quarta-feira, 19 de junho de 2013

Ele é o cara #21

Chico, seu lindo, hoje é o seu dia aqui no blog!


ADORO o Chico Buarque e vocês já devem ter percebido que ele aparece sempre por aqui: já falei de sua música aqui e de um dos seus livros aqui. E como hoje ele está completando 69 anos, vamos um pouquinho sobre a sua longa e brilhante carreira.

Chico apareceu para o mundo musical ao participar, e ganhar, o Festival da Música Popular Brasileira em 1966, com a canção "A banda": "estava a toa na vida o meu amor me chamou, pra ver a banda passar, cantando coisas de amor...". Na verdade ele empatou com  "Disparada", interpretada por Jair Rodrigues, mas, dizem, que se recusou a receber o primeiro prêmio em detrimento da belíssima canção apresentada por Jair. Essa estória só veio à tona quando o jornalista Zuza Homem de Mello escreveu o livro "A era dos festivais: uma parábola", em 2003, revelando as notas dadas a eles pelos jurados.


No ano seguinte ele também teve destaque no festival com a canção "Roda viva", uma de suas melhores construções, na minha opinião, quando se apresentou junto com o grupo MPB-4. 

"Tem dias que a gente se sente
como quem partiu ou morreu
a gente estancou de repente
ou foi o mundo então que cresceu...
A gente quer ter voz ativa
no nosso destino mandar
mas eis que chega a roda viva
e carrega o destino pra lá...
roda mundo, roda gigante
roda moinho, roda pião
o tempo rodou num instante
nas voltas do meu coração..."


Outra participação importante do cantor em festivais foi em 1968, quando compôs com Tom Jobim a canção "Sabiá" e venceu o Festival Internacional da Canção. Mas o público não aceitou esse resultado e adotou como vencedora a música "Para não dizer que não falei das flores", de Geraldo Vandré.

Mais tarde, Chico teve que sair do país para fugir da ditadura, e foi viver na Itália, fez alguns shows com Toquinho. Foi nessa época que ele compôs as músicas "Apesar de você" e "Cálice", ambas censuradas pelo regime. Então ele passou a assinar suas músicas com o pseudônimo de Julinho da Adelaide a fim de burlar a censura, que não deixava passar nenhuma canção que fosse assinada por Chico. Julinho chegou até a ter carteira de identidade e dar uma entrevista a um jornal da época.

Uma de suas canções que criticam o regime militar de maneira sútil e muito inteligente é "Meu caro amigo", que ele escreveu em forma de carta para o amigo Augusto Boal, que também estava exilado. Na carta ele conta as novidades (ou não) que acontecem no país, usando ironias como "... meu caro amigo eu quis até telefonar, mas a tarifa não tem graça...", se referindo ao Brasil apenas como "terra", onde se joga futebol, dança-se o samba e o chorinho, mas a situação está "preta".


Ao longo de todos esses anos de carreira ele já lançou 37 álbuns de estúdio e foi parceiro de grandes nomes da música como Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Toquinho Milton Nascimento e Caetano Veloso.

Alguns artistas também receberam letras de Chico para interpretar e eternizaram essas canções, como "Atrás da porta", na voz de Elis Regina e "Cio da terra" com a dupla Pena Branca & Xavantinho. Além deles, Ney Matogrosso gravou um CD inteiro apenas com canções dele, "Um brasileiro" (1996).

O músico também produziu trilhas sonoras para filmes, entre eles "Vai trabalhar, vagabundo" e "Os saltimbancos Trapalhões" e peças de teatro, como "Ópera do malandro".

Mas seu trabalho vai além da música: Chico também é escritor e tem publicados alguns livros, como "Budapeste", "Fazenda modelo", "Estorvo" e o infantil "Chapeuzinho amarelo" e já ganhou 3 vezes o Prêmio Jabuti.


Chico escrevia desde cedo seus contos e crônicas e passou a publicá-los no jornal Verbômidas, do Colégio Santa Cruz, em São Paulo.

Alguns de seus livros já foram adaptados para o cinema: "Benjamin" em 2003 e "Budapeste" em 2009. Nesse último o próprio autor faz uma participação especial.


As canções de Chico são famosas por refletirem o "eu" feminino com perfeição, e, por isso, ele é muito respeitado e admirado pelas mulheres (não só pelos seus belos olhos azuis, rs).

