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quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Enclausurado [Resenha]


"O narrador deste livro é nada menos do que um feto. Enclausurado na barriga da mãe, ele escuta os planos da progenitora para, em conluio com seu amante - que também é o tio do bebê -, assassinar o marido. Apesar do eco evidente nas tragédias de Shakespeare, este livro é uma joia do humor e da narrativa fantástica. Em sua aparente simplicidade, ele é uma amostra sintética e divertida do impressionante domínio narrativo de McEwan, um dos maiores escritores da atualidade."

Sou fã do autor desde que li Reparação (adaptado para os cinemas como Desejo e Reparação), e, quando soube do lançamento de Enclausurado, já fiquei interessada. O interesse aumentou quando soube que seu argumento era inspirado em Hamlet, de Shakespeare, obra da qual também sou grande admiradora. Eis que, ao começar a leitura, já ficou bem clara essa inspiração, começando pelos nomes dos personagens principais: a mãe é Trudy, como Gertrude e o padrasto do bebê é Claude, enquanto em Hamlet ele é Claudius.

"Era eu? Autoadmiração excessiva. Era agora? Dramática demais. Ou algo que antecedia ambas, continha ambas, uma só palavra acompanhada de um suspiro ou de um apagão mental de aceitação, de puramente ser, algo como - isto? Muito pedante. Por isso, chegando mais perto, minha ideia foi Ser. Ou, se não isso, sua variante gramatical, é. Esse foi meu conceito original, que tem na essência é." 
(página 11 - clara inspiração em ser ou não ser, drama hamletiano).

O livro todo é narrado pelo feto, ainda na barriga da mãe, mas ele tem uma perspectiva muito própria do mundo em que ele futuramente viverá: o autor fez questão de dar a ele o poder de explicar as coisas pela impressão que ele tem delas, ainda que não veja nada. Há momentos em que o bebê é capaz de dizer que cor de roupa a mãe está usando, mesmo sem conhecer realmente as cores, ou até refletir sobre economia, política, geopolítica e poesia, tudo através do que ele ouve, ou do que a mãe ouve e chega até ele. O brilhantismo do autor está na capacidade de criar esse narrador onisciente, mas que ainda não nasceu, e é grande conhecedor de vinhos, por ter provado aqueles que a progenitora bebeu, e por ter absorvido inúmeras informações dos podcasts que ela gosta de ouvir. É por meio desses podcasts que o bebê forma boa parte de sua opinião sobre tudo.

"Como é que eu, nem mesmo jovem, nem mesmo nascido ontem, posso saber tanto ou saber o suficiente para estar errado sobre tantas coisas? Tenho minhas fontes, eu escuto."

"No meio da noite longa e serena, posso sapecar um bom pontapé em minha mãe. Ela acorda, perde o sono, liga o rádio. Uma maldade, eu sei, mas estamos os dois bem informados de manhã."
(página 12)

Mas o principal acontecimento e que dá ao narrador o ponto de partida para a história é que ele  ouve sua mãe planejando com o amante o assassinato de seu pai. Assim como em Hamlet, Trudy está de caso com o irmão da vítima, e eles querem ver John morto apenas para ficarem com a casa dele, que, parece valer muito dinheiro. Para conseguir isso, eles querem envenenar o pai da criança e fazer com que a morte pareça suicídio, resultado de uma possível depressão. No decorrer da leitura, dá para sentir uma certa pena de John, que é um humilde poeta sendo enganado pela esposa grávida de nove meses e seu irmão, um idiota que mal sabe formular uma frase, mas que gosta muito de dinheiro.

A narrativa transita entre as reflexões do bebê sobre a possível morte de seu pai, a sua desconfiança de que a mãe o dará para doação logo depois do nascimento, e a vontade de agir, tentando evitar a tragédia iminente. Além disso, temos vários momentos em que dá para notar que o autor incluiu alguns trechos para expressar sua própria opinião sobre coisas que ele não concorda, usando o olhar do narrador. Isso é muito bem inserido na história e não atrapalha em nada o desenvolvimento da trama.

"O pessimismo é fácil demais, até mesmo delicioso, o emblema e enfeite dos intelectuais em toda parte. Exime as classes pensantes de buscar soluções." (página 34)

O que mais chama a atenção são as descrições pormenorizadas de diversos momentos de sua vida na barriga da mãe: ele é capaz de reconhecer a maioria dos sentimentos dela, através de batimentos cardíacos, pulsação ou até mesmo a respiração. Também consegue imaginar o humor do pai, enquanto ele lê poesias para a mãe, ou até julgar a índole do tio/padrasto, enquanto ele tenta convencer Trudy de que o golpe que estão prestes a aplicar é infalível. A narração de uma cena de sexo entre Trudy e Claude é algo sensacional, que só comprova a habilidade do autor em criar histórias marcantes: o feto conta exatamente o que acontece no ato sexual de maneira detalhada, porém, simples, e nos mostra exatamente qual é o nível de envolvimento da mãe com o tio.

"Nem todo mundo sabe o que é ter o pênis do rival do seu pai a centímetros do seu nariz. (...) Fecho os olhos, aperto as gengivas, me apoio nas paredes uterinas. Essa turbulência sacudiria as asas de Boeing. (...) Toda vez, a cada movimento do pistão, temo que ele rompa a barreira, perfure os ossos ainda moles do meu crânio e irrigue meus pensamentos com a essência dele." (página 28)

"Com polegares ágeis ela se livra da calcinha. Entra Claude. Ás vezes ela a chama de minha ratinha, o que parece agradar Trudy, mas não há beijos, nada é tocado nem acariciado, murmurado ou prometido, nenhuma lambida generosa, nenhum devaneio brincalhão." (página 30)

Quando li o final, achei um pouco decepcionante, mas depois refleti sobre ele, e voltei a lê-lo, e acabei entendendo que aquele era o único desfecho possível, levando em conta a forma como o autor conduziu toda a trama. Em alguns momentos senti raiva da mãe, exatamente como o bebê, em outros é fácil entender sua motivação - não que isso a torne aceitável -, da mesma forma que dá para sentir o medo do feto em ficar sozinho no mundo enquanto ele testemunha as atitudes impensadas da mãe. É um livro de fácil leitura, mas que faz pensar a cada página, no que é certo e no que é errado. Acima de tudo, é uma história sobre o caráter das pessoas, e sobre como algumas delas podem ser tão egoístas a ponto de perderem a razão. Um livro lindamente escritor por Ian, sem enrolação e que leva o leitor direto ao ponto, conduzido pelo bebê que ainda não nasceu. Leiam.


