sexta-feira, 21 de setembro de 2012

A hospedeira



Nosso planeta foi tomado por seres "alienígenas", chamados de "almas", que têm o intuito de salvar a civilização humana. Eles acham que os terráqueos são seres terríveis, que estão destruindo seu próprio planeta. Assim, eles implantam nos humanos as almas, que dominam seu hospedeiro por completo, pensando e agindo por ele enquanto preserva seu corpo. Essas almas são extremamente civilizadas, têm conhecimento avançado em medicina e usam seus métodos estranhos para salvar o planeta. A história se concentra em Melanie, que foi capturada pelas almas mas está resistindo à dominação de seu corpo e mente por elas. Peregrina é a alma designada para habitar o corpo de Melanie, e vai aos poucos descobrindo que sua hospedeira ainda está por ali, resistindo. Mel compartilha com Peg suas lembranças de seu amado Jared e de seu irmão caçula, atormentando Peg com imagens e sentimentos que ela nunca havia conhecido antes. Assim, essa hospedeira vai induzir a alma a ir atrás das pessoas que ela ama, com convicção de que eles estão resistindo em algum lugar no meio do deserto. Peg vai em busca de Jared, e acaba descobrindo que, além dele e do irmão de Melanie, existe um grupo grande de pessoas que estão escondidas e resistindo à ocupação das almas.

Para quem leu Crepúsculo e espera que Stephanie Meyer siga a mesma linha nesse livro, vai se decepcionar (eu achei que foi melhor assim). A história envolve ficção científica, amizade e amor, mas não apenas o amor entre homem e mulher; ela aborda todo o tipo de amor que se possa pensar, deixando claro que esse sentimento está acima de qualquer outro.

Gostei muito desse livro, é bem diferente e a narrativa consegue prender a atenção do leitor. No começo tudo é um pouco confuso, até monótono, confesso que pensei em abandonar a leitura, que foi ficando cansativa à medida que as coisas demoravam para acontecer, mas valeu a persistência, pois a história fica bem interessante quando Peregrina (enfim!) se junta aos "selvagens".

Claro que está presente aqui o estilo da autora, abordando os sentimentos mais profundos dos personagens, principalmente seu sofrimento. Mas isso não tira o valor da obra, muito pelo contrário, enriquece a história, nos fazendo imaginar como seria o mundo se realmente essa invasão acontecesse, e até desejando tomar "emprestado" alguns métodos utilizados pelas almas para transformar nosso mundo num lugar melhor. O leitor acaba adquirindo uma proximidade com os personagens que Stephanie cria, e se vê envolvido emocionalmente nas situações mais bizarras e insolúveis, porém, quando o livro acaba, fica aquela vontade de continuar a história e saber o que vai acontecer com Mel e Peg, como vão viver a partir dali, resolvendo  seus conflitos internos e seus amores.

Uma coisa muito bacana dessa história é tentar imaginar os cenários, o lugar onde eles ficam escondidos, as pessoas, a forma como sobrevivem, e, principalmente, como são essas almas e como ficaria o mundo sob o domínio delas.

O livro é bom, e, se for adaptado para o cinema, espero que escolham um  diretor competente e experiente, que saiba explorar bem todas as situações presentes na história, para que o filme não se torne mais um "Crepúsculo" da vida.


A hospedeira
Stephenie Meyer
560 páginas
Editora: Intrínseca

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

A paixão segundo G.H.


"A escultora G. H. nos conta sua experiência vivenciada a partir do instante em que entra no quarto da ex-empregada, vê o surgimento de uma barata no guarda-roupas e a esmaga na porta. Daí em diante, tomada por uma mistura de medo e repulsa, G. H. vive com a barata durante horas e horas a sensação de ter perdido a sua 'montagem humana'. A incapacidade de dar forma aoque lhe aconteceu, a aceitar este estado de perda, a leva a imaginar que a alguém está segurando a sua mão. Desta maneira, o leitor passa a viver junto com a personagem esta experiência singular."