Por toda a sua história de luta contra a ditadura, e apesar dela, por suas canções incrivelmente bem escritas, sua leitura sensível da alma feminina, seus livros, peças e filmes, Chico Buarque figura entre as grandes personalidades do Brasil, e recebeu, merecidamente, o apelido de unanimidade nacional, criado por Millôr Fernandes. Por tudo isso ele também merece ser "o cara" de hoje.


terça-feira, 18 de junho de 2013

Tatiana Belinky

No último final de semana demos adeus a uma das maiores escritoras contemporâneas de livros infantis, Tatiana Belinky. 


Ela faleceu aos 94 anos e deixou para nós toda uma coleção de estórias, contos e poemas. Nascida na Rússia, veio para o Brasil com 10 anos e escreveu mais de 250 livros infanto-juvenis, além de ser a responsável pela primeira adaptação do "Sitio do pica-pau amarelo", de Monteiro Lobato, para a televisão. Portanto, se não fosse ela, talvez as criações do autor não fossem tão importantes hoje.


Junto com o marido Júlio, com quem se casou na década de 40, começou a escrever estórias, que se tornaram roteiros para teatro que ele dirigia. Foi essa parceria que fez funcionar a versão do Sítio para a TV.

Tatiana disse certa vez que, para ela, a personagem mais importante da literatura brasileira é a Emília: a escritora sempre quis ser uma bruxa, desde pequena, mas, ao conhecer a boneca criada por Lobato, ela se apaixonou e deixou a bruxaria de lado, passando a desejar ser Emília.


Ela também popularizou no Brasil os poemas no formato limerique, que é um estilo bem peculiar de escrever poemas: com apenas cinco linhas e ritmo ascendente, formado por duas sílabas átonas e uma sílaba tônica. Acredita-se que esse tipo de construção tenha se originado na cidade de Limerick, na Irlanda, e geralmente tem um tom humorístico ou obsceno.

Tatiana escreveu os livros "Melodiques", "O livro dos disparates com os limeriques de Tatiana", "Limeriques das coisas boas" e "Limeriques de um bípede apaixonado", todos com esse formato de verso.


É necessário ter um dom para escrever para as crianças, e cativá-las com nossas estórias, e Tatiana possuia esse conhecimento, por isso, era respeitada e amada pelos pequenos, que adoram seus livros. Para ela, escrever era tão fácil quanto respirar, e isso fica claro em seus personagens, suas estórias, que são simples e conseguem divertir, entreter e ensinar ao mesmo tempo.

Vejam uma de suas entrevistas ao apresentardo Sérgio Groisman no programa "Ação" da Rede Globo, onde ela fala dessa facilidade em lidar com as palavras clicando aqui. No vídeo abaixo, uma outra pequena entrevista com a autora para a revista Crescer, contando um pouquinho da sua relação com Monteiro Lobato e de seu gosto pela Emília:


Tatiana também era tradutora, já que tinha o russo como primeiro idioma e, ao chegar no Brasil, também já falava alemão e letão (língua falada na Letônia). 

Ela recebeu o prêmio Jabuti, o mais importante da literatura nacional,  em duas oportunidades: 1989 como personagem literária do ano e em 1994, na categoria ilustração, com o livro "A saga de Siegfried".


Em 2010, Tatiana entrou para a Academia Paulista de Letras, mas deveria ter entrado também na Brasileira.

Como escritora, sei que na minha cabeça passam muitas estórias e palavras o tempo todo, e sempre me pergunto como é com os outros colegas. Bem, Na entrevista a Groisman ela me respondeu isso, dizendo que em sua cabeça existem inúmeras estórias, e que ela as deixa sair, simplesmente, dando vida à tudo aquilo que imagina. Sábia Tatiana.


segunda-feira, 17 de junho de 2013

Um pouquinho de...


O quote de hoje vem do livro "O retrato de Dorian Gray", de Oscar Wilde, que já resenhei aqui.  

"Pois observar o quadro proporcionaria prazer real. Ele poderia acompanhar a própria mente adentro de seus locais secretos. Esse retrato seria, para ele, o mais mágico dos espelhos. Já que lhe revelara o próprio corpo, revelaria também a própria alma. E no momento em que o inverno viesse descer sobre o quadro, ele ainda estaria no ponto em que a primavera estremece com o raiar do verão. Quando o sangue se esvaísse daquele rosto, deixando uma máscara pálida de giz e olhos plúmbeos, ele ainda contaria com o esplendor da adolescência. Nenhuma flor daquela graça, por única que fosse, jamais enfraqueceria. Assim como os deuses gregos, ele seria forte, lépido, alegre. Não importa o que acontecesse com a imagem colorida impressa na tela, ela estaria a salvo. Eis tudo."

