terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Pulando o Carnaval - dia 3

O Carnaval está terminando, mas por aqui ainda vai rolar até o final da semana. Hoje, mais dois autores britânicos: Lord Byron e William Shakespeare.


Lord Byron nasceu como George Gordon Byron em janeiro de 1788, e se tornou um dos nomes mais influentes do Romantismo, graças a seus poemas e suas obras-primas, como "Don Juan".

A obra de Byron é carregada de pessimismo e revolta contra a sociedade, e é geralmente considerada como autobiográfica: tudo o que ele criava vinha carregado de rebeldia e sempre demonstrava sua insatisfação com as convenções morais e religiosas vigentes na época.

Sua fama cresceu não apenas pelo interesse das pessoas em seus escritos, mas também pela sua vida cheia de extravagâncias: ele vivia cercado de amantes o tempo todo, acumulava dívidas e ainda tinha que viver com o fantasma do incesto.

Quando era adolescente Byron saiu de casa para fugir dos maus tratos da mãe e viveu em Londres até alcançar a maioridade. Influenciado por tudo o que já tinha lido, ele resolveu começar a escrever poemas. Para organizá-los, pediu ajuda a uma amiga chamada Elizabeth, que os enviou para publicação. Quando os livros foram distribuídos, o autor ia constantemente às livrarias para acompanhar a vendagem, e percebeu que estava sendo boa. Mas logo as pessoas começaram a criticar os poemas por mostrarem o descontentamento de Byron com a cidade de Southwell, enquanto os críticos literários se dividiam entre os que achavam o trabalho bom e os que o consideravam ruim.

Seu próximo trabalho, "Childe Harold", narrava as aventuras que vivera ao viajar pela Europa e foi muito bem recebido pela sociedade, e fez de Byron um nome conhecido por todos e sua obra amplamente comentada em todos os lugares. Essa exposição fez do autor o homem mais desejado pelas mulheres, inclusive as casadas, que fantasiavam com seus versos e viviam sonhando com suas habilidades românticas. Ele passou então a viver muitos romances que acabavam sem maiores explicações, quando ele começava a desprezar aquela mulher e partia para a próxima.

A irmã do poeta estava passando por dificuldades no casamento e foi morar com ele durante um tempo, mas também fazia parte das mulheres que se rederam aos encantos dos poemas de Byron, que num momento de descontrole total, não resistiu à beleza da irmã e cometeu o incesto. A consequência foi uma gravidez indesejada. Esse fantasma o assombraria pelo resto de sua vida.

Byron ainda começou a escrever "Don Juan", mas morreu antes de terminá-lo. Ainda assim, esse foi outro romance de enorme sucesso e que só aumentou a popularidade do autor entre as mulheres. Talvez por ser uma obra que refletia a vida pessoal de Byron, e suas aventuras amorosas, foi um de seus trabalhos mais conhecidos.


Lord Byron morreu em abril de 1824, vítima de febres contraídas enquanto lutava na Guerra de Independência da Grécia.


O livro "Don Juan" foi diversas vezes adaptado para teatro e cinema, e o filme mais conhecido foi filmado em 1995 e dirigido por Jeremy Leven, com Francis Ford Coppola na produção e Johnny Depp no papel principal:


Na trilha sonora desse filme está uma das músicas mais famosas do cantor Bryan Adams, "Have you ever really loved a woman?", e, quem já viu o filme, sabe que a letra tem tudo a ver com o personagem principal:

"... when you love a woman
you tell her that she's really wanted
when you love a woman
tou tell her that she's the one
'cause she needs somebody
to tell her that you'll always be together
so tell me have you ever really
really, really ever loved a woman?..."

"... quando você ama uma mulher
você diz a ela o quanto ela é desejada
quando você ama uma mulher
você diz a ela que ela é a única
porque ela precisa de alguém
para dizer a ela que você irá estar sempre junto
então me diga, você realmente
realmente, realmente já amou uma mulher?..."



