sexta-feira, 20 de março de 2015

A música do silêncio [Resenha]

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"Debaixo da Universidade, bem lá no fundo, há um lugar escuro. Poucas pessoas sabem de sua existência, uma rede descontínua de antigas passagens e cômodos abandonados. Ali, bem no meio desse local esquecido, situado no coração dos Subterrâneos, vive uma jovem. Seu nome é Auri, e ela é cheia de mistérios. Esse livro é um recorte breve e agridoce de sua vida, uma pequena aventura só dela. Ao mesmo tempo alegre e inquietante, esta estória nos oferece a oportunidade de enxergar o mundo pelos olhos de Auri. E nos dá a chance de conhecer algumas coisas que só ela sabe..."


Tive problemas com esse livro. Só 140 páginas, ele me consumiu mais de uma semana. O começo foi estranho, a leitura não engrenava, e muitas vezes tive vontade de desistir. Mas por se tratar da estória de um dos personagens mais intrigantes de "As cronicas do matador do rei", de Patrick Rothfuss - autor no qual eu confio plenamente para construir uma trama intrigante - eu insisti, e o final foi feliz.

Auri é uma personagem que na verdade não me chamou muito a atenção no primeiro livro da trilogia de Kvothe, mas que de repente ganhou uma grandeza e um lirismo interessante, que me fizeram gostar mais dela. Aqui o autor se dedicou a nos contar com mais detalhes como é o mundo sob a sua perspectiva, cheia de inocência e bondade, o que a tornou quase uma poesia, ou, como o próprio título do livro diz, uma música - mas que soa em silêncio.

Ela vive nos subterrâneos da Universidade, e só se mostra para Kvothe, com quem ela acaba por firmar uma bonita amizade. Nesse livro ele não aparece realmente, mas sua essência está presente em diversos momentos da narrativa, quando Auri menciona delicadamente sua proximidade.

Com seu jeito lúdico de ver as coisas, Auri vai levando uma vida solitária, e isso talvez seja uma das coisas que não ajudam a engrenar a leitura: não há diálogos ao longo da narrativa, ou interação com outro personagem (leia-se pessoa, já que Auri interage com coisas), tampouco momentos de grande ação e reviravoltas. Depois de mais da metade do livro, a estória começa a encantar, e dá vontade de voltar a ler de novo desde o inicio para entender como ela não nos agarra já no primeiro parágrafo.

Enquanto Auri narra os acontecimentos de sua vida ao longo de 7 dias, percebemos que aquele universo, que lá fora é tão cheio de maldade, disputas desleais e trapaças, não tem espaço ali em seu cantinho, e ela não se deixa abalar pelas mazelas vividas pelas pessoas comuns. Auri vê beleza em pequenas coisas, se atenta a detalhes mínimos, e é isso que a faz feliz.

O que mais me chamou a atenção na estória é a capacidade que Auri tem de dar vida a objetos inanimados, conferir-lhes sentimentos e vontades, e satisfazê-los, para sua satisfação pessoal. Talvez seja um pouco complicado explicar, mas ela se sente feliz ao final do dia quando revê tudo o que fez e sente que cada coisa está em seu lugar. O uso da prosopopeia em grande parte das ações de Auri confere a ela um ar totalmente poético, capaz de encantar o leitor mais distante e que, como eu, pode ter dificuldades para entrar no clima da estória.

"Em seguida, buscou o grande pilão de pedra lá onde ele se acocorava, todo furtivo e espreitante, na Casa da Trevas."

"A umidade estava em toda parte. O cheiro de podre. A areia grossa sob seus pés. O jeito de as paredes lançarem olhares mal-intencionados."

No final do livro e já apaixonada por Auri percebi a delicadeza na escrita de Rothfuss e o carinho com que ele tratou essa personagem singular. Apesar de ser difícil a ambientação no início da leitura, a estória conquista lentamente, página após página, transportando o leitor para o universo de Auri, nos permitindo entender sua gentileza para com tudo ao seu redor e a sutileza com que resolve seus problemas.