(página 141, capítulo VIII)

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Sexta de música #25

Na semana passada não pude postar essa coluna, sorry. Mas hoje ela volta, analisando uma das letras mais incríveis de Arnaldo Antunes, "O silêncio"


Essa música tem uma melodia bem característica, assim como a maioria desse CD, e a letra dela é tanto complexa quanto simples. Todos os seus versos vão nos levando de volta no tempo, até a época da formação do universo, e isso vai acontecendo conforme o cantor analisa as coisas que existiam (ou não) antes da popularização dos computadores. 

Essa é uma das artes visuais de Arnaldo, que podem ser vistas em seu site clicando aqui.

Para quem, como eu, gosta e acompanha o trabalho do Arnaldo, vai reconhecer logo de cara seu estilo de composição, sempre trabalhando muito bem com as palavras e criando as letras mais incríveis e próximas da realidade do ouvinte.


Essa é a capa do álbum que tem canções ótimas, já comentadas nesse post aqui, totalmente dedicado ao cantor.

Então vamos à essa letra:

"Antes de existir computador existia tevê
antes de existir tevê existia luz elétrica
antes de exisitr luz elétrica existia bicicleta
antes de existir bicicleta existia enciclopédia
antes de existir enciclopédia existia alfabeto
antes de existir alfabeto existia a voz
antes de existir a voz existia o silêncio
o silêncio
foi a primeira coisa que existiu
um silêncio que ninguém ouviu
astro pelo céu em movimento
e o som do gelo derretendo
o barulho do cabelo em crescimento
e a música do vento
e a matéria em decomposição
a barriga digerindo o pão
explosão de semente sob o chão
diamante nascendo do carvão
homem pedra planta bicho flor
luz elétrica tevê computador
batedeira, liquidificador
vamos ouvir esse silêncio meu amor
amplificado no amplificador
do estetoscópio do doutor
no lado esquerdo do peito, esse tambor."


Esse vídeo é bem bacana, foram usados desenhos de crianças da 6a. série para compor as imagens. E queria chamar a atenção de vocês para o backing vocal da música, feito por crianças e que sempre precisam repetir as palavras mais difíceis da letra. No vídeo a música foi cortada em algumas partes, e tentei carregar outro com a música inteira mas não consegui, então cliquem aqui e sejam redirecionados para ele.

Como eu sempre fui maluca por construção de frases e palavras diferentes, pirei logo na primeira vez que ouvi essa música. O Arnaldo é formado em Letras e Linguística, então ele entende muito bem da língua e usa todo esse conhecimento, com muita facilidade aliás, quando compõe suas canções. Todas elas são bem estruturadas e usam uma mistura de palavras comuns com outras não tão usadas no dia a dia para construir poesias musicais.

Em "O silêncio" há uma simplicidade incrível, que nos leva a uma interpretação mais complexa da importância que damos às menores coisas presentes no nosso dia a dia, mas que só nos damos conta do quão essenciais elas são quando elas nos faltam. Um exemplo claro disso é a luz elétrica: é tão fácil para nós bater a mão no interruptor e acender uma lâmpada que isso é quase um gesto automático. E quando falta a energia elétrica ficamos sem saber como agir.

Por outro lado, Arnaldo alfineta aquela nossa mania de substituir algo útil pela última novidade tecnológica lançada no mercado. Vejam no verso "antes de existir computador existia tevê": a televisão foi uma grande revolução à época de seu lançamento, dominou as residências e o gosto das pessoas durante anos, até que o computador se tornou acessível a todos. A sugestão da música é de que, por mais importante que seja, tudo se torna efêmero quando encontramos algo novo.


Se invertermos a ordem da letra, vamos começar lá nos primórdios do universo, quando tudo ainda era só silêncio, depois passamos pela voz, quando os homens conversavam mas ainda não tinha criado o alfabeto, passando pela organização das palavras numa enciclopédia e entrando na grande evolução que foi o uso da luz elétrica, indo direto para a criação da televisão e culminando na tecnologia de ponta criada pelo homem que são os computadores. Interessante, não?