Enclausurado
Ian McEwan
editora Cia. das Letras
200 páginas
nota no Skoob: 4.0
nota do blog: 4.2

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Joana Masen, quando não está resenhando, pintando e bordando por aqui, está escrevendo poesia no blog Milonga.
Twitter: @joana_masen

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Ainda estou aqui [Resenha]

onde comprar: Amazon//Saraiva//Submarino

"Trinta e cinco anos depois de Feliz ano velho, voltamos à luta de uma família pela verdade, através de Eunice Paiva, uma mulher de muitas vidas. Casada com o deputado Rubens Paiva, esteve ao seu lado quando foi cassado e exilado, em 1964. Mãe de cinco filhos, passou a criá-los sozinha quando, em 1971, o marido foi preso por agentes da ditadura, a seguir torturado e morto. Em meio à dor, ela se reinventou. Voltou a estudar, tornou-se advogada, defensora dos direitos indígenas. Nunca chorou na frente das câmeras. Ao falar de Eunice, e de sua última lua, desta vez contra o Alzheimer, Marcelo Rubens Paiva fala também da memória, da infância e do filho. E mergulha num momento negro da história recente brasileira para contar - e tentar entender - o que de fato ocorreu com Rubens Paiva, seu pai, naquele janeiro de 1971."

Mais um livro de Marcelo Rubens Paiva, onde ele mostra a sua incrível habilidade de contar histórias, sejam elas de ficção ou que retratem a mais dura realidade. Em Ainda estou aqui ele revisita todo o sofrimento que foi a prisão e morte de seu pai durante a ditadura, e relata como passou a ser a vida de sua família depois do desaparecimento de Rubens Paiva.

Além disso, a narrativa envolve mais duas histórias: a emoção de ser pai e a vida de sua mãe, Eunice. Marcelo relembra fatos marcantes desde a sua infância, e conta em detalhes como foi a última vez que viram o pai, como ele foi levado pelos militares, e nunca mais voltou. Como pano de fundo ele usa o cenário político da época, e vai revelando descobertas que sua família fez sobre a prisão do pai, sua posterior morte nos porões da ditadura, e como a mãe militou por décadas para se fazer justiça às vítimas daquele horror vivido no Brasil.

Com o desaparecimento do mario, e depois de se reinventar diversas vezes, Eunice Paiva foi diagnosticada com Alzheimer, e sua vida mudou novamente. Marcelo conta detalhes da doença que poucas pessoas conhecem, e explica como ela pode destruir o relacionamento do doente com a família em pouco tempo, se não houver compreensão e paciência.

Ele começa a fazer um paralelo com o filho pequeno e como ele não vai se lembrar de muitas coisas que fez quando tinha 1 ou 2 anos, com a mãe, que vai perdendo sua memória aos poucos, esquecendo, inclusive, quem é o neto, confundindo-o, algumas vezes, com Marcelo quando tinha aquela idade.

Apesar do tom carregado de tristeza pela morte do pai, e agora pela doença da Mãe, o autor consegue narrar tudo de forma quase educativa, tanto quando fala sobre o lado mais sujo do regime militar, quanto ao descrever o sofrimento da mãe enquanto perde a capacidade de viver por si só. Os assuntos são sérios, mas há um clima de nostalgia que deixa a leitura um pouco mais leve, quando ele relembra de sua infância no Rio de Janeiro, uma cidade bem diferente da que é hoje e descreve momentos felizes que viveu, apesar da tragédia.

Ao final, fica o registro de uma vida cheia de altos e baixos, da luta constante pela busca da verdade e do amor de uma família, que ficou ainda mais unida depois da tragédia que viveu. Sou muito fã do trabalho do Marcelo, e adoro seu estilo narrativo, mas esse livro mostrou um lado dele que eu ainda não conhecia: a relação com a mãe e com seu filho, além de mostrar como ele cresceu e se acostumou com a ausência do pai, sem saber se ele estaria vivo ou morto.

Apesar de já ter lido quase todos os seus trabalhos anteriores, eles eram de ficção, com exceção de Feliz ano velho, que retrata o acidente que o deixou paraplégico. Ainda estou aqui é um livro muito pessoal, que mostra o lado humano do autor, detalhes de sua vida particular. O livro pode ser de memórias, um registro da história do Brasil, ou até uma homenagem à mãe, mas a verdade é que Marcelo escreveu uma história emocionante, que deve ser lida por todos, para que entendam o passado e se preparem para o futuro, seja ele qual for.

Esse é um relato corajoso da vida real, e com a intensidade da narrativa do autor, dá para sentir o drama que a família viveu até a verdade ser revelada, e isso torna a leitura ainda mais intensa. Gostaria que todos vocês lessem, é um livro marcante, cheio de ensinamentos e relatos que exigem reflexão, e tenho certeza que todos vão gostar (e se emocionar).


Ainda estou aqui
Marcelo Rubens Paiva
editora Alfaguara
296 páginas
nota no Skoob: 4.4
nota do blog: 4.7


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quinta-feira, 9 de junho de 2016

BR-163 [Resenha]

compre pelos links: Americanas//Submarino//Amazon


"Duas histórias e uma coisa em comum, a BR 116: na primeira, a protagonista é Lavínia, que cresceu num orfanato de freiras, querendo saber  quem eram seus pais. Virou policial e vai descobrir o que queria e o que não queria. Ela sai em missão com outro policial, chamado Cardoso, e viajam num Opala pela BR, aparentemente, para prender um traficante de uísque paraguaio. Aos poucos, percebe-se que nenhum dos dois tiras está ali apenas para cumprimento do dever profissional. Já a protagonista da segunda história foi entregue aos cuidados de uma cafetina assim que menstruou pela primeira vez. Virou garota de programa, mas prefere ser chamada de puta. Atendendo ao pedido de seu pai, vai ajudá-lo a fugir da cadeia, mas o plano não sai exatamente como planejado e ela tem que fugir com um desconhecido para um lugar incerto."

Mais um livro onde Tony demonstra toda a sua capacidade de criar um romance moderno e envolvente, com um escrita dinâmica, que prende o leitor e não cansa. Em BR 163 conhecemos as estórias de duas mulheres, aparentemente diferentes, mas que não tiveram uma vida fácil. Uma deseja profundamente conhecer os pais que a abandonaram ainda bebê, enquanto a outra quer distância do pai que a deixou no caminho da prostituição.

Se de um lado temos Lavínia, que é policial e parece ter uma conduta ilibada até ficar frente a frente com um homem muito perigoso, do outro está Selene, mulher forte, independente, mas que carrega o fardo de ter que ajudar o pai a sair da prisão para que ele a deixe em paz. Nenhuma delas consegue deixar o passado totalmente para trás, e essas pendências impedem que elas sejam realmente felizes no presente.

Lavínia, a policial, sofre todo tipo de preconceito por parte de seu colega de profissão, apenas por ser mulher: ele a acha frágil e incapaz de lidar com as situações mais complicadas na rotina da polícia. Ela se mostra mais forte e decidida do que ele imagina, e acaba por resolver algo que a incomodou a vida toda quando ela menos esperava que fosse acontecer.