Se durante boa parte do livro a narrativa me causou certa estranheza, ao final ela me arrebatou, e eu não queria me separar de Auri; queria protegê-la, ampará-la, confortá-la. Não que ela precise de tudo isso, já que ela é bem forte dentro de seu corpinho minúsculo, mas dá vontade de ficar ao lado dela para que ela não se sinta sozinha.

No final existe uma nota do autor explicando como nasceu a ideia de escrever sobre Auri e se desculpando por ter criado uma estória tão singular. Foi só ali, depois de ler seus argumentos, que percebi porque o início da leitura me incomodava tanto: ele revela que tinha medo que o livro não vendesse exatamente pela falta de diálogos e de ação. Então, ciente de que até o próprio Rothfuss sentia que essa ausência poderia dificultar a vida do leitor, me senti mais a vontade com a estória, e passei a entender melhor o desenrolar da trama toda.

É impossível não se apaixonar por Auri, por sua inocência, sua pureza, sua doação. Patrick Rothfuss conseguiu novamente arrebatar meu coração. Se já é complicado ler "A música do silêncio" conhecendo os livros anteriores, acredito que seja ainda mais difícil para quem não os leu. Por isso, meu conselho é: leiam "O nome do vento" e "O temor do sábio" imediatamente. A leitura desses livros é uma experiência incrível e necessária.


A música do silêncio
Patrick Rothfuss
editora Arqueiro
144 páginas
nota do Skoob: 4.2
nota do blog: 4.7

7 comentários:

  1. Oi Joana! Estou louca pra ler esse livro pq O Nome do Vento e O Temor do Sábio são dois de meus livros preferidos. Mas fiquei receosa com esse lance de Auri não interagir com outras pessoas durante o livro... Pensei que eu veria Kvothe... :/

    http://maisumapaginalivros.blogspot.com.br/
    Mais Uma Página

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    1. Oi Michelly,
      eu tbm adoro os livros anteriores, e fiquei com uma vontade enorme de lê-los novamente. Será que dei um spoiler na resenha???? Desculpe, mas leia assim mesmo, se vc já é fã de Rothfuss, com certeza tbm terá a mesma experiência que eu tive com essa leitura.
      Bjos!

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  2. Oi Jo, concordo plenamente com você. Realmente a história demora a engrenar, ficamos mei confusos no início mas depois ela passa a ser bem mais interessante. Eu acredito que tenha sido bastante influenciada pela nota do autor no final do livro, pois ela me fez alguns pontos e pequenas coisas que deixei passar despercebida. Mas a verdade é que eu sou suspeita para falar já que Rothfuss é um dos meus autores preferidos. Infelizmente acredito que esta história não vá funcionar muito bem para todos e é essencial conhecer o universo do autor antes de se jogar nesta narrativa. Mas eu terminei a leitura encantada e morrendo de saudades de Kvothe

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    1. Isso mesmo Ju, a nota do autor influencia e esclarece alguns pontos depois da leitura. E infelizmente tbm acho que a pessoa precise conhecer o universo para realmente gostar dessa estória. O Rothfuss está nos deixando com tanta saudade de Kvothe que a qualquer momento vamos começar a ler tudo de novo, rsrs.

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  3. Ouvi falar muito bem dos dois livros anteriores e o lançamento desse só faz eu ter mais vontade de ler, agora preciso comprar a trilogia ♥

    Tudo que Motiva

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  4. Oi Jô,
    Como já te disse, eu me encantei com o primeiro livro e mesmo nele eu achei a Auri uma personagem extremamente fofa, o modo como ela perguntava ao Kvothe o que ele tinha trazido à ela e falando o que havia levado à ele era tão bonitinho, eles trocavam "presentes" incríveis que muitas vezes não damos valor quando os recebemos... estou louco para ler o segundo volume...
    Grande abraço!!

    Leitor Antissocial

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  5. Não tinha ouvido falar desses livros.
    Mas me interessei por a Auri dá atenção e "conversa"com objetos inanimados, adorooooo isso, porque vivo falando com coisas também! kkkkkkkk
    Se tiver oportunidade, lerei sim!
    bjoos

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