O grande mestre da literatura mundial, sem dúvida, é William Shakespeare. Apesar das dúvidas que existem até hoje acerca de sua identidade, não há como negar que seu trabalho é importante e está espalhado por diversos gêneros literários. 


Desde o século XVIII suspeita-se que a obra do autor não foi escrita por ele, e sim por outra pessoa ou grupo de pessoas. As  evidências que sustentam essa teoria são de que os trabalhos possuem um conhecimento educacional elevado, e um vocabulário muito vasto, com diferentes versões para a mesma palavra. Estudiosos acreditam que uma pessoa comum do século XVI, sem muito estudo, não poderia ser tão fluente na língua Inglesa, nem tão conhecedor de política, direito e outras línguas, como o Latim, por exemplo, que foi muito usado em Hamlet (aquele do "Ser ou não ser, eis a questão").


Mas apesar dessa teoria, sua obra permanece viva até hoje, com 38 peças, 154 sonetos e 2 poemas narrativos (além de outros poemas diversos). Suas peças foram traduzidas para diversos idiomas e são as mais encenadas no mundo todo. Muitos de seus textos são adaptados para o teatro e o cinema, entre eles estão "Hamlet" (obra que já foi resenhada aqui)  e "Romeu e Julieta": o filme mais recente, dirigido por Baz Luhrmann em 1996, teve Leonardo DiCaprio como Romeu, numa versão mais moderna e foi indicado para o Oscar de melhor direção de arte em 1997. Sua trilha sonora era bem pop e trazia nomes como Garbage, Des'ree e Radiohead, além de Cardigans com a fofa "Lovefool":


Para assistir a trechos desse filme e das minhas versões preferidas de "Hamlet", clique aqui, aqui e aqui.


A obra desse autor é muito extensa e seria impossível comentar sobre seus melhores textos aqui em pouco tempo, então, para quem quiser conhecer mais a respeito de Shakespeare e suas peças, há muito material bom na internet, começando pelo Wikipedia.


E para quem gosta de bons filmes e quer conhecer uma versão mais lúdica do autor inglês, recomendo o filme "Shakespeare apaixonado" (1998), com Gwyneth Paltrow e Joseph Fiennes como o jovem Will.


O longa conta a história do jovem Shakespeare que se vê atormentado pela falta de inspiração para criar uma nova peça que lhe foi encomendada, até que conhece a jovem Viola, para quem passa a escrever seus melhores e mais apaixonados versos, que depois viriam a se tornar a peça "Romeu e Julieta":



segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Pulando o Carnaval - dia 2

Hoje continuamos com nosso Carnaval literário e vamos falar sobre as irmãs Brontë. Apesar de serem 3 irmãs escritoras (Emily, Charlotte e Anne), vamos comentar sobre as 2 mais famosas e suas grandes obras:


As Brontë perderam a mãe cedo e foram mandadas para um internato, onde sofriam mal tratos e viviam em condições precárias, o que pode ter causado a morte por tuberculose de Maria e Elizabeth. O pai resolveu tirar as crianças da escola para serem educadas em casa, o que se resumia a usar a biblioteca, onde aprenderam a ler, escrever e fazer contas, junto com seu irmão, Patrick. Nessa época, seu entretenimento era escrever histórias: Charlotte criou o mundo imaginário de Andria, enquanto Emily e Anne criaram o seu próprio universo, e o irmão delas ilustrava alguns de seus textos (inclusive a imagem acima, onde ele retratou as três irmãs e pintou apenas a sua sombra entre elas).

Em 1845, Charlotte propôs às irmãs que publicassem uma coletânea com seus poemas. Para isso, elas decidiram usar pseudônimos masculinos, alegando, posteriormente, que as mulheres eram vistas com certo preconceito naquela época: Poems by Currer, Ellis and Acton Bell foi publicado em 1846, e, apesar de receber algumas críticas favoráveis no início, o livro foi um fracasso comercial. O interessante é que elas usaram a mesma inicial de seus nomes verdadeiros para a autoria desse livro. Quanto ao preconceito, elas tinham razão, pois os poemas foram considerados vulgares pelos críticos que ainda colocavam em dúvida se Currer Bell seria homem ou mulher.