Já Selene, a prostituta, só quer viver em paz, sem ter que se preocupar com o pai e seus problemas com a polícia. Diferente da primeira estória, essa é um pouco mais longa e mais intrincada: várias coisa acontecem quando a protagonista tenta resgatar o pai, como um último ato de bondade para com ele. A partir daí, ela se vê envolvida numa fuga confusa e perigosa, com o filho de um poderoso traficante, que a leva para um lugar bastante inóspito, onde coisas malucas acontecem.

O desfecho das duas estórias é bem surpreendente, e como elas são relativamente curtas, é fácil chegar a sua conclusão. O ponto forte da narrativa é sem dúvida a construção das personagens, ambas com personalidade forte, moldadas pelas dificuldades da vida e por sua vontade de ser feliz. Infelizmente, elas estão envolvidas com pessoas e assuntos muito complicados, que não permitem que elas conquistem sua felicidade plena.

O livro mostra bastante desigualdade entre o homem e a mulher, e até algumas situações de abuso, onde eles se acham superiores apenas por serem homens - o que acontece na vida real também, como bem sabemos.

As estórias têm um bom ritmo narrativo, o que pode ser o diferencial para alguns leitores que não querem acompanhar tramas muito longas e cheias de rodeios: aqui tudo é bem objetivo e as coisas se resolvem logo, tanto para o bem quanto para o mal. Ainda assim, há reviravoltas no enredo que surpreendem e deixam o leitor com aquela vontade de saber um pouco mais sobre a vida das personagens e o que elas farão  no futuro.

Livro recomendado para quem gosta de narrativas fortes e rápidas, e tramas intrincadas que fazem pensar. O autor sabe bem como retratar as mais diversas situações do cotidiano, além de conseguir trabalhar as características mais comuns dos personagens, de maneira que eles se aproximem de uma pessoa real e comum. Só por isso, já vale a leitura.

BR 163
Tony Bellotto
editora Cia. das Letras
211 páginas
nota no Skoob: 3.6
nota do blog: 4.0



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terça-feira, 24 de maio de 2016

No buraco [Resenha]



"Teo Zanquis está na praia, em Ipanema, falando consigo mesmo. E a história que ele conta é a sua própria, a de um guitarrista de uma banda de rock de um único sucesso nos anos 80, cujos discos só podem ser encontrados em sebos musicais do centro de São Paulo. A vida profissional e artística de Zanquis atingiu muito rápido seu apogeu para, em seguida, com a mesma rapidez, mergulhar no mais retumbante esquecimento. A história de Teo, narrada num tom confessional que praticamente embute o leitor na pele do personagem, acaba resvalando num curioso plot detetivesco de desfecho tão inesperado quanto brilhante, narrado com um humor ácido e contundente."

Mais uma estória fascinante de Tony Bellotto; aqui ele continua usando cenários do nosso dia a dia para criar uma narrativa leve e bastante divertida, carregada de ironias, reflexões e muito rock and roll. Ao retratar as desventuras de o guitarrista de uma banda que só teve um grande sucesso, ele quase cria seu alter-ego mal sucedido, que não conseguiu ser o rock star que queria ser.

Teo Zanquis começa a relembrar sua história, desde os primeiros momentos como guitarrista, até os piores fracassos alcançados por sua banda, e pior, as confusões em que ele se envolve pessoalmente, por se apaixonar por uma mulher misteriosa ou por participar de orgias sexuais regadas a muita droga e bebida. A narrativa intercala as lembranças de Teo com as coisas que ele vê (e ouve) na praia, onde ele está no momento presente. Ali, com a cabeça dentro de um buraco na areia (situação que dá nome ao livro), ele escuta pedaços de conversas de banhistas e reflete sobre o conteúdo delas, criando ganchos para que ele conte suas memórias.

O livro é cheio de passagens divertidas, com um humor ácido e inteligente, além de críticas a algumas convenções sociais que enfrentamos diariamente. Os personagens foram pensados e concebidos de forma brilhante, para que complementassem as histórias do protagonista, Teo. Além disso, o autor consegue criar cenários complexos e conturbados, mas que, ao ler, nos parecem bastante conhecidos, quase comuns. A trama principal, que é o envolvimento de Teo com a garota oriental que trabalha na loja de discos, tem o desfecho mais inesperado possível, e com certeza o leitor não conseguirá imaginar o plot final dessa estória.

A escrita do Tony é moderna, fluida e muito envolvente: enquanto faz um retrato irônico do cotidiano comum, ele aproveita para problematizar aquele sonho de ser uma grande estrela do rock, mostrando que essa vida não tem tanto glamour quanto imaginamos, e que o sucesso está próximo do fracasso. Muito mais do que podemos imaginar.


No buraco
Tony Bellotto
editora Cia. das Letras
256 páginas
nota no Skoob: 3.6
nota do blog: 4.0

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segunda-feira, 21 de março de 2016

Um pouquinho de...

"Os espaços abertos que deveriam depreciar suas preocupações, aviltavam tudo: o empenho parecia inútil. Especialmente as sinfonias: lamentáveis explosões, manifestações bombásticas, tentativas vãs de erguer uma montanha de sons. Ingente esforço. E para quê? Dinheiro. Respeito. Imortalidade. Uma forma de negar a aleatoriedade com que fomos gerados, de manter distante o medo da morte."

(página 86, capítulo 3, parte III)









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segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Um pouquinho de...

"Por minha exposição no mundo exterior sinto que, lá fora, as pessoas não expressam seus sentimentos e aqui, em Vila Serena, posso ser exatamente como sou (e tento ser lá fora, mas lá não existe interesse e estão todos apavorados e carentes, e são quase todas pessoas ignorantes, quando não burras - existe uma diferença!). Eu me adoro, eu não gosto é do mundo."


(página 31 )

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Só por hoje e para sempre [Resenha]

onde comprar: Extra//Saraiva//Submarino//Fnac 


"Entre abril e maio de 1993, Renato Russo passou vinte e nove dias internado numa clínica de reabilitação para dependentes químicos no Rio de Janeiro. Durante esse período, o músico seguiu com total dedicação os Doze Passos, programa criado pelos fundadores dos Alcoólicos Anônimos, que incluía um diário e outros exercícios de escrita. É este material inédito que vem à tona depois de mais de vinte anos nesse livro, graças ao desejo de Renato de ter sua obra publicada postumamente. Entremeando as memórias do líder da Legião Urbana com passagens de autoanálise e um olhar esperançoso para o futuro, este relato oferece a seus fãs, além de valioso documento histórico, um contato íntimo com o artista e um exemplo decisivo de superação."

