sexta-feira, 14 de junho de 2013

Sexta de música #25

Na semana passada não pude postar essa coluna, sorry. Mas hoje ela volta, analisando uma das letras mais incríveis de Arnaldo Antunes, "O silêncio"


Essa música tem uma melodia bem característica, assim como a maioria desse CD, e a letra dela é tanto complexa quanto simples. Todos os seus versos vão nos levando de volta no tempo, até a época da formação do universo, e isso vai acontecendo conforme o cantor analisa as coisas que existiam (ou não) antes da popularização dos computadores. 

Essa é uma das artes visuais de Arnaldo, que podem ser vistas em seu site clicando aqui.

Para quem, como eu, gosta e acompanha o trabalho do Arnaldo, vai reconhecer logo de cara seu estilo de composição, sempre trabalhando muito bem com as palavras e criando as letras mais incríveis e próximas da realidade do ouvinte.


Essa é a capa do álbum que tem canções ótimas, já comentadas nesse post aqui, totalmente dedicado ao cantor.

Então vamos à essa letra:

"Antes de existir computador existia tevê
antes de existir tevê existia luz elétrica
antes de exisitr luz elétrica existia bicicleta
antes de existir bicicleta existia enciclopédia
antes de existir enciclopédia existia alfabeto
antes de existir alfabeto existia a voz
antes de existir a voz existia o silêncio
o silêncio
foi a primeira coisa que existiu
um silêncio que ninguém ouviu
astro pelo céu em movimento
e o som do gelo derretendo
o barulho do cabelo em crescimento
e a música do vento
e a matéria em decomposição
a barriga digerindo o pão
explosão de semente sob o chão
diamante nascendo do carvão
homem pedra planta bicho flor
luz elétrica tevê computador
batedeira, liquidificador
vamos ouvir esse silêncio meu amor
amplificado no amplificador
do estetoscópio do doutor
no lado esquerdo do peito, esse tambor."


Esse vídeo é bem bacana, foram usados desenhos de crianças da 6a. série para compor as imagens. E queria chamar a atenção de vocês para o backing vocal da música, feito por crianças e que sempre precisam repetir as palavras mais difíceis da letra. No vídeo a música foi cortada em algumas partes, e tentei carregar outro com a música inteira mas não consegui, então cliquem aqui e sejam redirecionados para ele.

Como eu sempre fui maluca por construção de frases e palavras diferentes, pirei logo na primeira vez que ouvi essa música. O Arnaldo é formado em Letras e Linguística, então ele entende muito bem da língua e usa todo esse conhecimento, com muita facilidade aliás, quando compõe suas canções. Todas elas são bem estruturadas e usam uma mistura de palavras comuns com outras não tão usadas no dia a dia para construir poesias musicais.

Em "O silêncio" há uma simplicidade incrível, que nos leva a uma interpretação mais complexa da importância que damos às menores coisas presentes no nosso dia a dia, mas que só nos damos conta do quão essenciais elas são quando elas nos faltam. Um exemplo claro disso é a luz elétrica: é tão fácil para nós bater a mão no interruptor e acender uma lâmpada que isso é quase um gesto automático. E quando falta a energia elétrica ficamos sem saber como agir.

Por outro lado, Arnaldo alfineta aquela nossa mania de substituir algo útil pela última novidade tecnológica lançada no mercado. Vejam no verso "antes de existir computador existia tevê": a televisão foi uma grande revolução à época de seu lançamento, dominou as residências e o gosto das pessoas durante anos, até que o computador se tornou acessível a todos. A sugestão da música é de que, por mais importante que seja, tudo se torna efêmero quando encontramos algo novo.


Se invertermos a ordem da letra, vamos começar lá nos primórdios do universo, quando tudo ainda era só silêncio, depois passamos pela voz, quando os homens conversavam mas ainda não tinha criado o alfabeto, passando pela organização das palavras numa enciclopédia e entrando na grande evolução que foi o uso da luz elétrica, indo direto para a criação da televisão e culminando na tecnologia de ponta criada pelo homem que são os computadores. Interessante, não?

E no refrão, minha parte preferida é "...o barulho do cabelo em crescimento e a música do vento..."; imagine viver num silêncio tal que você consiga ouvir o ínfimo som que faz o fio de cabelo ao nascer na sua cabeça! Claro que podemos ouvir o barulho que o vento faz quando sopra, mas, romantizando um pouco a coisa e viajando na poesia, imagine o som do vento como uma canção suave, que pode não só ser ouvida, mas ser aproveitada, sentida mesmo, sem ter nenhum interferência de outros sons. O barato da música é fazer você mensurar aquilo que quase ninguém percebe, fazendo um contraponto com outros sons que estão sempre presentes e que se tornam comuns, como o da batedeira ou do liquidificador.

Essa é uma das características das músicas do Arnaldo, fazer o ouvinte viajar, refletir, imaginar. Só um grande poeta, que domine totalmente as palavras, é capaz de criar coisas assim, e deixá-las leves, populares, bem próximas das pessoas. O silêncio de Arnaldo Antunes fala.


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