quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Enclausurado [Resenha]


"O narrador deste livro é nada menos do que um feto. Enclausurado na barriga da mãe, ele escuta os planos da progenitora para, em conluio com seu amante - que também é o tio do bebê -, assassinar o marido. Apesar do eco evidente nas tragédias de Shakespeare, este livro é uma joia do humor e da narrativa fantástica. Em sua aparente simplicidade, ele é uma amostra sintética e divertida do impressionante domínio narrativo de McEwan, um dos maiores escritores da atualidade."

Sou fã do autor desde que li Reparação (adaptado para os cinemas como Desejo e Reparação), e, quando soube do lançamento de Enclausurado, já fiquei interessada. O interesse aumentou quando soube que seu argumento era inspirado em Hamlet, de Shakespeare, obra da qual também sou grande admiradora. Eis que, ao começar a leitura, já ficou bem clara essa inspiração, começando pelos nomes dos personagens principais: a mãe é Trudy, como Gertrude e o padrasto do bebê é Claude, enquanto em Hamlet ele é Claudius.

"Era eu? Autoadmiração excessiva. Era agora? Dramática demais. Ou algo que antecedia ambas, continha ambas, uma só palavra acompanhada de um suspiro ou de um apagão mental de aceitação, de puramente ser, algo como - isto? Muito pedante. Por isso, chegando mais perto, minha ideia foi Ser. Ou, se não isso, sua variante gramatical, é. Esse foi meu conceito original, que tem na essência é." 
(página 11 - clara inspiração em ser ou não ser, drama hamletiano).

O livro todo é narrado pelo feto, ainda na barriga da mãe, mas ele tem uma perspectiva muito própria do mundo em que ele futuramente viverá: o autor fez questão de dar a ele o poder de explicar as coisas pela impressão que ele tem delas, ainda que não veja nada. Há momentos em que o bebê é capaz de dizer que cor de roupa a mãe está usando, mesmo sem conhecer realmente as cores, ou até refletir sobre economia, política, geopolítica e poesia, tudo através do que ele ouve, ou do que a mãe ouve e chega até ele. O brilhantismo do autor está na capacidade de criar esse narrador onisciente, mas que ainda não nasceu, e é grande conhecedor de vinhos, por ter provado aqueles que a progenitora bebeu, e por ter absorvido inúmeras informações dos podcasts que ela gosta de ouvir. É por meio desses podcasts que o bebê forma boa parte de sua opinião sobre tudo.

"Como é que eu, nem mesmo jovem, nem mesmo nascido ontem, posso saber tanto ou saber o suficiente para estar errado sobre tantas coisas? Tenho minhas fontes, eu escuto."

"No meio da noite longa e serena, posso sapecar um bom pontapé em minha mãe. Ela acorda, perde o sono, liga o rádio. Uma maldade, eu sei, mas estamos os dois bem informados de manhã."
(página 12)

Mas o principal acontecimento e que dá ao narrador o ponto de partida para a história é que ele  ouve sua mãe planejando com o amante o assassinato de seu pai. Assim como em Hamlet, Trudy está de caso com o irmão da vítima, e eles querem ver John morto apenas para ficarem com a casa dele, que, parece valer muito dinheiro. Para conseguir isso, eles querem envenenar o pai da criança e fazer com que a morte pareça suicídio, resultado de uma possível depressão. No decorrer da leitura, dá para sentir uma certa pena de John, que é um humilde poeta sendo enganado pela esposa grávida de nove meses e seu irmão, um idiota que mal sabe formular uma frase, mas que gosta muito de dinheiro.

A narrativa transita entre as reflexões do bebê sobre a possível morte de seu pai, a sua desconfiança de que a mãe o dará para doação logo depois do nascimento, e a vontade de agir, tentando evitar a tragédia iminente. Além disso, temos vários momentos em que dá para notar que o autor incluiu alguns trechos para expressar sua própria opinião sobre coisas que ele não concorda, usando o olhar do narrador. Isso é muito bem inserido na história e não atrapalha em nada o desenvolvimento da trama.

"O pessimismo é fácil demais, até mesmo delicioso, o emblema e enfeite dos intelectuais em toda parte. Exime as classes pensantes de buscar soluções." (página 34)

O que mais chama a atenção são as descrições pormenorizadas de diversos momentos de sua vida na barriga da mãe: ele é capaz de reconhecer a maioria dos sentimentos dela, através de batimentos cardíacos, pulsação ou até mesmo a respiração. Também consegue imaginar o humor do pai, enquanto ele lê poesias para a mãe, ou até julgar a índole do tio/padrasto, enquanto ele tenta convencer Trudy de que o golpe que estão prestes a aplicar é infalível. A narração de uma cena de sexo entre Trudy e Claude é algo sensacional, que só comprova a habilidade do autor em criar histórias marcantes: o feto conta exatamente o que acontece no ato sexual de maneira detalhada, porém, simples, e nos mostra exatamente qual é o nível de envolvimento da mãe com o tio.