Quando soube da existência desse livro, fiquei muito curiosa para lê-lo, porém, com uma certa desconfiança de que seria apenas um relato triste e deprimente sobre os sofrimentos de Renato Russo, algo que quisesse apenas explorar o sucesso do cantor para vender livros. Graças ao céus, eu estava errada.


O livro é uma compilação dos escritos que Renato reuniu durante os vinte e nove dias que esteve internado na clínica de reabilitação Vila Serena, como parte de seu tratamento. Além das reflexões acerca de sua própria vida, ele também escrevia sobre a esperança que tinha em sua recuperação e os planos para seu futuro, como a vontade que tinha de se tornar cineasta no final da vida, quando estivesse mais velho. Todos os seus defeitos e qualidades estão expostos aqui, e, como sabemos, a convivência com ele deveria ser extremamente difícil: ele se considerava muito especial, acima de qualquer outra pessoa, como o gênio que ele realmente era. Pedante, egocêntrico e esnobe, porém, um dos maiores artistas de todos os tempos.

Os Doze Passos que deviam ser seguidos durante o tratamento, incluíam manter um diário - de onde saiu a maioria do material para o livro - e o preenchimento de algumas fichas de atividades, onde Renato registrava tanto suas opiniões sobre os encontros com outros internos quanto as descobertas que fazia sobre si mesmo. Essas descobertas seriam o alicerce para sua recuperação, e incluíam reconhecer seus pontos fracos e defeitos, trabalhá-los e tentar melhorá-los de forma que essa melhora o fortificasse e lhe desse confiança para enfrentar o dia a dia sem o subterfúgio das drogas e da bebida.

Aqui é possível conhecer um pouco do lado genial de Renato, e toda a dor que isso lhe causava. Sua dependência química também o fazia sofrer, e ele se arrastava cada vez mais para o fundo do poço, até que decidiu mudar. A reabilitação iria ajudá-lo a lidar com seus sentimentos mais perturbadores e o fazer encarar a realidade: ele não era melhor que ninguém e tinha que encarar isso. Durante a leitura de suas anotações nas fichas de atividades, dá para perceber que ele, apesar de ser visto como um deus pelos fãs, era apenas humano, como qualquer um de nós.

É uma leitura essencial para os fãs da Legião e de Renato: desperta sentimentos intensos no leitor, e traz de volta aquela saudade do cantor, que sentimos desde a sua morte em 1996. Saber que tudo aquilo foi escrito por ele, nos coloca um pouquinho mais perto da pessoa por trás do ídolo. Além disso, o livro nos obriga a repensar nossa própria vida, nossa relação com aqueles que amamos, e nossos planos para o futuro, lembrando que não devemos ter medo de viver.

Em cada página do diário, Renato Russo está de coração aberto, exposto, sensível. E é latente a evolução psicológica do paciente durante o tratamento: de início ele está arredio e desconfiado, sempre mal humorado e ainda considerando as outras pessoas como idiotas e irritantes, e mais para o final, em suas últimas anotações, é visível que ele aceita mais o outro, compreende sua existência num todo e sua importância no grupo. Como ninguém é perfeito, ele tem consciência de que não conseguirá alcançar êxito em todos os pontos exigidos, mas também sabe que tudo o que conquistou durante a internação é o início da mudança definitiva que ele buscava (e precisava) para sua vida.

Cada passo dado por Renato na reabilitação é emocionante, e se você é fã da banda, irá sentir ainda mais. Ainda que não seja fã, certamente você conhece alguém que busca recuperação de dependência química, e sabe o quanto essa situação é dolorosa, não só para o dependente, mas para todos em sua volta. Leia o livro como um incentivo para refletir sobre suas atitudes diárias, e até como uma dica para ajudar quem precisa.

O que eu mais gostei no livro foi conseguir entender melhor algumas letras das músicas do álbum O descobrimento do Brasil, lançado em 1993, como Vinte e nove e Só por hoje, que tiveram influência clara de sua passagem pela clínica. Perder Renato Russo há quase vinte foi um duro golpe, mas, como todo grande poeta, ele nos deixou uma obra imensa, que poderá ser reverenciada por um longo tempo. Leitura emocionante e edificante, super recomendada para todos. 


Só por hoje e para sempre - diários do recomeço
Renato Russo
editora Companhia das Letras
168 páginas
nota do Skoob: 4.1
nota do blog: 5


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quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Agora aqui ninguém precisa de si [Resenha]


"Recuerde, diz a placa imperativa em espanhol, enquanto o retrovisor do automóvel mostra o que já ficou no passado. 'Eu tenho uma coleção de esquecimentos/e apenas duas mãos para ver o mundo', lamenta o 'super-homem submisso' que não alcança o ritmo dos acontecimentos. Resta observar coisas mínimas como uma formiga ou imensas como o universo e seus astros. O tempo e o espaço, a insignificância e a morte são os principais temas deste volume de inéditos de Arnaldo Antunes, que oscilam entre o humor e a desilusão. Alternando poemas em verso e visuais, fotografias e 'prosinhas', a obra é marcada pela pluralidade, pelo registro pop e pela sonoridade, tão próprios ao artista, que assina também o projeto gráfico. Um diálogo sensível e desafiante com o homem contemporâneo."


Arnaldo Antunes é um grande poeta, no sentido mais amplo da palavra: ele transita entre música, poesia e arte, e faz tudo com perfeição. Suas  construções são excêntricas e contemporâneas, e podem agradar até mesmo aqueles que ainda não são acostumados a ler poesia.

"não sei
se não
sei ou
se não
sei que
sei
mas
esque
cerei"
(Não sei - página 121)

Sua visão do mundo está registrada nesse livro, tanto com palavras quanto com imagens, que ele usa para complementar suas construções poéticas, com uma habilidade que poucos artistas têm. E esse seu trabalho com poesia não é apenas um flerte: Arnaldo já ganhou um Prêmio Jabuti em 1992, por seu livro Iluminuras.

Dentre as diversas poesias inovadoras de Arnaldo também é possível encontrar algumas ao estilo clássico, com métrica e ritmo próprios, que demonstram sentimentos profundos e muita sensibilidade.

"Se ando cheio me dilua
se estou no meio conclua
se perco o freio me obstrua
se me arruinei reconstrua"
(Você que me continua - página 75)

Esse conjunto de rimas e imagens de Arnaldo retratam uma poesia urbana moderna, carregada de reflexões sobre o ser, o viver, que captou a essência do dia a dia que vivemos hoje. Fica claro que um poeta não é feito apenas de versos e rimas; ele também é feito de emoções e observação do comportamento humano e do universo ao seu redor. Enxergamos todas essas qualidades em Arnaldo Antunes e isso se reflete em seus poemas.
Para reparar - página 111


Como o próprio autor é o responsável pelo projeto gráfico do livro, tudo tem a cara dele, meio confuso, e ao mesmo tempo artístico. Vale a pena a leitura e a viagem visual proporcionada pelo livro.


