quinta-feira, 28 de agosto de 2014

O azarão [Resenha]


"O jovem Cameron Wolfe, aos 15 anos, está perdido na vida e vive em conflito com sua família. Trabalha com o pai encanador e sua mãe está sempre brigando com os filhos, na pequena casa onde todos moram juntos. Steve é o mais velho e mais bem-sucedido. Sarah é a segunda filha, e está sempre dando uns amassos com o namorado. Rube é o terceiro e o mais próximo de Cameron. Os dois, além de boxeadores amadores, vivem armando esquemas para roubar as lojas e outros locais do tipo. Contudo, os planos nunca saem do papel. Esse é um livro que fala sobre a vida e as lições que podem ser tiradas dela."

Esse é o primeiro volume da trilogia que fala sobre os irmãos Wolfe, e "O azarão" nos introduz na vida da família, apresentando os personagens e traçando o perfil de cada um deles. Com pais que prezam muito a disciplina e fazem de tudo para manter as contas em dia, cada um dos irmãos tem seu próprio jeito de encarar a vida: enquanto o mais velho, Steve, já trabalha e é muito bem sucedido no futebol, a irmã Sarah só quer saber de namorar e se divertir. Os dois mais novos, Rube e Cam são meninos que estão se descobrindo, achando seu lugar no mundo.

Os irmãos mais novos são muito unidos, e estão sempre juntos, seja para criticar a irmã, que vive agarrada ao namorado, ou para planejar pequenos golpes, que eles acreditam que lhe darão algum status, mas que, infelizmente, eles nunca dão certo.

Há um diferencial nesse livro: o autor intercala os capítulos com a narrativa de sonhos que Cam tem. Nesses sonhos ele, geralmente, reflete as coisas que viveu, e algumas metáforas usadas nesses sonhos servem para aproximar o leitor da real personalidade de Cameron, ajudando a entender alguns de seus pensamentos mais complexos. 

O autor escreve de maneira muito delicada, ressaltando as qualidades e os defeitos de seus personagens de maneira quase poética. Eu já tinha usado esse adjetivo para definir a escrita de Markus Zusak em "A menina que roubava livros", mas "O azarão" foi escrito antes dele, e já é possível identificar o mesmo estilo que o fez famoso. A forma como ele constrói as frases é muito peculiar e, apesar de ser um livro que se enquadra no gênero young adult, se o leitor não tiver um pouquinho de experiência, alguns trechos podem se tornar difíceis de compreender.

"Sim. Ele acertou. Ah, estava tudo bem. Era como um machado abrindo as minhas juntas, e depois minha cabeça foi atingida pela mão esquerda dele. Ela se lançou para a frente e parou no meu queixo.
Com força.
Aconteceu.
O céu desabou.
Fiquei sem ar.
O chão oscilou.
O chão.
O chão.
Balancei.
Errei.
Rube riu, sob a barba que estava nascendo."

Todas as dúvidas que afligem um menino de 15 anos estão presentes na narrativa: o medo de não ser aceito, as mudanças em seu corpo, a vontade de ser bonito, a descoberta do primeiro amor, e o desejo de conquistar seu espaço, criar sua identidade. Cameron tem momentos de reflexão muito interessantes, onde ele fala sobre seu amor pela família, o respeito que tem pelo pai, a admiração pelo irmão mais velho, e a vontade de encontrar uma menina com quem compartilhar seus anseios de felicidade.

Os meninos são bastante inocentes e é possível perceber em suas atitudes do dia a dia a falta de malícia que eles têm. Quando brincam de luta, cada um usando apenas uma luva, já que só têm um par delas, fica claro a proximidade que eles ainda mantêm da infância. E depois, quando percebem que o cachorro do vizinho está precisando da ajuda deles, notamos a percepção quase romântica que eles têm da realidade. O sinal mais evidente de que estão passando pela fase de transição entre infância e adolescência é a barba de Ruben, que está crescendo e ele insiste em não fazê-la, apesar dos protestos de seu pai.

O livro fala bastante sobre amizade: Cam tem em Rube seu amigo mais próximo, pois estão sempre juntos, são cúmplices um do outro, e trocam confidências à noite, antes de dormir, dividindo o mesmo quarto. Apesar dessa cumplicidade, Cameron tem medo de compartilhar seus medos mais profundos, e algumas dúvidas acabam ficando para o volume dois da série.

O destaque da estória fica para a bondade presente nos personagens. Mesmo quando Rube e Cameron planejam assaltar o consultório dentário que fica perto da casa deles, é possível identificar esse sentimento nos meninos. O autor deixa claro que as peripécias da dupla de irmãos não passa de  confusão adolescente e, mesmo não concordando com algumas atitudes deles, é totalmente possível entendê-los.

Com mais uma narrativa singela e cheia de emoção, Zusak nos contagia com o turbilhão se sensações vividas por Cameron Wolfe, e, a cada capítulo, nos afeiçoamos mais com esse jovem comum, que poderia ser qualquer um de nós.

O azarão
Markus Zusak
editora Bertrand Brasil
176 páginas
nota do blog: 4
nota do Skoob: 3.4

4 comentários:

  1. Nossa Joana, eu nem conhecia esse livro, mas pela sinopse e resenha parece ser muito bom. Estou com A Menina que Roubava Livros plastificada na minha prateleira, ainda. O problema é que eu leio os livros conforme eu vou comprando, e eu comprei tantos que acabei esquecendo dela, vou lê-lo imediatamente, ah e quando sobrar um tempo eu começo a ler o Azarão, que pelo visto parece ser bem bacana.
    Abraços e que a força esteja com você!
    http://www.paradageek.com/

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    1. Bom Mateus, eu sou suspeita para elogiar esse livro, já que me apaixonei pelo estilo do Zusak em 'A menina que roubava livros", e consegui identificar esse mesmo estilo aqui. Ele escreve de uma forma muito delicada sobre dilemas do dia a dia, e isso deixa tudo muito mais poético. Você precisa ler, depois me contar o que achou, ok?

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  2. Oi, Joana!
    Gostei da sua resenha, mas não fui muito com a cara do livro!
    Não sei por que, mas a história não me atraiu, infelizmente. Ou felizmente: Menos um livro na minha extensa lista de "quero ler"!
    =D

    http://osdragoesdefogo.blogspot.com/

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    1. Oi Kaio!
      Com base nas suas leituras e suas resenhas no blog, acho que esse não seria muito o seu estilo de livro mesmo, rsrs.
      Quem sabe um outro dia ele te encante?
      Bjos!

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