quinta-feira, 11 de junho de 2015

Da ordem ao caos [Resenha]


"Duncan é o aluno terceranista do Colégio Irving que ficou justo no quarto do ex-aluno albino da escola, Tim - que se envolveu em um episódio obscuro para o qual  havia muitas perguntas e poucas resposta. Ao entrar em seu novo quarto, Duncan encontra uma pilha de CDs que o ex-aluno lhe deixou, com revelações do passado nebuloso e que o levará para uma jornada em seus próprios conflitos, fazendo diversas relações com o tradicional trabalho de conclusão  do ensino médio do colégio, o ensaio sobre a tragédia."

O  período escolar já rendeu muitas estórias, e a princípio, essa pode parecer apenas mais uma. Mas não se enganem, ela é muito mais intensa que a maioria das outras tramas que lemos até agora. Num primeiro momento, o que me chamou a atenção foi o protagonista albino, que não é comum na literatura. O enredo não se resume apenas a deficiência de Tim, mas envolve seus sentimentos e a forma como as pessoas reagem frente à sua condição.

No colégio Irving existem várias tradições, e uma delas é que os formandos devem deixar um tesouro em seus quartos para que o próximo morador o encontre. E é a partir do tesouro deixado por Tim para Duncan que começamos a conhecer sua história e o que parece ter sido um grave incidente no ano anterior, quando Tim era terceranista.

O presente de Tim são diversos CDs, que Duncan começa a ouvir já no primeiro dia na escola, e o que ele encontra é uma narrativa feita pelo aluno albino de tudo o que aconteceu no ano passado, desde o momento em que Tim saiu de casa, até a noite que mudou completamente sua vida.

Acompanhamos em detalhes como foi que Tim conheceu Vanessa, também aluna do Irving, e como, pela primeira vez, ele se sentiu atraído por uma garota. Depois, ao longo da narrativa, vemos como a amizade dos dois foi crescendo, se tornando uma cumplicidade natural, uma relação de confiança, apesar de Vanessa ter namorado.

Uma outra tradição muito respeitada no colégio é o jogo promovido pelos terceranistas, quase no final do ano letivo, e que era sempre uma surpresa, organizado pelo diretor da turma. Apenas alguns alunos do segundo ano participavam desse jogo, e um deles era escolhido como diretor do próximo ano. Parece meio confuso, mas no livro isso é explicado em detalhes e fica tudo muito compreensível. A questão é que o diretor do terceiro ano é justamente o namorado de Vanessa, e ele, misteriosamente, inclui Tim na organização do evento, inclusive na escolha do próximo diretor.

Quis o destino que o escolhido fosse Duncan, e é por isso que Tim deixa para ele toda a história da noite dos jogos gravada nos CDs.

Em paralelo ao mistério do que aconteceu na noite do jogo, temos o trabalho de conclusão de curso que todos os alunos devem fazer: escrever um ensaio sobre a tragédia. Para isso, eles precisam falar sobre fatos trágicos que já aconteceram, e explicar como aquilo se configura numa tragédia, além de embasar sua tese com determinados elementos fornecidos pelo professor. E isso tem tudo a ver com o que está acontecendo com Duncan, enquanto ele ouve os CDs e conhece os detalhes da tragédia do ano anterior. Isso vai mexendo com sua cabeça, e ele passa a maior parte de seu tempo dentro do quarto, ouvindo  a narrativa de Tim, deixando de lado até sua namorada Daisy.

O desenrolar da estória é eletrizante, e é impossível parar de ler até descobrir o que realmente aconteceu no passado com Tim e Vanessa. Mil coisas passaram pela minha cabeça enquando acompanhava a história dos CDs, mas eu não conseguia ter certeza sobre o que teria acontecido, ou quem teria sido vítima da tragédia, ou mesmo se houve uma tragédia naquela noite.

O mais interessante e inesperado, para mim, foi acompanhar a narrativa por uma terceira pessoa; na verdade é uma estória sendo contada dentro da estória, por um narrador onisciente que revela ao protagonista tudo o que ele viveu no passado. Tudo isso vai sendo intercalado pelo momento presente, vivido por Duncan, que precisa decidir como vai organizar o jogo do final do ano, além de conciliar seus estudos, o desenvolvimento do ensaio sobre a tragédia e a descoberta do amor. Os registros deixados por Tim nos CDs são cruciais para que Duncan organize corretamente sua própria vida, e não cometa os mesmo erros que o albino cometeu.

É impossível ficar indiferente ao sofrimento de Tim, que é tratado como uma aberração por algumas pessoas, apenas por ter a cor da pela diferente. Mesmo discretamente, a autora conseguiu falar sobre o bulliyng praticado no colégio, e mostrar que, no fundo, somos todos iguais, independente das nossas diferenças.

O final foi bastante satisfatório, apesar de um pouco triste. Depois de passar quase 300 páginas ansiosa para saber o que realmente tinha acontecido na noite dos jogos, foi bom ver que a autora não decepcionou, e conseguiu fechar a narrativa com chave de ouro, explicando tudo e amarrando todas as pontas, sem deixar nada para trás.

Essa foi uma leitura muito diferente para mim, mas extremamente interessante, tanto que devorei o livro num tempo recorde, e depois fiquei imaginando como aquelas pessoas continuariam vivendo depois de tudo o que lhes aconteceu, já que são apenas jovens, com a vida toda pela frente. Da ordem ao caos nos dá bastante coisas para pensar, e todos devem lê-lo.


Da ordem ao caos
Elizabet Laban
editora Farol Literário (Facebook: FarolLiterario)
320 páginas
nota do Skoob: 4.4
nota do blog: 5
(livro cedido pela editora em parceria)


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Joana Masen, quando não está resenhando, pintando e bordando por aqui, está escrevendo poesia no blog Milonga.
Twitter: @joana_masen


3 comentários:

  1. Oii,
    Só conhecia o livro do skoob mesmo e nunca tinha parado pra ler uma resenha.
    Achei bem interessante e espero ler. Também acho que nunca vi um livro que falasse sobre albinismo.
    Beijos

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    Respostas
    1. Oi Luana, o livro é bem interessante mesmo, e não só por causa do albinismo. A narrativa é bem construída e deixa a gente com vontade de saber logo o final, rsrs.

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  2. Sua resenha me deixou sem fôlego, eu queria saber mais e mais dessa estória!
    Nossa, nao sabia dessas tradições escolares de deixar coisas no quarto para o próximo morador, e sobre os jogos... cultura diferente demais da nossa nesse quesito de escola ne?
    Me interessei mto pelo livro e a sua nota me animou mesmo a conhecer o livro.
    Fiquei bem curiosa sobre o desfecho e oq tem nos CDs.
    Amei a dica!

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