Esse é considerado por muitos como o grande livro de Clarice Lispector, e tem um enredo aparentemente banal, mas que se desdobra num conteúdo muito rico e denso, apesar de toda a história se desenvolver em torno de um simples inseto. Depois de despedir sua empregada, a protagonista vai até o quarto de serviço a fim de realizar uma faxina, imaginando que ele está uma bagunça. Já ao entrar no quarto, ela se depara com um desenho na parede, simples, feito com carvão, da silhueta de um homem, uma mulher, e uma criança de mãos dadas, que a faz pensar nos motivos que levaram a antiga empregada a rabiscar essa família; a partir daí começa  a paranoia da personagem, sobre o "ser", o "existir", e como as pessoas poderiam estar vendo sua imagem no dia a dia. Enquanto reflete sobre esse assunto, ela abre o guarda-roupas velho e encontra ali uma barata, inseto pelo qual ela revela sentir um nojo terrível. A imagem da barata velha ali parada só faz aguçar suas reflexões existenciais, e ela esmaga o bicho no vão da porta, que fica partido ao meio, com aquela gosma branca escorrendo de seu corpo. Então ela passa a analisar seus mais profundos sentimentos, se despindo de todos os pudores e medos que ela sentira até então, e, num rompante desafiador de seu último traço humano, ela decide provar o interior da barata. A partir daí, G.H. tenta justificar seus pensamentos e seus atos ao longo de sua vida, além de tentar entender a verdadeira razão de sua existência. 

Com a densa narrativa em primeira pessoa (e acho que não poderia ser diferente), onde cada palavra reverbera dentro do peito do leitor, a autora nos leva a uma reflexão pessoal sobre "quem sou" e "por que sou". 

"Diante de meus olhos enojados e seduzidos, lentamente a forma da barata ia se modificando à medida que ela engrossava para fora. A matéria branca brotava lenta para cima de suas costas como uma carga. Imobilizada, ela sustentava por cima do flanco empoeirado a carga do próprio corpo."

Essas são as sensações após matar uma barata: nojo e sedução: nojo pela matéria na qual o inseto vai se transformando, e sedução pela capacidade de acabar com a pequena vida que antes causava pavor. Clarice consegue definir esse sentimento com perfeição, e trabalhar com ela por vários parágrafos, sem deixar que ao assunto fique cansativo e desinteressante.

Ao longo da narrativa, a personagem deixa claro que não vai gritar, pois gritar seria assumir sua fraqueza. não gritar significa não demonstrar sentimentos, manter sempre a sua pose de autossuficiente. Ao analisar essa qualidade de G.H., passamos a entender melhor seu dilema interno, que a leva a ficar horas e horas simplesmente olhando para uma barata morta, com o corpo mutilado, que a faz refletir sobre as atitudes de toda sua vida, seguindo regras e convenções sociais, ainda que não acreditasse totalmente nelas. E por viver atrás dessa fachada de perfeição, ela carrega um ar de superioridade, revelado principalmente ao falar sobre a empregada demitida, referindo-se a ela como um ser menor, por causa da cor da sua pele. A autora deixa claro esse sentimento da personagem através de uma metáfora: a cobertura onde mora, pois ali ela está acima de tudo e de todos.

O mais interessante nesse livro é a formação das sentenças, de maneira confusa e pouco tradicional, como se elas realmente fossem um pensamento ou uma reflexão. Clarice explora esse estilo e nos transporta para dentro da cabeça de G.H., nos fazendo sentir seus dramas e seus temores, e nos levando, junto com ela, a desafiar seus limites e provar aquela coisa branca que saiu de dentro da barata.

Em alguns momentos o livro parece assumir um cunho religioso, mas isso é apenas parte do cair em si, da descoberta pela personagem de que nada somos perante a grandeza da vida, do universo e de seu criador, seja ele quem for. A consciência de que esse criador realmente existe e está presente em todas as coisas, além da nossa vontade e mesmo da nossa sabedoria.

A escrita da autora é impecável; é impossível não se colocar no lugar dessa mulher aparentemente tão segura, e que vê todas as suas máscaras caírem diante de um ser tão pequeno e tão perturbador. Na verdade, após terminar a leitura, concluí que a própria Clarice era uma pessoa emocionalmente perturbada; ninguém explora tão bem assim uma neurose se não estiver vivendo-a pessoalmente.