E no refrão, minha parte preferida é "...o barulho do cabelo em crescimento e a música do vento..."; imagine viver num silêncio tal que você consiga ouvir o ínfimo som que faz o fio de cabelo ao nascer na sua cabeça! Claro que podemos ouvir o barulho que o vento faz quando sopra, mas, romantizando um pouco a coisa e viajando na poesia, imagine o som do vento como uma canção suave, que pode não só ser ouvida, mas ser aproveitada, sentida mesmo, sem ter nenhum interferência de outros sons. O barato da música é fazer você mensurar aquilo que quase ninguém percebe, fazendo um contraponto com outros sons que estão sempre presentes e que se tornam comuns, como o da batedeira ou do liquidificador.

Essa é uma das características das músicas do Arnaldo, fazer o ouvinte viajar, refletir, imaginar. Só um grande poeta, que domine totalmente as palavras, é capaz de criar coisas assim, e deixá-las leves, populares, bem próximas das pessoas. O silêncio de Arnaldo Antunes fala.


quinta-feira, 13 de junho de 2013

Sete de paus - resenha


"Em Sete de Paus, o leitor é conduzido por um enredo à altura dos clássicos do gênero, mas com um ingrediente que faz toda a diferença: seu peculiar humor. A trama tem início quando Hans Schneider, professor da Universidade Federal de Florianópolis, de reputação inabalável, aparece morto com um tiro na testa e com o próprio pênis enfiado na boca; Na virilha, uma carta de baralho: o sete de paus. Durante a investigação, ocorre outro assassinato com as mesmas características, o que leva a polícia a trabalhar com a hipótese de se tratar de um serial killer. Qual o motivo e, principalmente, quem estaria por trás desses crimes era uma pergunta que só o agente federal Ugo Fioravanti Neto e o seu jovem parceiro Darwin Matarazzo poderiam responder. E tinha que ser rápido - antes que o assassino em série fizesse mais uma vítima."

Conheci Mario Prata, e fiquei sua fã, quando li suas crônicas no jornal "O Estado de S. Paulo". Gosto do estilo de escrita dele, sempre irreverente e refletindo fatos reais, por isso, quando vi o livro na prateleira da loja, nem pensei duas vezes para comprá-lo.

Eu não era fã do gênero policial até ler a trilogia de Tony Bellotto com o detetive Bellini, e agora me encantei ainda mais com a qualidade da estória de Mário, que é intrigante, bem costurada e cheia de pequenas referências à outras obras, feitas de forma muito inteligente, se integrando ao enredo sem que ele perca a qualidade ou saia da linha que está seguindo.

Ambientada em Florianópolis, onde o autor mora há alguns anos, a narrativa brinca um pouco com os costumes dos manezinhos da ilha, como são chamadas as pessoas nascidas lá, e também usa vários lugares conhecidos e pontos turísticos da cidade para enriquecer a trama. 

O detetive Ugo Fioravanti é um boêmio, e tem agora como assistente o jovem Darwin, afoito por aprender suas melhores táticas de investigação. Com a morte misteriosa do professor Schneider eles têm a missão de descobrir quem é seu assassino e mais, impedir que outras pessoas sejam mortas por esse possível serial killer, que deixou como pista - ou aviso - uma carta de baralho na virilha do cadáver, no lugar do pênis decepado: o sete de paus (aproveitando a metáfora para fazer pilhéria com o membro arrancado da vítima). Isso foi uma clara alusão ao número de vítimas que o matador ainda planejava fazer. 

Na busca pelos possíveis alvos do assassino, os investigadores descobrem que os alvos dele seriam membros da maçonaria e que fariam parte de uma confraria secreta. Durante toda a busca, vamos conhecendo melhor as manias de Ugo e a diferença abismal entre seu estilo de vida e de Darwin. Os diálogos entre eles são brilhantes!

Um ponto forte do livro é a descrição dos personagens: o autor dedica uma atenção especial a eles, nos inteirando de todos os detalhes de sua personalidade ou de seu físico, sempre com uma pitada de humor e sarcasmo usados de forma muito inteligente.

Mesmo nos momentos mais tensos da narrativa, as tiradas do autor são perfeitas e dão um toque refinado de comicidade à estória. Isso é uma característica de Mário, sempre utilizada em seus textos e crônicas.

O final do livro é surpreendente e, após terminada a leitura, é possível identificar claramente cada uma das referências às famosas tramas policiais usadas durante toda a estória. 

Como primeira investida de Mário Prata no gênero, ele se saiu muito bem, conseguindo criar uma narrativa interessante, fácil de ler e cheia de momentos hilários.

"Sete de paus"
Mário Prata
editora Planeta
264 páginas