domingo, 7 de junho de 2015

Fala, Rafa! - Bula Inventada



- Tem alergia a algum medicamento?
- Pelo que eu saiba, não doutor.
- Ok. vou te indicar um exame e o retorno.
No auge dos dezessete anos a idade vai chegando, comprimido doce que derrete na boca, desaparece das suas receitas, inevitavelmente.
Acordei leve, pude faltar na escola, tudo pra fazer um pequeno exame. Só que pequeno na verdade precisava ser o pânico. 
- Moça a gente vai aplicar esse tantinho na sua veia. Abre e fecha a mão, calmamente. - Disse a enfermeira com a seringa gorda de líquido. 
- Visão nada turva, boca seca. Confessei.
- Está tudo nos conformes lindinha. 
- Estou sem saliva mas quero conversar, adoro falar. 
Com risada a moça de branco aceitou o convite. 
- Espertinha! Aprendi isso com a minha filha também. Se ela fosse um animal gostaria de ser uma tartaruga. 
- Estou aplicando lentamente pra você não sentir e sabe que o devagar é o certo na vida? 
- Jura? Minha mãe precisa saber disso enquanto reclama que eu arrumo meu quarto bagunçado, por muito tempo. 
- Interessante. Gosto desse bicho. Palpitei 
Super me senti a vontade, falar ameniza anseio e refletir o cura. Mas a minha vez chegou. 
- Mas com um significado, a tartaruga anda devagarinho, lentamente, e sem a pressa consegue completar seu caminho, chegando sempre aonde quer chegar. Completou 
- Uau! Que filha escritora! 
- Que nada! Ela quer ser bióloga. 
- Ah claro, escritora sou eu! Respondi 
Um tubo com uma maca me esperava, mais assustador que isso, só o nome do exame. Ressonância Magnética. 
Simplesmente respirei fundo, fechei os olhos e me imaginei dançando ao som de um piano que desafinava se eu errasse o passo, o cenário eram as areias brancas e quando cansei fui boiar nas águas cristalinas. 
- Rafa, te garanto trinta minutinhos no máximo, sem movimentos. 
- Brigada por me avisar, vou para o Caribe nesse meio tempo. 
Ela riu alto e elogiou minha criatividade. Já lá dentro, senti um pedaço da máquina quente, algo determinado esquentava suportavelmente. Nem um par de protetor auricular e fone evitou que eu não escutasse os barulhos ensurdecedores do equipamento. 
- Prontinho, e ai como foi? Ela indagou.
Aliás em caso de pavor, viaje, escolha seu destino e siga em frente, só abra os olhos pra ver se já chegou. Quando cansar, pare e IMAGINE. 
- Mulher, senti até o calor do sol! Soltei. 
Sorrindo descontroladamente, a moça me liberou e falou um "Adorei você!".
Já no carro me aliviei e o processo não foi tão ruim quanto as pessoas com claustrofobia argumentam.


imagem: BenHeine


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Rafa Peres, resenhista e crônista, mantém o blog Minha Versão das Coisas, onde publica todos os seus textos.
Twitter: @Raafaperes

4 comentários:

  1. Adorei o texto! Achei muito criativo.
    Beijos

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  2. Hello!
    Nao conhecia a coluna Fala, Rafa!
    Bacana demais o texto, quisesse eu ter esse talento pra escrever viu?!
    Me imaginei no exame de Ressonância Magnética ao ler e a primeira coisa que pensei foi em claustrofobia. Eu tenho pavor fe lugar fechado e apertado..só de ler ja deu um mini desespero...sou exagerada mesmo, hahaha.
    Já entrei no blog Minha Versão das Coisas e vou com certeza ler mais.
    Amei te conhecer Rafa.
    bjus

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    Respostas
    1. Suzzyyyyyyyyyyy Brigadaaaaa. E leia sempre! Beijo grande

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