Charlotte Brontë era a mais velha das três irmãs e seu primeiro romance, "Jane Eyre", foi publicado ainda sob o pseudônimo de Currer Bell. Com o sucesso de seu livro, ela foi convidada por seu editor a visitar Londres, onde ela acabaria por revelar sua verdadeira identidade ao começar a frequentar um novo círculo social, cheio de outros escritores. "Jane Eyre" tinha inspirado um movimento feminista no meio literário, onde a personagem principal era vista como uma mulher forte, totalmente contrária à personalidade da autora.


Em março de 1855, Charlotte morreu, juntamente com o filho que esperava, de causas que até hoje não são confirmadas: o atestado de óbito diz que foi de tuberculose, mas há quem diga que foi de desidratação, por decorrência de vários enjoos e vômitos que ela vinha tendo há algum tempo.

Sua obra mais famosa foi adaptada para o cinema: o filme mais recente é de 2011, e foi dirigido por Cary Fukunaga. Tem como intérpretes principais Mia Wasikowska (Jane Eyre), Michael Fassbender (Edward Rochester) e Jamie Bell (St. John Rivers), e você pode curtir o trailer aqui embaixo:




Emily Brontë é a irmã da qual se tem menos informações, pois ela era muito introspectiva e reclusa. Ela também participava das criações dos mundos imaginários com seus irmãos e da criação de jornais e artigos que eles escreviam. Emily ouvia muitas histórias contadas pela empregada da família e foi muito influenciada por elas, tanto que a personagem Nely Dean, de "O morro dos ventos uivantes" foi criada em homenagem a ela.

Na mesma época em que sua irmã Charlotte foi estudar em Roe Head, Patrick começou a beber, e Emily passou a viver isolada em seu próprio mundo. Mais tarde, Charlotte foi convidada a lecionar nesse colégio, e resolveu levar a irmã consigo, mas, devido a sua timidez, ela não se habituou e voltou para casa, onde vivia extremamente sozinha e totalmente reclusa.

Quando terminava seus afazeres domésticos, ela escrevia alguns poemas, que escondia de todos, menos de Charlotte, que acabou por enviar alguns ao poeta William Wordsworth, que disse que ela não escrevia bem e deveria desistir. Emily ainda tentou ser professora no mesmo colégio que a irmã, mas a timidez não permitiu que ela levasse a frente essa tarefa.


Emily publicou seu único livro, "O morro dos ventos uivantes", em 1847, ainda sob o pseudônimo de Ellis Bell, e sua história não foi compreendida na época: as pessoas acharam que o clima era muito tenso. Mais tarde o livro entrou para a lista de clássicos definitivos da literatura, e foi várias vezes adaptado para o cinema. A primeira delas data de 1920, e foi dirigida por A. V. Bramble, enquanto a mais conhecida do grande público é do ano de 1992, e tem como intérpretes de Heathcliff o ator Ralph Fiennes e Juliette Binoche como Catherine.


Existem ainda algumas versões do livro feitas em musicais, e foi num deles que o diretor Bernard J. Taylor usou a música "Wuthering Heights", interpretada pela cantora britânica Kate Bush, de 1978.


Essa mesma música foi regravada pela banda Angra, em 1993, e você pode ouvi-la clicando aqui.  

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Pulando o Carnaval - dia 1

Olá leitores! Nessa semana festiva para a maioria dos brasileiros, vamos falar sobre uma coisa totalmente diferente aqui: literatura britânica. Até o próximo sábado, nossos posts serão sobre autores ingleses e suas obras mais importantes, sem deixar de indicar filmes e músicas que possam embalar nosso carnaval literário.  Começaremos a semana especial "Pulando o Carnaval" com Mary Shelley e Virgínia Woolf:


Mary Shelley viveu de 1797 a 1851, e sua criação mais importante e mundialmente conhecida é "Frankstein". Ela foi casada com o poeta Percy Bysshe Sheley e foi a grande responsável pela divulgação de seu trabalho.