Agora aqui ninguém precisa de si
Arnaldo Antunes
editora Companhia das Letras
152 páginas
nota do Skoob: 4.0
nota do blog: 4.2

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quinta-feira, 1 de outubro de 2015

As intermitências da morte [Resenha]


"Apesar da fatalidade, a morte também tem seus caprichos. Cansada de ser detestada pela humanidade, a ossuda resolve suspender suas atividades. De repente, num certo país fabuloso, as pessoas simplesmente param de morrer. E o que no início provoca um verdadeiro clamor patriótico, logo se revela um grave problema. Idosos e doentes agonizam em seus leitos sem poder ´passar desta para melhor'. Os empresários do serviço funerário se veem desprovidos de sua matéria-prima, hospitais e asilos geriátricos enfrentam superlotação e o negócio das companhias de seguro entra em crise. O governo não sabe o que fazer e a igreja se desconsola pois sem morte não há ressurreição e sem ressurreição não há igreja. Mas, na sua intermitência, a morte pode a qualquer momento retomar os afazeres de sempre. Então, o que vai ser da nação já habituada ao caos da vida eterna?".

Mais uma vez me aventurei a ler Saramago, e, se por um lado a estória agradou, por outro, o incrível talento para divagação que o autor tem  me deixou um tanto quanto cansada.

A premissa do livro é: a morte parou de trabalhar e as pessoas não morrem mais. Só com isso já seria possível criar vários cenários diferentes para a narrativa, e o autor é realmente bom e filosofar e alfinetar diversos setores da sociedade, então, ele consegue criar os mais diversos cenários para mostrar que a morte nada mais é que uma fase da própria vida, e que, se ninguém mais morresse, tudo seria muito mais complicado do que jamais imaginamos.

Logo de início já enfrentamos as dificuldades do governo, da igreja, das funerárias, dos hospitais, das casas de repouso, das companhias de seguro e das famílias das pessoas que não morrem. Imaginem você ter um familiar em casa, quase morrendo para sempre, sabendo que ele nunca vai se recuperar e também nunca vai morrer. Agora imaginem isso num âmbito maior, pelo ponto de vista do governo, por exemplo, que ficará eternamente com os aposentados recebendo seus salários, sem morrer jamais. Pior ainda, esse número de idosos só tende a crescer, já que a população continua envelhecendo normalmente, mesmo aqueles que ficam doentes ou inválidos, continuam vivos e dependentes do governo.

A igreja também acredita que viver para sempre não é um bom negócio, já que boa parte da sua doutrina prega que após a morte há ressurreição. Não havendo morte, não existe mais motivos para que os seguidores continuem a acreditar naquilo que a igreja ensina.

As funerárias, não têm mais clientes, as seguradoras não vendem mais seus produtos, já que ninguém vai precisar deles se viver eternamente. E os asilos e hospitais vão ficando cada vez mais cheios e sem condições de atender a todos que os procuram.

Inicialmente, quando a população percebeu que não se morria mais, houve uma grande comemoração: as pessoas ficaram tão felizes que não mais deixariam essa vida, que não pensaram em todos os problemas que isso poderia acarretar. Até que a euforia passou, e a dificuldade foi caindo sobre cada uma das famílias que tinha um enfermo em casa.

E é a partir daqui que o livro vai ficando lento e enrolado: o autor aproveita a situação vivida pelos personagens para criticar a igreja e o estado, repetidamente, e também para filosofar sobre a vida e a morte, muitas vezes usando metáforas e ditos populares que perdem sua função no texto, enquanto ele dá voltas e voltas para dizer o que realmente queria dizer. Isso é uma crítica e ao mesmo tempo um elogio, pois o autor consegue fazer tudo isso e ainda construir uma estória muito interessante.

Sendo a morte o personagem principal da estória, e também levando em consideração o próprio título do livro, eu esperava ela tivesse uma participação mais constante no decorrer da narrativa, mudando sempre de opinião, que voltasse a trabalhar de repente e do nada decidisse descansar novamente. Quando a morte efetivamente apareceu, o enredo pareceu tomar um rumo diferente: não se falou mais nas pessoas afetadas por sua greve, nem houve menção a qualquer problema citado anteriormente. Tudo passou a girar em torno da morte, e de uma situação que se tornou um desafio para ela. A resolução desse desafio é o desfecho do livro, e devo confessar que as últimas linhas me agradaram bastante, mas um ou dois capítulos antes do final, voltei a achar que a narrativa ficou lenta. Por fim, concluí que esse era o resultado esperado por Saramago, e aceitei.

Apesar daquele estilo diferente de escrever que é característico do autor, e que pode assustar no começo da leitura, eu gostei bastante desse livro, principalmente pela ideia da ausência da morte e das dificuldades que isso acarreta, pois são coisas que jamais imaginamos, e sempre temos em mente que morrer é ruim. Claro, a morte é muito triste, mas é necessária, e a maior qualidade do livro de Saramago é nos fazer pensar sobre isso.


As intermitências da morte
José Saramago
editora Companhia das Letras
208 páginas
nota do Skoob: 4.5
nota do blog: 3.5


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Joana Masen, quando não está resenhando, pintando e bordando por aqui, está escrevendo poesia no blog Milonga.
Twitter: @joana_masen



quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Tarde de autógrafos com Marcelo Rubens Paiva

Sim caros leitores, meu desejo se realizou! Desde a primeira vez que li Feliz ano velho, eu tinha essa vontade de conhecer o Marcelo Rubens, e depois que conheci Blecaute então, nem se fala. Aliás, vocês que acompanham o blog, sabem da verdadeira paixão que tenho por esse livro, não é mesmo?

Minha coleção de livros do Marcelo Rubens Paiva, ainda faltam alguns

Então vocês vão entender a alegria que senti quando soube que o autor estaria autografando seu novo livro, Ainda estou aqui, na Livraria Cultura da Avenida Paulista. Pois bem, lá fomos nós tentar chegar perto dele e conseguir o tão sonhado autógrafo. Pena que não foi exatamente como imaginei.

Explico: a fila estava enorme, mas, felizmente, eu estava entre os 20 primeiros, e isso dava certa esperança. Poderia vê-lo chegar, observá-lo enquanto conversava com as pessoas que estavam na minha frente, e o melhor, ele ainda estaria de bom humor quando chegasse minha vez, e eu poderia, pelo menos, dizer o quanto adoro seus livros e agradecer pela viagem proporcionada por Blecaute. Mas, para decepção dessa que vos escreve, quase não consegui tirar uma foto ao lado dele.