A paixão segundo G.H.
Clarice Lispector
Editora Rocco
180 páginas

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

"Tudo por um pop star" e pela conquista de novos leitores


Esse livro conta a história de três amigas adolescentes que são mega fãs de uma boy band da moda, e que está vindo para o Brasil para um show. Elas enlouquecem com essa notícia e fazem de tudo para convencer seus pais a deixá-las ir ao show. Para isso, combinam com Babete, prima de Manu, e mais experiente que as amigas, para que ela as leve ao show e seja responsável por sua segurança. Mas tudo acaba dando errado a partir do momento em que Babete vai para uma festa surpresa e deixa as meninas sozinhas no apartamento de um amigo. É ai que a aventura delas começa, e elas descobrem que, nem por amor ao maior pop star do mundo vale a pena mentir para os pais e perder a confiança deles. Essa é a mensagem que o livro tenta passar, de forma divertida e fazendo uma sátira aos grupos fabricados tão comuns hoje em dia.

Meu trabalho de conclusão do curso de Letras foi sobre a formação de novos leitores durante o ensino fundamental II, ou seja, fase em que os alunos estão na adolescência. E durante as pesquisas para esse trabalho, descobri os livros da Thalita Rebouças e o fascínio que suas histórias exercem sobre as meninas nessa faixa etária. Esse foi o primeiro livro dela que li, comprado na Bienal, onde conheci a autora e conversei rapidamente com ela, que foi muito simpática e atenciosa. Vi as adolescentes na fila, devorando seus livros enquanto esperavam pela querida Thalita. É lindo ver aquelas pessoinhas mergulhadas em seus livros, sem se incomodar com o que acontece à sua volta, e acho que essa é a maior virtude dos livros dessa autora; ela consegue prender a atenção dos adolescentes escrevendo sobre coisas que eles vivem no seu dia a dia, sobre seus desejos, seus medos e suas inseguranças, tão presentes nessa fase de suas vidas. Acho que é isso que faz da Thalita uma escritora tão bem sucedida. 
Já a minha opinião sobre a história desse livro não é tão importante: como ele é voltado para o público adolescente, achei o enredo fraco e previsível, apesar de passar o tempo todo tentando enxergar a história com olhos de uma menina com idade entre 12 e 15 anos. Não que ela seja ruim, ela apenas não é escrita para adultos. O livro é pensado para adolescentes, e por isso tem uma linguagem comum à eles, com frases, expressões e até "musiquinhas" que as meninas devem achar normal, mas que, para mim, que já estou numa fase diferente como leitora, tornaram a história pouco interessante. Isso não desmerece a obra, que tem o claro poder de arrebanhar leitores, o que não é pouca coisa, considerando o cenário atual do país, com tantas deficiências na alfabetização, a  dificuldade de convencer esses meninos e meninas a ler um livro que seja, diante de tantas opções de divertimento e tão poucas oportunidades de terem um contato real com a literatura, e tantos outros motivos que separam os jovens dos livros, não permitindo que eles se formem como leitores funcionais. A Thalita faz isso como poucos autores conseguem no Brasil, e tira os jovens da internet ou do vídeo game, aproximando-os desse mundo maravilhoso dos livros. Enfim, "Tudo por um pop star" é um ótimo livro, quando lido pelo público correto.

