quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Agora aqui ninguém precisa de si [Resenha]


"Recuerde, diz a placa imperativa em espanhol, enquanto o retrovisor do automóvel mostra o que já ficou no passado. 'Eu tenho uma coleção de esquecimentos/e apenas duas mãos para ver o mundo', lamenta o 'super-homem submisso' que não alcança o ritmo dos acontecimentos. Resta observar coisas mínimas como uma formiga ou imensas como o universo e seus astros. O tempo e o espaço, a insignificância e a morte são os principais temas deste volume de inéditos de Arnaldo Antunes, que oscilam entre o humor e a desilusão. Alternando poemas em verso e visuais, fotografias e 'prosinhas', a obra é marcada pela pluralidade, pelo registro pop e pela sonoridade, tão próprios ao artista, que assina também o projeto gráfico. Um diálogo sensível e desafiante com o homem contemporâneo."


Arnaldo Antunes é um grande poeta, no sentido mais amplo da palavra: ele transita entre música, poesia e arte, e faz tudo com perfeição. Suas  construções são excêntricas e contemporâneas, e podem agradar até mesmo aqueles que ainda não são acostumados a ler poesia.

"não sei
se não
sei ou
se não
sei que
sei
mas
esque
cerei"
(Não sei - página 121)

Sua visão do mundo está registrada nesse livro, tanto com palavras quanto com imagens, que ele usa para complementar suas construções poéticas, com uma habilidade que poucos artistas têm. E esse seu trabalho com poesia não é apenas um flerte: Arnaldo já ganhou um Prêmio Jabuti em 1992, por seu livro Iluminuras.

Dentre as diversas poesias inovadoras de Arnaldo também é possível encontrar algumas ao estilo clássico, com métrica e ritmo próprios, que demonstram sentimentos profundos e muita sensibilidade.

"Se ando cheio me dilua
se estou no meio conclua
se perco o freio me obstrua
se me arruinei reconstrua"
(Você que me continua - página 75)

Esse conjunto de rimas e imagens de Arnaldo retratam uma poesia urbana moderna, carregada de reflexões sobre o ser, o viver, que captou a essência do dia a dia que vivemos hoje. Fica claro que um poeta não é feito apenas de versos e rimas; ele também é feito de emoções e observação do comportamento humano e do universo ao seu redor. Enxergamos todas essas qualidades em Arnaldo Antunes e isso se reflete em seus poemas.
Para reparar - página 111


Como o próprio autor é o responsável pelo projeto gráfico do livro, tudo tem a cara dele, meio confuso, e ao mesmo tempo artístico. Vale a pena a leitura e a viagem visual proporcionada pelo livro.


Agora aqui ninguém precisa de si
Arnaldo Antunes
editora Companhia das Letras
152 páginas
nota do Skoob: 4.0
nota do blog: 4.2

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Joana Masen, quando não está resenhando, pintando e bordando por aqui, está escrevendo poesia no blog Milonga.
Twitter: @joana_masen

2 comentários:

  1. Que legal! Sempre gostei das viagens do Arnaldo Antunes.

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  2. Joana, o Arnaldo Antunes consegue reunir várias artes em uma só, em uma simples e, ao mesmo tempo, densa poesia. Agora aqui ninguém precisa de si me encantou com as palavras usadas pelo autor, com o uso dos trocadilhos, a representação da vida e o amor empregado sobre a obra. Gostei!

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