Os dois liros autografados
Tudo estava sendo feito na maior correria, e uma moça, acredito que agente da editora, estava coordenando a fila e organizando a entrada e a saída de cada pessoa na área dos autógrafos. Ela pegava os livros da mão das pessoas, colocava na frente do Marcelo, junto com o papel onde já estava anotado nosso nome, e ele só assinava e devolvia. Assim, meio que em série, sem um sorriso, sem uma palavra. A foto também tinha que ser rápida, já que a mocinha continuava nos apressando.

Apesar dessa correria, ele fez uma piada com o meu exemplar de Blecaute, que é bem velhinho, e, como eu comprei no sebo, tem o nome da antiga dona na primeira página, e ele perguntou se eu tinha pegado o livro da Cláudia. Ademais, entreguei para ele um marcador de páginas do blog, pedi para ele acessar e ler a resenha, e tirei poucas fotos.

Marcelo brincando com o nome na primeira página de Blecaute, e posando para a foto depois de autografar
Acredito que o Marcelo não era o responsável pela rapidez do contato com os leitores, e por um lado até entendo que tudo tenha sido corrido, já que tinha mais 200 pessoas na fila, e se cada um demorasse o tempo que quisesse com ele, aquilo não terminaria nunca. Enfim, essa foi a sessão de autógrafos mais sem graça a que já fui, e sai um pouco decepcionada. Só espero que o livro seja tão bom que compense o fato de mal ter trocado duas palavras com o autor.

Pelo pouco que pude ler até agora, já percebi que será uma leitura bem emocionante. Leiam  sinopse abaixo e vocês vão entender:


Trinta e cinco anos depois de Feliz ano velho, a luta de uma família pela verdade. Eunice Paiva é uma mulher de muitas vidas: casada com o deputado Rubens Paiva, esteve ao seu lado quando foi cassado e exilado, em 1964. Mãe de cinco filhos, passou a criá-los sozinha quando, 1971, o marido foi preso por agentes da ditadura, a seguir torturado e morto. Em meio à dor, ela se reinventou. Voltou a estudar, tornou-se advogada, defensora dos direitos indígenas. Nunca chorou na frente das câmeras. Ao falar de Eunice, e de sua última luta, desta vez contra o Alzheimer, Marcelo Rubens Paiva fala também da memória, da infância e do filho. E mergulha num momento negro da história recente brasileira para contar - e tentar entender - o que de fato ocorreu com Rubens Paiva, seu pai, naquele janeiro de 1971.





Mesmo depois desse post-desabafo, não deixei de gostar nem um pouquinho do Marcelo, e nem do seu trabalho, e continuo indicando para todo mundo sua obra-prima, Blecaute. Ainda não leram? Prefiro nem comentar, rs.


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segunda-feira, 6 de abril de 2015

Um pouquinho de...

"É o que acontece a todos nós, sempre fomos mais alguma vez, Tu nunca foste tanto, disse a mulher do primeiro cego, As palavras são assim, disfarçam muito, vão-se juntando umas com as outras, parece que não sabem aonde querem ir, e de repente, por causa de duas ou três, ou quatro que de repente saem, simples em si mesmas, um pronome pessoal, um advérbio, um verbo, um adjectivo, e aí temos a comoção a subir irresistível à superfície da pele e dos olhos, a estalar a compostura dos sentimentos, à vezes são os nervos que não podem aguentar mais, suportaram muito, suportaram tudo, era como se levassem uma armadura..."


(página 267)

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Ensaio sobre a cegueira [Resenha]

onde comprar: Americanas//Extra//Submarino 

"Um motorista parado no sinal se descobre subitamente cego. É o primeiro caso de uma treva branca, que logo se espalha incontrolavelmente. Resguardados em quarentena, os cegos se perceberão reduzidos à essência humana, numa verdadeira viagem às trevas. Esse livro é a fantasia de um autor que nos faz lembrar ´a responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam'. José Saramago nos dá aqui uma imagem aterradora e comovente de tempos sombrios, à beira de um novo milênio. Cada leitor viverá uma experiência imaginativa única. Num ponto onde se cruzam literatura e sabedoria, Saramago nos obriga a parar, fechar os olhos e ver. Recuperar a lucidez, resgatar o afeto: essas são as tarefas do escritor e de cada leitor, diante da pressão dos tempos e do que se perdeu."


Ler esse livro é uma tarefa tão árdua quanto satisfatória: uma narrativa intensa, que exige do leitor toda a sua atenção e capacidade de raciocínio. Saramago criou brilhantemente um universo que apavora, mas que deixa bem claro a todo momento que não somos tão importantes como acreditamos ser.

Repentinamente, e sem qualquer explicação, as pessoas começam a ficar cegas, e esse mal súbito vai se espalhando como uma grave epidemia, atingindo muitas pessoas num curto período de tempo. Quando as autoridades decidem tomar uma providência, não sabem ao certo como agir, nem para cuidar daqueles que já cegaram, nem para proteger os que ainda exergam para que não sejam contaminados também. Então, para tentar resolver a situação, eles decidem isolar todos os cegos - e aquelas pessoas que já tiveram contato direto com algum deles - num manicômio desativado, que, teoricamente, teria capacidade para acomodá-los com o mínimo de conforto.


Conforme mais pessoas vão cegando e sendo enviadas para o manicômio, o caos vai se instaurando no lugar: faltam camas para muita gente, a comida é pouca, não existem remédios nem tampouco manutenção ou limpeza nas dependências do prédio. E é a partir daqui que o leitor passa a sofrer e avaliar a importância das menores coisas, daquelas que já são tão corriqueiras que pensamos que não podemos viver sem.

A cada dia os cegos vão perdendo toda a sua condição humana, passando a viver quase como animais, sem o mínimo que se é necessário para manter sua decência, sua dignidade. Quando se tem que lutar por um prato de comida, pela possibilidade de fazer suas necessidades num banheiro, ou de apenas tomar um simples banho, fica impossível de viver com civilidade. Os conflitos são inevitáveis, e começam a surgir quando, dentre os cegos, surgem aquelas pessoas que nunca tiveram boa índole, e que na cegueira só conseguiram ficar ainda mais malvados. Alguns doentes passam a controlar a distribuição da pouca comida que recebem, e exigem que os demais cegos paguem por suas refeições. Ora, como se dinheiro e joias pudessem tem algum valor real na situação em que estão vivendo.

O mais interessante nesse livro é observar o comportamento das pessoas quando estão em situação extrema. Fica muito fácil julgar uns aos outros por todo e qualquer motivo, ou descontar a raiva e a frustração naquele que está mais próximo. Num grupo de pessoas que nunca se viram antes e que é obrigado a conviver sob extremo estresse, não há como evitar os desentendimentos.