A autora escrevia contos, dramaturgia, biografias e literatura de viagens. Sua grande criação, porém, surgiu durante uma conversa entre amigos: em 1816, ela e o marido passaram o verão na Suíça com Lord Byron, John William polidori e Claire Clairmont, e, como a chuva não parava de cair, eles eram obrigados a passar a maior parte do tempo dentro de casa. Seus assuntos preferidos eram as experiências do filósofo e poeta Erasmus Darwin que dizia ter conseguido animar matéria morta, viabilizando o retorno de um cadáver à vida, ou de pelo menos partes do corpo. Além disso, eles também gostavam de se reunir em torno de uma fogueira e ler histórias alemãs de fantasmas. Inspirado por essas histórias, Lord Byron sugeriu que cada um escrevesse o seu próprio conto sobrenatural, e Mary teve a sua primeira ideia de "Frankstein".


No início ela acreditava que essa inspiração lhe renderia apenas um conto, mas seu marido a motivou a continuar escrevendo e, em 1818 ela publicaria o seu primeiro romance: "Frankstein: or, The Modern Prometheus", fato que mais tarde ela classificaria como "sua saída da infância para a vida". 

Mary perdeu seus primeiros três filhos e só encontrava alento para sua dor na escrita. Foi só com o nascimento do quarto filho que ela reencontrou sua alegria para viver. Em 1822 ela sofreu com a morte de seu marido num acidente de barco. 


Shelley publicou mais alguns romances como "Mathilda", "The last man" e "Valperga", porém, nenhum deles se tornou tão importante quanto "Frankstein". O romance de terror gótico criado por Mary livro ainda é lido e reverenciado até hoje como uma obra-prima da literatura, sendo considerado uma grande influência para a literatura e a cultura ocidental. A história foi adaptada para o teatro e o cinema, além do rádio e até para os quadrinhos. O filme mais conhecido talvez seja o último, que foi produzido por Kenneth Branagh em 1994, com o próprio no papel de Victor Frankstein, Robert de Niro como a criatura e Helena Boham Carter como Elizabeth. 


A segunda escritora de hoje é Virgínia Woolf, autora de "Orlando" e "As Ondas". Ela nasceu em 1882 e morreu em 1941, suicidando-se ao entrar num rio com os bolsos cheios de pedras, logo após sofrer um colapso nervoso.


Por ter tido uma educação muito boa, ela esteve sempre às voltas com o ambiente literário, e foi membro de um grupo de artistas e intelectuais britânicos chamado Bloomsbury que existiu durante o período entreguerras. 

Com o marido Leonard Woolf ela fundou a editora Hogarth Press, que foi responsável pelo lançamento de vários autores importantes, entre eles T. S. Eliot.



A obra de Virgínia é classificada como modernista, e ela é considerada a criadora do 'fluxo de consciência', técnica onde o ponto de vista do personagem é mostrado através de seus processos mentais, misturando consciente e inconsciente, realidade e desejo. A profundidade do exame desses pensamentos do personagem é que torna o fluxo de consciência diferente de um simples monólogo interior. Em seu livro "Mrs Dalloway" ela fez grande uso desse recurso ao narrar um dia na vida da personagem, enquanto ela tenta organizar uma festa, e a história se desenvolve dentro da mente das personagens, indo para frente e para trás a fim de construir uma imagem da vida da protagonista.


Woolf sofria de muitas crises depressivas que a levaram a cometer suicídio, deixando um bilhete de despedida para o marido, a irmã e todas as pessoas que amava.

Seu último trabalho publicado foi  "Entre os atos", já depois da sua morte.

