quinta-feira, 17 de abril de 2014

A menina que roubava livros - resenha


"Ao perceber que a pequena Liesel Meminger lhe escapa, a Morte se afeiçoa à menina e começa a seguir seus passos e narrar sua trajetória: desde o momento em que a mãe, perseguida pelo nazismo, tenta entregar Liesel e o irmão para adoção até o fim abrupto de sua convivência com essa família que recebera a menina de braços abertos. O irmão de Liesel morre no meio do caminho e, durante seu enterro, a menina rouba seu primeiro livro, um manual para coveiros. Já na casa dos pais adotivos, a menina é assombrada por pesadelos e a única coisa que a conforta é a convivência com o pai que, mais tarde, vai ajudá-la a aprender a ler e incentivá-la a conhecer novas palavras constantemente. Os roubos de livros vão se tornado mais frequentes e Liesel os lê ou no porão de sua casa ou na biblioteca da esposa do prefeito. Em meio ao culto a Hitler durante a Segunda Guerra, Liesel concilia o medo que paira sob todos com uma infância cheia de aventuras como deveria ser a de qualquer criança, sempre acompanhada por seus livros."

Nunca tinha dado muita bola pra esse livro, até assistir ao filme. Me apaixonei pela personagem principal e decidi que era hora de conhecer a estória completa. Eis que a leitura logo no início me surpreendeu: o  livro é incrível! Desde a diagramação das páginas, passando pelas pequenas observações feitas pelo narrador entre um parágrafo e outro, até a linguagem quase poética usada pelo autor para falar de certos acontecimentos mais pesados, tudo ali é cativante.

A personagem Liesel, inicialmente, parece que vai ser uma menina triste e sofredora, mas logo se mostra apenas uma criança comum, apesar das grandes perdas que já sofrera, e, acima de tudo, uma pessoa determinada e sonhadora.

Ela rouba seu primeiro livro no enterro do irmão, quando o coveiro o deixa cair na neve. Mas o detalhe é que ela não sabe ler, e ainda assim se apaixona por aquele objeto misterioso. Quando o pai de criação, Hans, descobre o livro e percebe que ela não sabe ler, trata logo de ajudá-la a aprender, sem saber ele mesmo ler muito bem. A partir daí cria-se uma relação de cumplicidade e confiança entre os dois, que perdura por toda a narrativa.

O que, inicialmente, me afastou um pouco do livro foi ele ser ambientado durante a Segunda Guerra; esse assunto me entristece e eu realmente não gosto de ler nada sobre ele. Mas foi muito prazeroso descobrir que, apesar do tema ser tão pesado, o autor conseguiu dar leveza à estória, mesmo quando se referia a acontecimentos cruéis e absurdos, como Hans sendo chicoteado por um soldado por ter oferecido um pedaço de pão a um judeu faminto. A linguagem usada por Zusak para contar essa estória deixou tudo muito menos feio, menos denso, e a guerra, apesar de ser quase um personagem, fica meio que ao fundo enquanto tudo vai se desenrolando.

Um ponto importante do livro é a amizade que logo se instaura entre Liesel e seu vizinho de cabelos cor de limão, Rudy. Ele é um menino agitado, que gosta de esportes e que tenta por diversas vezes ganhar um beijo da amiga, mas ela sempre nega. Com certeza merece destaque a parte em que ele se pinta de preto para parecer Jesse Owens, seu ídolo, que ganhou 4 medalhas nas Olimpíadas de Berlim em 1936.

A trajetória como roubadora de livros de Liesel é muito interessante, e fica claro em cada um dos roubos que ela não o faz por maldade, mas por amor e desejo de ter as histórias sempre ao seu redor. Ela acaba conhecendo a biblioteca da casa do Prefeito da cidade e se encanta por aquele universo. Quando ela se vê impedida de entrar na casa pela porta da frente, começa a pular a janela e furtar os livros para ler em casa. Isso acaba se tornando um hábito e, nos momentos em que ela se sente triste, volta lá e rouba mais um exemplar da coleção pessoal da esposa do prefeito.

A Morte é a narradora da estória, e também é um personagem relevante, o que inicialmente pode causar certa surpresa, mas logo de início dá para perceber que ela não vai ser tão sinistra e que sua presença não vi deixar o clima mais fúnebre. Essa escolha do autor de colocar como narrador onisciente uma entidade que amedronta a todos foi muito ousada, mas ele soube usar com perspicácia o ponto de vista dela. Em algumas passagens do livro, a Morte se mostra menos atroz do que imaginamos, e capaz de sentir compaixão por algumas das almas que leva.

Claro que o livro tem momentos tristes, e não poderia deixar de ser assim, já que havia uma guerra em andamento. Apesar de algumas tragédias, há um clima de amor e fraternidade durante toda a narrativa. Acompanhar os acontecimentos desse evento tão triste da história mundial pelos olhos de uma criança inocente é bem interessante, e, por vezes, dá até para esquecer que Hitler estava no poder infligindo tanta maldade contra alguns seres humanos.

Uma dessas pessoas prejudicadas pelo Führer é Max, um judeu filho de um ex-companheiro de guerra de Hans, que busca abrigo em sua casa, e acaba vivendo por muito tempo escondido no porão da casa. Ele se torna um grande amigo de Liesel e, em certo momento, quando ele fica muito doente, a menina passa a roubar livros da casa do Prefeito para ler para Max, tentando tirá-lo do coma.

Os momentos vividos entre Liesel e Max são de ternura e delicadeza: impedido de sair do porão, ele pede à menina que diariamente lhe descreva o clima, e para tanto ela usa várias metáforas que transformam as previsões do tempo em verdadeiros poemas.

Apesar do final triste, o livro é todo lindo. A pequena Liesel conquista o leitor com sua meiguice e com sua devoção aos livros. Além de aprender a lê-los, ela também passa a escrever suas próprias estórias, e nós vamos com ela em toda essa trajetória de perdas e aprendizagem, que a torna uma pessoa boa e consciente de toda a maldade do mundo.

"A menina que roubava livros" com certeza vai entrar para os meus preferidos, e eu recomendo a todos. Além de ser apaixonante, ele também nos faz pensar no valor da vida e no respeito ao próximo.

A menina que roubava livros
Markus Zusak
editora Intrínseca
480 páginas
nota no Skoob: 4.5
nota do blog: 5

2 comentários:

  1. Oi adorei sua resenha...mas vc já leu o livro reverso escrito pelo autor Darlei... se trata de um livro arrebatador...ele coloca em cheque os maiores dogmas religiosos de todos os tempos.....e ainda inverte de forma brutal as teorias cientificas usando dilemas fantásticos; Além de revelar verdades sobre Jesus jamais mencionados na história.....acesse o link da livraria cultura e digite reverso...a capa do livro é linda ela traz o universo de fundo..abraços. www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?nitem..busca.livrariasaraiva.com.br/saraiva/Reverso
    www.buqui.com.br/ebook/reverso-604408.html

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    1. Na verdade, Juliano, eu nunca tinha ouvido falar desse livro. Vou procurar conhecer e saber se é bom mesmo.
      Valeu!

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