Para complicar ainda mais tudo o que está acontecendo, temos a mulher do médico, a única pessoa dentre os confinados que ainda enxerga, e que mentiu para os policiais dizendo que estava cega, só para ficar junto de seu marido. O dilema vivido por ela é se perguntar se deve manter-se calada sobre a sua condição e continuar vendo todo o sofrimento dos outros cegos (além de saber qual a real situação do lugar onde estão vivendo), ou revelar que enxerga e correr o risco de ser praticamente escravizada pelos doentes, sendo obrigada a cuidar de tudo e de todos, assumindo funções que deveriam ser de responsabilidade das autoridades.

Outro detalhe que deixa o livro tão interessante quanto complexo é o estilo do autor, a forma como ele monta a narrativa, não conferindo nomes a nenhum dos personagens, e mesmo assim, fazendo com que o leitor possa distinguir facilmente cada um deles. É totalmente possível, apenas pelas características de cada personagem, saber quando é ele que está falando, ou quando estão falando sobre ele.

"... tão longe estamos do mundo que não tarda que comecemos a não saber  quem somos, nem nos lembrarmos  sequer de dizer-nos como nos chamamos, e para quê, para que iriam servir-nos os nomes, nenhum cão reconhece outro cão, ou se lhe dá a conhecer, pelos nomes que lhes foram postos, é pleo cheiro que identifica e se dá a identificar, nós aqui somos como uma outra raça de cães, conhecemo-nos pelo ladrar, pelo falar, o resto, feições, cor dos olhos, da pele, do cabelo, não conta, é como se não existisse..."

Além disso, a incrível capacidade de Saramago para construir um parágrafo interminável onde ele mistura tanto a descrição de uma cena quanto o diálogo entre os personagens. Talvez fique difícil de entender apenas com essa explicação, e realmente é, mas é essa dificuldade que deixa a leitura tão espetacular (e complicada).

"Que situação a nossa, senhor doutor, disse o primeiro cego, já não nos bastava estarmos cegos, viemos cair nas garras de uns cegos ladrões, até parece sina minha, primeiro foi o do carro, agora estes que roubam a comida, e ainda por cima de pistola, A diferença é essa, a arma, Mas os cartuchos não duram sempre, Nada dura sempre, contudo, neste caso, talvez fosse de desejar que sim, Porquê, Se os cartuchos vierem a acabar, será porque alguém os disparou, e nós já temos mortos de sobra, Estamos numa situação insustentável, É insustentável desde que aqui entrámos, e apesar disso vamo-nos aguentando..."

Com todos esses elementos, "Ensaio sobre a cegueira" não tem como ser um livro chato ou enfadonho, apesar de ser uma leitura lenta e exaustiva. A função do livro não é apenas entreter, apresentando ao leitor um mundo distópico e inimaginável, e sim, ensinar, fazer refletir, escancarar o quão pequenos somos todos nós. Só nos colcando no lugar de cada um daqueles cegos é que podemos ter uma exata noção de que nós não valemos nada, que uma única disfunção em nossa sociedade pode instaurar o caos e acabar com tudo o que nós conhecemos hoje.

"... mas o que ali verdadeiramente se necessitava era um poderoso jorro de mangueira que levasse à frente toda a merda, depois de uma brigada de canalizadores que viessem reparar os autoclismos, pô-los a funcionar, depois água, água em quantidade, para levar aos canos de esgoto o que ao esgoto deveria ir, depois, por favor, olhos, uns simples olhos, uma mão capaz de nos conduzir e guiar, uma voz que me diga, Por aqui. Estes cegos, se não lhes acudirmos, não tardarão a trnsformar-se em animais, pior ainda, em animais cegos."

Em diversos momentos, o autor nos atinge em cheio com suas considerações sobre a vida o universos e tudo mais, como que dando um tapa na cara de quem acredita que tem mais valor que outrem. Nesse livro Saramago reduziu todos os personagens a quase nada, tirando deles a identidade, para que ficasse muito claro que status, formação, profissão, poder aquisitivo não valem nada quando todos estão padecendo do mesmo mal: o distanciamento da condição humana e o afloramento do instinto de sobrevivência, que transforma a todos em seres quase irracionais, movidos pelo desespero e pela fome.

"... perguntar de que morreu alguém é estúpido, com o tempo a causa se esquece, só uma palavra fica, Morreu..."

A resenha ficou extensa e séria, quase tão complexa quanto o próprio livro, mas para quem chegou até aqui, é importante reafirmar que o livro é uma leitura única, e que, como foi dito na sinopse, cada leitor terá sua própria experiência sobre ela, e sua forma de encarar a vida vai mudar, aprendendo a valorizar até as menores coisas. Perder a visão, por si só, já é um desafio terrível, pior ainda seria perder a humanidade.


Ensaio sobre a cegueira
Jose Saramago
editora Cia. das Letras
312 páginas
nota do Skoob: 4.5
nota do blog: 4.8 


Joana Masen, quando não está resenhando, pintando e bordando por aqui, está escrevendo poesia no blog Milonga.
@joana_masen

quarta-feira, 1 de abril de 2015

O que eu li em março



Olá leitores! O mês de março também durou 189 dias para vocês? Para mim foi um mês muito arrastado, e o pior, as leituras também não renderam! Confiram:















Três míseros livros Joana???? Isso mesmo! Por mais que eu tenha tentado, não li tanto quanto nos outros meses, e tenho uma boa explicação para isso: como eu já disse na resenha, "A música do silêncio" foi um livro que demorou para engrenar, e por isso, demorei mais de 10 dias para ler as suas 130 páginas (shame on me); e o desafiador "Ensaio sobre a cegueira", que faz parte do Projeto Leitura 2015, também dificultou o andamento das leituras. Saramago era realmente um gênio, e sua narrativa, apesar de espetacular, complica a vida do leitor, principalmente por conta dos seus parágrafos intermináveis quase sem pontuação, que exigem atenção e dedicação total durante a leitura. Não se enganem, apensar de tudo isso, ele vale muito a pena! =)

E mesmo com tão poucos livros lidos, consegui eliminar mais alguns itens do Reading Challenge:

- um livro publicado neste ano: A música do silêncio;
- um livro que está lá embaixo na sua lista de leitura: confesso que não pretendia reler Ensaio sobre a cegueira tão cedo, mas graças ao Projeto, ele acabou furando a fila;
- um livro que você consegue ler em um dia: na verdade, não terminei em um dia, mas dá para ler Sem esperanças rapidinho.























Se interessaram pelo Reading Challenge? Ainda dá tempo de participar! Visitem o blog Mari the reader e saibam como ;)

E não deixem de me contar nos comentários como andam as leituras de vocês, ok?

Antes que eu me esqueça, esse post já vale para o Top Comentarista de abril, que vai ter um prêmio incrível, não percam!

