quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Pelas janelas - resenha


"Graças à qualidade de artista, de artista-poeta, Juliano Cazarré tem um jeito especial, contemplativo e sensível, de ver o mundo. É este olhar que ele apresenta em 'Pelas janelas', a primeira reunião de seus versos a ser publicada e que fala sobre as frestas por onde podemos espiar a vida. Impressionam as múltiplas facetas do autor, assim como o talento com que ele desempenha cada uma delas: roteirista, cineasta, ator (que ficou conhecido por viver o personagem Adauto na novela Avenida Brasil) e, a partir de agora, poeta. Como Wagner Moura destaca na orelha do livro, a melhor definição para o autor é artista; nesse texto de apresentação Wagner ainda completa: 'De todos, o poeta é sem dúvida o sumo do sujeito que faz arte, pois todo artista o que quer é criar poesia'. Através das janelas, Juliano enxerga o mundo: ora em um detalhe, ora com uma visão mais ampla. Todos os ângulos e distâncias, entretanto falam a uma gama enorme de pessoas - tudo porque seus poemas, que tocam no âmago, são universais."

Foi uma agradável surpresa descobrir que por trás daquela aparência simples de Juliano Cazarré mora um poeta sensível e com uma visão  tão peculiar de coisas simples da vida. Em seu livro de estreia, o autor/ator/cineasta nos apresenta uma série de poemas temáticos, alguns minimalistas, outros cheios de significados e referências inteligentes, que são, com certeza, suficientes para acrescentar mais uma habilidade a Juliano: poeta.

Eu costumo ler bastante poesia, também as escrevo, e encontrei nesse livro um estilo bem peculiar de retratar diversos assuntos e situações usando a poesia, de maneira rica e perspicaz. Não sei se eu seria capaz de desenvolver tantos poemas falando sobre o mesmo assunto, com conteúdo e todos muito bem estruturados e fazendo sentido, usando as palavras com inteligência, nos lugares certos.

Para citar um exemplo da facilidade com que Juliano trabalha assuntos complexos com maestria e faz referências a outros gêneros e personagens literários, o poema "Dois sonetos para Bartleby" fala sobre a criação do escritor norte-americano Herman Melville, e que deu origem ao termo Síndrome de Bartleby, que é usada quando um escritor, após atingir o ápice literário, decide parar de escrever. De forma lúdica o poeta insere a situação criada no conto de Melville no seu universo de janelas, sem que isso pareça forçado:

"Muito já foi dito
sem definitivo parecer,
sobre os motivos do escriturário
para preferir não fazer.

O enigma, entretanto,
é de fácil resolver. 
Era a vista de sua janela,
pobre de coisas para ver.

............................................

Mas janelas eram tudo
o que Bartleby não tinha.
Copiando não criava

e pela janela não via.
Desse jeito, eu também,
não fazer preferiria."

Chama a atenção também a facilidade com que o autor trabalha suas frases para dizer muito com bem pouco, como nas pequenas quadrilhas espalhadas ao longo do livro, denominadas "Quadrinhas infames". E alguns poemas de um verso só, espalhados ao longo do livro, mostrando algumas vezes verdades cruéis, e outras vezes um toque de humor.

"O olho mágico é uma janela que esqueceu de crescer."

Até quem não tem o hábito de ler poesia vai gostar desse livro; ele é de fácil leitura e compreensão. Os poemas de Juliano têm muitas janelas a serem desvendadas, desde as mais óbvias até aquelas mais secretas e encantadoras. Do vidro do metrô a janelinha deixada pelo dente que acaba de cair, as visões do autor através de cada uma delas vai encantar a todos.

Pelas janelas
Juliano Cazarré
editora Dublinense
nota do blog: 5
nota do Skoob: 3
onde comprar: Submarino, Americanas e Saraiva

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