O livro "Mrs Dalloway" é citado no filme "As horas", que é uma adaptação da obra de Michael Cunningham, e tem como intérprete de Virgínia Woolf a atriz Nicole Kidman, que ganhou por ele o Oscar de melhor atriz em 2003.  O interessante é que, antes de definir o título do livro como "Mrs dalloway", a autora costumava chamá-lo de "The hours"


O filme mostra três mulheres, de épocas diferentes, que são ligadas pelo livro: a própria Woolf, durante uma de suas crises depressivas e começando a escrever "Mrs. Dalloway"; Laura (Julianne Moore) vive uma dona de casa que precisa preparar a festa de aniversário do marido mas não consegue parar de ler o livro, e que anda atormentada por ideias suicidas; e Clarissa Vaugn, interpretada por Meryl Streep, que é uma editora de livros nova-iorquina e está organizando uma festa para seu amigo (e ex-amante) Richard (Ed Harris), que está morrendo de AIDS. Ele a chama de Mrs. Dalloway, e ela faz jus ao apelido ao encarnar a protagonista do livro e declarar que ela mesma vai comprar as flores.


sábado, 9 de fevereiro de 2013

É carnaval? Então livros...

Descobri hoje dois livros bacanas que falam sobre o Carnaval e sua história, e achei legal compartilhar com vocês:



De Hiram Araújo,o livro "Carnaval - seis milênios de história" trás uma grande quantidade de informações que são indispensáveis para quem quiser conhecer a fundo a festa mais popular do Brasil. Contém muitos dados sobre as escolas de samba, principalmente as cariocas. O autor está desde sempre envolvido com o Carnaval, por isso, escreve com propriedade sobre o assunto: já foi diretor da Portela, em 1984 foi coordenador de jurados da Liga das Escolas de Samba e criou o método de avaliação que é usado até hoje, e apresentou vários estudos sobre a festa em simpósios e jornais, e, no ano passado, foi tema do enredo da escola de samba Ricardo de Albuquerque, do grupo 2 do Carnaval carioca.


E "O livro de ouro do Carnaval brasileiro", escrito por Felipe Ferreira, fala sobre a festa com um enfoque diferente do habitual, fazendo um paralelo entre as mudanças sofridas pelo Carnaval com os diferentes momentos da história cultural brasileira, e, ao final, além de propor uma cronologia do Carnaval, o  autor ainda indica outras obras que devem ser lidas por quem quer conhecer a fundo essa grande festa que mobiliza a maioria dos brasileiros todos os anos. 

FERREIRA, Felipe. 
O livro de ouro do carnaval brasileiro
Rio de Janeiro: Ediouro, 2005.

ARAÚJO, Hiram. 
Carnaval: seis milênios de história
Rio de Janeiro: Gryphus, 2003.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Sexta de música #13

Aqui não tem carnaval!!!   ):


Mas ainda tem música, e como ninguém no país fala de outra coisa a não ser a festa  popular que está nos proporcionando o maior feriadão desse ano, vamos falar sobre músicas de carnaval, só que não...

Alguns cantores da MPB gostam de usar esse tema em suas canções, como por exemplo, Chico Buarque em "Quando o carnaval chegar" (1972): 

"Quem me vê sempre parado,
distante garante que eu não sei sambar...
tô me guardando pra quando o carnaval chegar.

Eu tô só vendo, sabendo,
sentindo, escutando e não posso falar...
tô me guardando pra quando o carnaval chegar."


Caetano Veloso lançou em 77 um álbum chamado "Muitos carnavais", que tinha a faixa "Atrás do trio elétrico":

"Atrás do trio elétrico
só não vai quem já morreu
quem já botou pra rachar
aprendeu, que é do outro lado
do lado de lá do lado
que é lá do lado de lá..."

Mais tarde, em 1994, a escola de samba carioca Estação Primeira de Mangueira usou um trecho adaptado dessa música em seu samba-enredo, que ficou assim:

"Me leva que eu vou
sonho meu
atrás da verde-e-rosa
só não vai quem já morreu..."