XOXO


Joana Masen, quando não está resenhando, pintando e bordando por aqui, está escrevendo poesia no blog Milonga.
@joana_masen

segunda-feira, 30 de março de 2015

Um pouquinho de...

"A ideia é boa, experimentemos, e todos estiveram de acordo, que sim, que era uma boa ideia, só a rapariga dos óculos escuros não pronunciou palavra sobre esta questão de enxada ou pá, todo o seu falar, por enquanto, eram lágrimas e lamentos, A culpa foi minha, chorava ela, e era verdade, não se podia negar, mas também é certo, se isso lhe serve de consolação, que se antes de cada acto nosso nos puséssemos a prever todas as consequências dele, a pensar  nelas a sério, primeiro as imediatas, depois as prováveis, depois as possíveis, depois as imagináveis, não chegaríamos sequer a nos mover de onde o primeiro pensamento nos tivesse feito parar."


(páginas 83/84)








Joana Masen, quando não está resenhando, pintando e bordando por aqui, está escrevendo poesia no blog Milonga.
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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

O irmão alemão [Resenha]


"Na São Paulo dos anos 60, o adolescente Francisco de Hollander, encontra uma carta escrita em alemão dentro de um dos livros da vasta biblioteca paterna. Em meio a porres, roubos recreativos de carros a livros empoeirados, surgem pistas que denotam uma missão de vida inteira. Ao tentar traçar o destino de seu irmão alemão, parece também estar em jogo o narrador ganhar o respeito do pai, que, apesar dos arroubos intelectuais de Francisco, tem mais afinidade com Domingos, seu outro filho, galanteador contumaz, leitor da Playboy e da Luluzainha, e sempre a par das novas sobre Brigite Bardot. A despeito das tentativas de mediação da mãe, Assunta - italiana doce e enérgica, justa e compreensiva -, a relação dos irmãos é quase feita só de silêncio, competição e ressentimento. Num decurso temporal que chega à Berlim dos dias presentes, e que tem no horror da ditadura militar brasileira e nos ecos do Holocausto seus centros de força, esse livro conduz o leitor por caminhos vertiginosos através dessa busca pela verdade e pelos afetos."

O aguardado livro de Chico Buarque que conta a existência de um irmão alemão que ele nunca conheceu, me surpreendeu mais pelo estilo narrativo do autor do que pelo enredo em si. Tudo se desenrola a partir de um fato verídico - o pai de Chico realmente teve um filho na Alemanha, antes de se casar com sua mãe - explorado de maneira ficcional, alternando acontecimentos que poderiam ser reais com devaneios poéticos que vão desde a grande biblioteca do pai até a violência do Golpe Militar e do Holocausto.

Para os bookaholics, o que mais chama a atenção num primeiro momento é o enorme acervo de livros do pai de Ciccio, personagem principal e narrador da estória; o jornalista Sérgio de Hollander é muito bem conceituado em seu meio, e todos sabem que ele é um leitor voraz, por isso, as editoras, os escritores, as lojas, todos lhe enviam inúmeros livros, que se acumulam pela casa, já não tendo mais espaço no escritório, e tomam conta de todas as paredes, desde os quartos até a cozinha. A responsável pela organização de tantos volumes é Assunta, mãe de Ciccio, e ele faz questão de frisar que, sem ela, nem mesmo o pai encontraria nenhum livro naquelas prateleiras.

Ciccio é bastante reservado, tem apenas um amigo, com quem comete pequenos delitos durante a adolescência, quase não fala com o irmão, de quem herda só as ex-namoradas, e tem uma enorme vontade de se aproximar mais do pai, acreditando que se dariam bem por compartilharem o gosto pela literatura, mas o pai prefere se abrir com o irmão em longas conversas e não com ele.

Um dia Ciccio está mexendo em alguns livros do escritório quando encontra uma carta escrita em alemão, endereçada ao pai. Quando ele consegue traduzi-la, descobre que a carta fala sobre um filho que seu pai teria tido com uma jovem alemã no período em que morou naquele país. A partir daí começa a sua busca por informações a respeito desse meio irmão, e o seu desejo de conhecê-lo. Remexendo em mais livros ele acha uma foto da moça grávida, com seu pai bem mais jovem a seu lado, mas não se sente a vontade para perguntar a ele qualquer coisa sobre o assunto, muito menos para a mãe, com medo de fazê-la sofrer.

Ciccio faz algumas pesquisas e descobre um maestro que mora no Brasil e que poderia saber alguma coisa sobre o paradeiro do irmão alemão, mas o contato com ele é muito difícil, e a busca vai se complicando cada vez mais. O maior medo de Ciccio é que esse seu irmão tenha sido vítima do Holocausto e tenha morrido em algum campo de concentração, sem nunca ter sido identificado.

Enquanto isso, começa a ditadura no Brasil, e seu irmão, Mimmo, acaba desaparecendo, fato que cai como uma bomba na família, deixando seus pais numa tristeza profunda. Hora Ciccio consola a mãe, que está arrasada com a falta de notícias a respeito do irmão, hora ele busca por mais evidências da existência de Sérgio Ernst, o irmão alemão, mas em ambas as situações o que se depreende é que Ciccio não passa de um jovem inseguro e carente, que busca a todo custo ganhar mais carinho e atenção de seu pai, para que tenha mais confiança em si mesmo. Em alguns momentos o autor alterna o tempo presente da narrativa com uma imaginação do narrador, sonhando com como seria o desenrolar dos fatos se ele realmente ficasse frente a frente com o irmão, ou se tivesse oportunidade - ou talvez coragem - de quebrar a barreira que existe em seu relacionamento com o pai.

A narrativa pode ficar um pouco arrastada em alguns momentos, mas não entedia. Isso se dá pelo fato de os parágrafos serem muito extensos, e, para alguns leitores, pode haver uma perda no ritmo. O estilo de Chico aqui está mais para Saramago do que para Marcelo Rubens Paiva, com o emprego de palavras pouco usadas pelo grande público, e as frases têm uma construção mais formal, dando um ar mais intelectual à narrativa. Pode parecer que estou desmerecendo a obra, mas pelo contrário, estou elogiando: para quem reclama que alguns chick-lits da vida têm um vocabulário muito simples e pobre, essa é uma boa opção de leitura mais densa, que faz pensar.

Em resumo, se Ciccio encontra ou não o irmão alemão é mero detalhe, a estória toda é envolvente e tem inúmeros acontecimentos paralelos à essa busca muito interessantes, que vão nos dando uma ideia de como era viver na época da ditadura, e como seria interessante ter uma biblioteca tão bem servida quanto a de Sérgio Hollander.


O irmão alemão
Chico Buarque
editora Cia. das Letras
240 páginas
nota do Skoob: 3,9
nota do blog: 3,9



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