Anastasia é uma moça simples, ingênua e apaixonada Literatura Inglesa.
Ela quer terminar sua faculdade para trabalhar em alguma editora e manter seu contato
com a literatura, mas, quando sua colega de quarto fica doente no dia em que
tem uma entrevista com o benemérito da faculdade e convence Ana a ir em seu
lugar, suas perspectivas mudam totalmente. O entrevistado é o multimilionário Christian Grey, a quem Ana não conhece e não faz a
menor ideia de quem seja. Durante a entrevista, Anastasia sente algo estranho
vindo de Christian, mas, apesar dos olhares incisivos que ele lhe dá, ela
termina o trabalho e vai embora. A partir daí, ela não consegue tirá-lo da
cabeça, e ele, cada vez mais, vai se aproximando de Ana, que acaba cedendo aos seus encantos. Ele é lindo, gentil, e tem belos olhos
cinzentos, que a conquistam imediatamente. Apesar de seus sentimentos puros,
ela não imagina qual a verdadeira intenção de Grey, e mesmo com seus avisos
para ficar longe dele, ela acaba entrando de cabeça em seu mundo diferente e
viciante. Suas práticas sexuais, suas exigências absurdas, suas mudanças
repentinas de humor e sua mania por controle deixam Anastasia confusa, com
medo, mas tão apaixonada por esse homem misterioso que ela está disposta a
correr todos os riscos e mudar toda sua vida para não perdê-lo.
Demorei muito para escrever essa resenha, e explico o motivo: quando
terminei de ler “Cinquenta Tons de Cinza”
eu estava totalmente envolvida com a história e afetada por Christian Grey, por
ele ser tão intenso (assim como seus olhos cinzentos) e controlador, mas também
por ele ter um lado carinhoso e romântico, que aflora de repente, transformando
o monstro dominador em príncipe encantado. Eu, que adoro romances, tive que reler
o livro imediatamente após terminar a última página, e assim ficar mais
perto conhecer melhor cada detalhe dos personagens: Christian é lindo,
maravilhoso, rico, misterioso, e com um coração grande o suficiente para tentar
acabar com a fome no mundo. Já Anastasia, para mim, não passa de um placebo. Isso
mesmo, um placebo, aquele remédio sem princípio ativo que distribuem nos grupos
de pesquisas de novos medicamentos, e que as pessoas tomam, mas não serve pra
nada: ela é sem graça, confusa e insegura. Mesmo depois de Grey ter dado todos
os sinais de que estava totalmente apaixonado, ela ainda coloca em dúvida esse
sentimento, por causa de seus costumes sexuais “diferentes” e sua busca do
prazer através da dor. Apesar disso, e de toda a inexperiência de Anastasia em
relacionamentos, ela decide se jogar de cabeça nessa relação e tentar conhecer o
mundo novo que Christian lhe apresenta, totalmente avesso a tudo o que já tinha
vivido (que era quase nada).
Depois de começar minha leitura, soube que a autora era fã da série “Crepúsculo”
e que se inspirou um pouco nela para criar sua trilogia. Na verdade, ela nem
precisava afirmar isso, já que fica visível nos primeiros capítulos de “Cinquenta
tons...” que seus personagens são bem parecidos com Bella e Edward. Muita coisa
aqui remete a alguma coisa do outro, não consegui começar a lê-lo sem fazer algumas
comparações com a saga de Meyer. Ainda bem que, com o passar da história, fui
deixando essas comparações de lado e mantendo o foco na narrativa de James, que
conseguiu “libertar”, por assim dizer, a Anastasia das piores características
de Bella Swan, que são, na minha opinião, a apatia e sua mania de pensar que
tudo no mundo gira em torno de suas vontades. Anastasia é esperta, inteligente
e tem opinião própria, além de um senso de humor contagiante, tanto que ela
consegue reverter algumas situações complicadas apenas com suas frases de
efeito, e não cede imediatamente a todos os desejos de Christian, mesmo estando
caidinha por ele.
Agora entendo por que essa série foi batizada de "pornô para
mamães": por causa do alarde feito em torno do tema BDSM (Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo), e que o livro tem cenas de sexo tórridas que nos deixam
envergonhadas até se estivermos lendo sozinhas. Na verdade, ele não é tudo isso;
os detalhes de cada relação sexual “normal” dos personagens são explícitos,
sim, mas qualquer pessoa no mundo sabe como isso acontece, uns de um jeito,
outros de outro, mas não é segredo para ninguém que já tenha praticado. Eu, que
cresci na época em que Madonna escandalizou a sociedade com suas atitudes
revolucionárias e com o livro Sex, cheio de fotos provocantes e audaciosas,
inclusive com práticas de lesbianismo e BDSM, esperava muito mais escândalo
nesse livro. Na verdade, a propaganda feita é um tanto quanto exagerada, pois o
sadomasoquismo aqui é mais um pano de fundo para uma história de amor do que o
assunto principal do enredo, e a maioria das cenas de sexo acaba sendo
"baunilha", como bem define o próprio Christian. Claro, eles transam
em todos os lugares possíveis e imagináveis, mas não é nada demais. Não quero
dizer aqui o que dizem da história é mentira, muito pelo contrário, a autora realmente
descreve os instrumentos, alguns procedimentos e regras usados pelos adeptos da
prática dominação-submissão, mas fica longe de deixar os leitores de cabelo em
pé (pelo menos os meus não ficaram). Até quando os personagens estão no chamado
“quarto vermelho da dor”, onde Christian é o dominador, existe um pequeno traço
de romance, salvo algumas exceções em que ele exerce certa violência,
necessária para o desenvolvimento da trama, e as práticas não são tão abusivas,
nem tão escandalosas como pintam, ou, como eu imagino, sejam na realidade. E. L.
James foi muito esperta ao desenvolver uma história de amor impossível, entre
um homem poderoso e uma garota confusa e inocente, utilizando como chamariz o
BDSM, logo após o furor causado por outra série que também tinha um romance
impossível, entre vampiro e humana, mas de uma castidade imaculada.
Quando Christian e Anastasia fazem amor, e essas cenas são narradas em
detalhes, criam nas leitoras a curiosidade, a vontade de conhecer melhor a arte
do dom/sub, e buscar novas experiências sexuais, haja vista o aumento das
vendas nas Sex shop pelo mundo afora. Mas para mim, acima de tudo, o que valeu
a pena na leitura foi o romance, que me lembrou aqueles de banca de jornal que
eu lia quando era criança/adolescente, com um up grade de recursos modernos, como a troca de e-mail entre o casal,
que rende momentos engraçados, e que me fez pensar se hoje é realmente assim que
acontece a paquera...
A narrativa é bem simples, o que proporciona rapidez à leitura, com uma linguagem
atual, a diagramação é boa, e o melhor é que a impressão é em papel pólen, um
costume da Editora Intrínseca, deixando tudo mais agradável aos olhos. Apesar
de ter me apegado aos personagens e estar muito curiosa com o desfecho dessa
história, tenho minhas críticas a fazer: achei que a autora repete muitas vezes
as mesmas coisas, cansando um pouco às vezes, além de criar a tal da deusa
interior que aparece do nada e tem personalidade própria. Também acho que ela
vai precisar encontrar uma boa razão para a fobia ao toque que Christian tem,
ou isso não vai fazer sentido no final de tudo.
Cinquenta tons de cinza
E. L. James
455 páginas
Editora Intrínseca