Tudo por um pop star
Thalita Rebouças
Editora Rocco
168 páginas

Toques para (outras) mulheres



Comprei esse livro na Bienal, quando encontrei o Edson com uma placa super engraçada, fazendo sua própria propaganda de forma descontraída e despretensiosa. Quando eu falei que já conhecia o trabalho dele no site "Cem toques cravados", e que adoro as micronarrativas que ele escreve, ele acabou me convencendo a ficar om esse livro, que era muito bacana para as mulheres e que eu ia gostar. Mas me desapontei um pouco com as crônicas, talvez eu esperasse algo parecido com o que ele publica no site e não pensei que o livro era um outro estilo de texto, ou talvez por que eu achei os toques que ele deu um tanto quanto óbvios para mim. Posso parecer convencida, mas os toques que ele dá no livro já fazem parte da minha vida; eu já acho que as mães que amamentam seus bebês deveriam ter mais noção e não ficar se expondo em qualquer lugar, já acho que para andar de salto alto tem que saber, e não apenas querer andar, e por ai vai. Por outro lado, pensando não só em mim e no meu dia a dia, acho que o livro exerce um papel importante, que é falar para algumas mulheres aquilo que muitas vezes temos vontade de falar, mas não temos oportunidade (ou coragem mesmo). São coisas sutis, mas que, dependendo da situação, fazem uma enorme diferença entre uma situação delicada e uma cena engraçada. O Edson tentou (e conseguiu) falar sobre pequenas coisas que nos incomodam nas atitudes daquelas que nos cercam, e que podem, na maioria das vezes, ser corrigidas com simples mudanças de atitude. O melhor de tudo é que ele consegue levar a narrativa num clima agradável, com uma linguagem informal, e utilizando o humor na medida certa, deixando a leitura fluente e interessante. Algumas mulheres realmente precisam ler esse livro, mas, infelizmente, grande parte delas não vai fazê-lo.


Toques para mulheres
Edson Rossatto
Giz Editorial
144 páginas

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

O nome do vento




"Ninguém sabe ao certo quem é o herói ou o vilão desse fascinante universo criado por Patrick Rothfuss. Na realidade, essas duas figuras se concentram em Kote, um homem enigmático que se esconde sob a identidade de proprietário da hospedaria Marco do Percurso.
Da infância numa trupe de artistas itinerantes, passando pelos anos vividos numa cidade hostil e pelo esforço para ingressar na escola de magia, "O nome do vento" acompanha a trajetória de Kote e as duas forças que movem sua vida: o desejo de aprender o mistério por trás da arte de nomear as coisas e a necessidade de reunir informações sobre o Chandriano - os lendários demônios que assassinaram sua família no passado.
Quando esses seres do mal reaparecem na cidade, um cronista suspeita de que o misterioso Kote seja o personagem principal de diversas histórias que rondam a região e decide aproximar-se dele para descobrir a verdade.
Pouco a pouco, a história de Kote vai sendo revelada, assim como sua multifacetada personalidade - notório mago esmerado ladrão, amante viril, herói salvador, músico magistral, assassino infame.
Nesta provocante narrativa, o leitor é transportado para um mundo fantástico, repleto de mitos e seres fabulosos, heróis e vilões, ladrões e trovadores, amor e ódio, paixão e vingança."

Nunca fui fã do gênero fantástico, e quando decidi ler esse livro, ele me pegou de guarda baixa. Comecei a leitura despretensiosamente e me encantei. Fiquei curiosa ao ler na orelha do livro: 'Meu nome é Kvothe, com pronúncia semelhante à de Kuouth. Os nomes são importantes, porque dizem muito sonbre as pessoas. Já tive mais nomes do que alguém tem direito a possuir'. É uma frase que merece, no mínimo, um minuto de reflexão. Os nomes são praticamente personagens dessa estória, desde o título, e também são motivadores de algumas das aventuras vividas por Kvothe, que quer a qualquer custo descobrir o nome do vento para poder convocá-lo quando precisar. 

Na narrativa, Kvothe vai contando a história de sua vida a um escriba misterioso, que aparece de repente na pousada Marco do Percurso querendo conhecer aquele que chamam de "O matador de reis": as memórias do dono da pousada começam na infância, quando ainda fazia parte de uma trupe com seus pais, que acabam sendo mortos, sem explicação aparente, por uma entidade conhecida como Chandriano. A partir daí, o menino sai em busca de vingança e passa pelas mais difíceis e arriscadas situações, desde roubar para comer até morar escondido sob o telhado de uma casa qualquer. Ele sabe que só existe um ligar onde ele pode começar a busca pelos assassinos de seus pais, a Universidade, que contém um arquivo com milhares de livros, e que podem conter alguma informação sobre o Chandriano e, talvez, de como derrotá-lo.