"Nem todo mundo sabe o que é ter o pênis do rival do seu pai a centímetros do seu nariz. (...) Fecho os olhos, aperto as gengivas, me apoio nas paredes uterinas. Essa turbulência sacudiria as asas de Boeing. (...) Toda vez, a cada movimento do pistão, temo que ele rompa a barreira, perfure os ossos ainda moles do meu crânio e irrigue meus pensamentos com a essência dele." (página 28)

"Com polegares ágeis ela se livra da calcinha. Entra Claude. Ás vezes ela a chama de minha ratinha, o que parece agradar Trudy, mas não há beijos, nada é tocado nem acariciado, murmurado ou prometido, nenhuma lambida generosa, nenhum devaneio brincalhão." (página 30)

Quando li o final, achei um pouco decepcionante, mas depois refleti sobre ele, e voltei a lê-lo, e acabei entendendo que aquele era o único desfecho possível, levando em conta a forma como o autor conduziu toda a trama. Em alguns momentos senti raiva da mãe, exatamente como o bebê, em outros é fácil entender sua motivação - não que isso a torne aceitável -, da mesma forma que dá para sentir o medo do feto em ficar sozinho no mundo enquanto ele testemunha as atitudes impensadas da mãe. É um livro de fácil leitura, mas que faz pensar a cada página, no que é certo e no que é errado. Acima de tudo, é uma história sobre o caráter das pessoas, e sobre como algumas delas podem ser tão egoístas a ponto de perderem a razão. Um livro lindamente escritor por Ian, sem enrolação e que leva o leitor direto ao ponto, conduzido pelo bebê que ainda não nasceu. Leiam.


Enclausurado
Ian McEwan
editora Cia. das Letras
200 páginas
nota no Skoob: 4.0
nota do blog: 4.2

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Joana Masen, quando não está resenhando, pintando e bordando por aqui, está escrevendo poesia no blog Milonga.
Twitter: @joana_masen

7 comentários:

  1. Joana, a sua é a primeira resenha que leio e que deu uma nota maior que 3 estrelas.
    Pela capa e quando li que quem narra o livro era um bebê de nove meses, pensei que ele contaria a história da vida dele caso não fosse abortado, mas estava enganada, mas assim mesmo no livro ocorre um assassinato.
    Pois bem, essa história do livro me chamou bastante a atenção, ainda mais pelo fato do bebê. E acho que uma parte cômica seria a narração das partes de sexos por parte do bebê.
    Espero poder ler o livro e desfrutar dessa história, e descobrir o desfecho dela.

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  2. Que interessante esse diferencial na narração.
    Fiquei bem curiosa, confesso.
    Não conhecia a obra ainda e o que li aqui me chamou bastante a atenção.
    Apesar de não ser comum ter esse gênero na minha listinha de leitura, daria sim uma chance pra essa obra :)
    Beijos,
    Caroline Garcia

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  3. Joana!
    Para mim é um enredo totalmente inusitado e tão criativo.
    Imaginar um bebê que ainda nem nasceu, já ter opiniões bem formadas sobre assuntos que por vezes nem nós mesmos que já estamos na estrada há um bom tempo, consegue ter. E ver a forma como ele assimila tudo do mundo exterior, é grandioso.
    Deve ser uma linda obra.
    “O que sabemos, saber que o sabemos. Aquilo que não sabemos, saber que não o sabemos: eis o verdadeiro saber.” (Confúcio)
    cheirinhos
    Rudy
    http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/
    TOP Comentarista de JANEIRO dos nacionais, livros + BRINDES e 3 ganhadores, participem!

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  4. Oi!
    Achei esse historia bem diferente, ainda não li Hamlet, mas vejo muitos comentários sobre esse livro e ao saber que essa historia foi inspirada nele fiquei bem curiosa, também achei interessante temos um feto contando a historia, que achei meio maluca e muito criativo, o que me deixou muito curiosa para poder ler !!

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  5. Que bom que gostou do livro.
    Eu, particularmente, não me senti atraída pela sinopse, já que não é um livro que segue os padrões dos gêneros que estou acostumada a ver. Porem, você destacou muito o fato de que o protagonista (o feto) é um personagem de muita opinião, o que ao meu ver, torna a história muito mais interessante, já que ele tem um senso critico do que não conhece baseado no que ouve e no que prova através da mãe.
    Talvez algum dia eu dê uma chance ao livro :)

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  6. Achei bem legal o enredo do livro, ainda mais por ser narrada por um bebê ainda no útero, é bem inusitado, diferente, mas interessante. Fiquei pensando neste final que você não gostou e depois gostou, qual terá sido o destino do bebê?! Fiquei curiosa. Adorei sua resenha e dica.
    Abraço!
    A Arte de Escrever

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  7. Nossa, que história!!
    Adorei, já quero.
    Além de ter toda essa coisa louca da mãe e do tio, ainda vem o medo de perder o pai, de ser doado, ou até mesmo morto né.
    E fico imagino o bebê narrando a história, que coisa!!
    Quero muito ler.
    bjss

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