser um dom é uma necessidade para todo escritor, ele não consegue conter os impulsos de registrar duas estórias em papel, secretamente.

Talvez o roteiro do filme não tenha ficado tão bom, mas a estória vai sendo contada mesclando imagens do que seria o presente, com o Conde de Essex entregando suas peças a Ben para serem apresentadas, e outras do passado, quando ele era jovem e se apaixonou pela rainha Elizabeth. A fotografia do filme é perfeita e o figurino mereceu a indicação que teve ao Oscar em 2012: os vestidos da rainha são incríveis e as roupas usadas pelos atores no teatro Rose deixa claro a diferença de status entre a nobreza e a plebe.


Também merece destaque a atuação de Rhys Ifans como Edward; depois de vê-lo em "Harry Potter e as relíquias da morte", como o visionário pai da Luna e em "Um lugar chamado Nothing Hill" fazendo o maluco alternativo Spike, é prazeroso acompanhar a sua capacidade de mutação e adaptação aos mais variados tipos de personagens. Vale lembrar que ele também é o Dr. Curts em "O espetacular Homem-Aranha", o vilão-lagarto que quer destruir a cidade.

Não posso deixar de comentar também sobre um pequeno detalhe no filme que faz toda a diferença: na primeira cena estamos dentro de um teatro, no início de uma peça que seria o filme, e vemos os atores sendo preparados para entrar em cena, enquanto um mestre de cerimônias/narrador introduz a estória do verdadeiro autor das obras de Shakespeare, e, automaticamente, a cena é transferida para o cenário do filme.

A frase final desse narrador, que encerra o filme, é muito marcante, e vou fechar o post com ela:


"E assim, a nossa história chega ao fim, mas não a do nosso poeta, pois seu memorial vive para sempre feito não de pedra, mas de versos. E ele será lembrado enquanto as palavras forem feitas de sopro, e o sopro de vida."


Um comentário:

  1. Oie Linda, tudo bem ?
    Olha eu tenho o DVD aqui em casa e sinceramente adoroooo...Porque a história é realmente muito envolvente.
    As vezes vem um soninho, mas dá para encarar, porque a história além de ser engraçada, também tem romance.
    É lindo...Eu adorooo...Não tenho o que falar dele.
    E parabens pela sua postagem, pois gostei muito de ler sobre ele =]

    lovereadmybooks.blogspot.com.br

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