Além de estar motivado pela vingança, a Universidade era um antigo sonho de Kvothe, que desde criança sonhava em se tornar um mago. Assim, com algum dinheiro no bolso, e muita malícia, ele é aceito na Universidade e, sendo mais inteligente que os outros alunos, vai avançando rapidamente em seus estudos, mostrando algumas vezes mais habilidades que alunos mais experientes. É muito interessante ver como seu pensamento é rápido e como ele consegue driblar situações difíceis usando sua experiência de vida, alguma retórica e uma boa dose de audácia.

Além dos amigos fiéis que acaba fazendo na Universidade, Kvothe também se dedica bastante à música, que é um dos seus muitos talentos. Claro que a estória também tem romance: o protagonista é apaixonado por Denna, uma mulher misteriosa, que aparece e desaparece sem maiores explicações, deixando Kvothe sempre à sua espera, apesar dele nunca ter se declarado para ela.

Para mim, o aspecto mais fascinante dessa estória é o ambiente criado pelo autor, cheio de magia, simpatias, animais fantásticos, pessoas boas e más, num mundo fictício onde uma semana é uma onzena e um período letivo tem em média 2 meses. Há uma moeda própria, a comida é compatível com os recursos disponíveis na época - que também não é marcada com clareza - e tudo isso forma um cenário propício para as aventuras de Kvothe.

Eu achei "O senhor dos anéis" muito chato e monótono, com descrições muito minimalistas e uma lentidão insuportável, tanto que abandonei a leitura. Aqui em "O nome do vento", esse fator também é determinante, mas o autor o usa de maneira mais dinâmica, o que deixa a leitura infinitamente mais agradável. Mesmo explicando em detalhes cada coisa, ambiente, pessoa e situação, Patrick Rothfuss conseguiu deixar a estória mais "imaginável" - se é que isso existe - e esses pormenores não deixaram a leitura lenta nem tampouco desinteressante.

Mesmo sabendo que a estória não ia se definir no final do livro, pois ele tem continuação, eu queria muito terminar para saber se Kvothe aplicaria sua vingança realmente, ou se ia conquistar Denna... mas o desfecho do livro é realmente surpreendente! Como está escrito na contracapa 'ninguém sabe ao certo quem é o herói ou o vilão desse fascinante universo", e tanto um quanto o outro vão se confundindo ao longo da estória, chegando algumas vezes a parecer a mesma pessoa. O personagem Kvothe é tão forte e envolvente que o leitor torce, sofre com ele, sente suas perdas, passa a odiar seus inimigos tanto quanto ele odeia, mas também comemora algumas vitórias.

Minha única certeza depois de ler esse livro é que o autor criou aqui um marco na história do gênero fantástico, pois nada será como antes de conhecer Kvothe e viajar com ele em busca do nome do vento.

O nome do vento
Patrick Rothfuss
editora Sextante

656 páginas

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Leite Derramado



Primeiro livro do Chico que leio, e criei muita expectativa em torno dele. Ao longo da leitura, pensei que me decepcionaria com a história, mas foi apenas uma impressão momentânea. A narrativa de Chico é envolvente, e com a técnica de contar os fatos fora da ordem cronológica, dá um charme especial à história. Em alguns trechos pode parecer confusa, mas aos poucos tudo se encaixa em seu devido lugar, o leitor consegue se situar bem dentro da narrativa, mas, eventualmente, não é possível afirmar com certeza se o personagem está realmente contando uma fato que aconteceu com ele, ou se está apenas divagando. Essa dúvida vai temperando a história e tudo vi ficando mais interessante. O personagem principal, que é quem conta a história, é um senhor idoso que num hospital, e que foi de uma família tradicional e respeitada. Ele narra para a filha, as enfermeiras, ou quem quer que esteja por perto, a história de sua vida, desde seus ancestrais, passando por personalidades importantes da história brasileira, e terminando em seu tataraneto, um malandro carioca que não tem lá uma boa índole. Entre reclamações e lembranças, o personagem vai contando sua história, e registrando o amor que sente pela esposa, mesmo depois de ser abandonado por ela.
O livro mescla costumes da época da Primeira República e dos dias de hoje, sem se tornar maçante ou repetitivo, e Chico demonstra mais uma vez sua habilidade de contar histórias, seja por suas letras ou por seus livros, de uma forma sublime e inteligente.




Leite Derramado
Chico Buarque
Cia. das Letras
200 páginas