Além desses ícones da música popular brasileira, mais recentemente, quando três grandes cantores e compositores, Carlinhos Brown, Arnaldo Antunes e Marisa Monte, se juntaram para brincar de fazer música e criaram os "Tribalistas", nos presentearam com um CD maravilhoso recheado de grandes canções. Uma delas é homenagem ao carnaval e às mais tradicionais escolas de samba, e se chama "Carnavália":

"Vem pra minha ala
que hoje a nossa escola vai desfilar
vem fazer história
que hoje é dia de glória nesse lugar
vem comemorar
escandalizar ninguém
vem me namorar,
vou te namorar também
vamos pra avenida
desfilar a vida, carnavalizar
Na Portela tem Mocidade
Imperatriz
no Império tem
uma Vila tão feliz

Beija-Flor vem ver
a porta-bandeira na Mangueira tem morenas da Tradição
Sinto a batucada se aproximar
estou ensaiado para te tocar
repique tocou, o surdo escutou
e o meu coraçamborim
cuíca gemeu 
será que era eu
quando ela passou por mim

Lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá
Aonde?..."



Outro grupo que se inspira no carnaval é o "Los Hermanos", que em seu segundo álbum, "Bloco do eu sozinho", de 2001, lançou a música "Todo carnaval tem seu fim", uma das melhores do CD:

"Todo dia um ninguém josé acorda já deitado
todo dia ainda de pé o zé dorme acordado
todo dia o dia não quer raiar o sol do dia
toda trilha é andada com a fé de quem crê no ditado
de que o dia insiste em nascer
pra ver deitar o novo

Toda rosa é rosa porque assim ela é chamada
toda Bossa é nova e você não liga se é usada
todo o carnaval tem seu fim
todo o carnaval tem seu fim
e é o fim, e é o fim

Deixa eu brincar de ser feliz
deixa eu pintar o meu nariz

Toda banda tem um tarol, quem sabe eu não toco
todo samba tem um refrão pra levantar o bloco
toda escolha é feita por quem acorda já deitado
toda folha elege um alguém que mora logo ao lado
e pinta o estandarte de azul
e põe suas estrelas no azul
pra que mudar?

Deixa eu brincar de ser feliz
deixa eu pintar o meu nariz..."

O vídeo dessa música também é uma obra de arte, confiram:


E vocês, gostam de músicas carnavalescas, ou preferem algo mais tranquilo, como essas deste post? Deixem suas opiniões e comentários.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Perfeitos - resenha



"Tally finalmente é perfeita. Agora seu rosto está lindo, as roupas são maravilhosas e ela é muito popular. Mas por trás de tanta diversão - festas que nunca terminam, luxo e tecnologia, e muita liberdade - há uma incômoda sensação de que algo importante está errado. Então Tally recebe uma mensagem, vinda de seu passado, que a faz se lembrar de qual é o problema na sua vida perfeita. Agora ela precisará esquecer o que sabe ou lutar para sobreviver - as autoridades não pretendem deixar que alguém espalhe esse tipo de informação."

Então Tally se entregou para os Especiais a fim de se tornar perfeita e ajudar a mãe de David a encontrar a cura para as lesões sofridas no cérebro de quem passa pela cirurgia. O problema é que, depois de realizada a operação, o novo perfeito não se lembra de muita coisa relevante de sua vida de feio. Por isso, antes de voltar à Nova Perfeição, Tally deixou com os enfumaçados uma carta para ela mesma, explicando toda a situação para convencer a si mesma a cidade e voltar para a nova Fumaça em busca da cura para as lesões em seu cérebro.

Nesse novo mundo de festas arrasadoras e muita tecnologia a seu dispor, Tally não pensa mais em seu passado, tão pouco lembra de David, o amor deixado para trás. Enquanto frequenta as noitadas com seus novos amigos, os Crims, ela acaba conhecendo Zane, o líder do grupo, e eles rapidamente se identificam e começam a namorar.

Numa noite, Tally recebe a sorrateira visita de Croy, da Fumaça, que aparece para lhe lembrar da sua missão: fugir e voltar para a natureza para ser voluntária no processo de cura daquele cérebro perfeito. Aos poucos ela vai relembrando dos momentos que vivera com os enfumaçados e, junto com Zane, que também consegue ter alguma consciência de que a vida de um perfeito não é tão boa quanto eles imaginavam, passa a tentar escapar daquela cidade, que é tão sem sentido quanto a vida dos novos Perfeitos.

Claro que, em se tratando da nossa protagonista, nem tudo são flores, e, no meio do seu plano de fuga, algumas coisas começam a dar errado; ela até reencontra a temível Dra. Cable, que quer convencê-la a se tornar uma Especial, dizendo que Tally o dom para criar problemas e se livrar deles com criatividade e coragem.

Shay, a amiga de Tally, também mostra um outro lado seu nesse livro: ela gosta de vida de Perfeita, mas ainda carrega a mágoa por ter perdido David para a amiga na Fumaça, e quer participar do processo de cura com Tally. Pensado estar sendo excluída pela amiga, Shay se revolta e forma um novo grupo, chamado de "Cortadores".

Finalmente, quando Tally e Zane conseguem alcançar a nova Fumaça, as coisas não saem exatamente como eles tinham planejado, e ela acaba novamente atraindo os Especiais e estragando mais uma vez a boa convivência com os novos enfumaçados, que têm que fugir rapidamente.

Mais uma vez a mocinha se vê dividida entre a possibilidade de uma nova vida ao lado de David, e uma vida borbulhante com seus amigos Perfeitos. E o seu futuro acaba, novamente, nas mãos da Dra. Cable.

Scot Westerfeld continua aqui com sua crítica à sociedade atual, usando como metáfora o fim da humanidade como conhecemos, e a criação de uma nova organização onde as pessoas são totalmente manipuladas e controladas pelo governo. Ainda podemos perceber a exaltação da beleza, uma obrigação de ser lindo para poder aproveitar os melhores momentos da vida. Mais uma vez eu comparo essa utopia com o nosso mundo atual: já existe essa ditadura da beleza, e todos nós vivemos sob pressão de ser sempre perfeito, estar sempre magro, sempre impecável, sempre lindo.

O autor deixa evidente que os Perfeitos nada mais são que uma versão exagerada da maioria dos jovens de hoje: lá eles não têm mais nenhuma obrigação além de se divertir, beber e participar de festas, enquanto aqui, eles realmente gostariam que tudo isso fosse legitimado e que eles pudessem viver exatamente assim, sem pensar em nada, só aproveitando essa fase de suas vidas livremente.

Westerfeld, mais uma vez, deixa no final do livro o gancho para o próximo, assim como já tinha feito em "Feios", e ainda aumenta o sofrimento de Tally com um clássico triângulo amoroso, para apimentar a trama.

O enredo é envolvente, e a narrativa fluída, apesar de ter achado que a certa altura a estória ficou um pouco lenta, mas isso logo passou e a situação foi totalmente justificada depois: a demora de Tally em sair da aldeia e voltar a procurar a Nova Fumaça daria base para os próximos e decisivos acontecimentos. O uso da expressão "borbulhante" é repetitivo, e me fez lembrar das milhares de vezes em que Ana falou de sua deusa interior em "Cinquenta tons de cinza".

No geral, o livro é bom: o estilo de Scott é interessante e a estória é bem diferente da maioria dos livros que estão em evidência atualmente. Por isso, e por nos fazer imaginar um mundo futurístico onde tudo é pensado para o bem da humanidade, apesar de ser totalmente vigiado e cerceado, a leitura vale a pena. O enredo nos faz refletir sobre como estamos tratando o nosso planeta e a nós mesmo, e se vale a pena abdicar de tudo o que gostamos apenas em nome da beleza.

Perfeitos
Scott Westerfeld
Editora Galera
384 páginas