"Frank é um homem sem esperança nenhuma. Um punk com um passado insano que, numa manhã de ressaca, acorda com uma boneca lhe desejando bom dia. Ele sabem bem quem é essa boneca e como ela se chama. Alice é uma ball jointed doll criada por Frank em seu projeto mais ambicioso: recuperar as memórias e os sentimentos de uma louquinha de mesmo nome. Mas ao tentar puxar a linha da lembrança do embolado novelo que é o passado, Frank acaba puxando a linha da tragédia. Acompanhado por seus antigos companheiros de hospício: a gothic lolita Tay, o estudante de direito Shin e a sociopata Emi, ele se envolve em um plano de vingança contra o hospital que os massacrou a alma e levou Alice à morte."
Uma narrativa crua, que escancara o psicológico dos personagens e leva o leitor para dentro de suas mentes. Assim é o romance de Priscilla Matsumoto, que choca e confunde, mas que surpreende no final.
Sem dar maiores explicações sobre como é possível, logo de cara conhecemos a boneca criada por Frank, que pensa, fala e age quase como uma humana. Ela foi criada à imagem e semelhança do grande amor dele, Alice, que morreu num hospício. Frank tem uma obsessão por Alice, e não se conforma com sua morte, por isso, batizou a boneca com o mesmo nome, e tenta encontrar nela um pouco de alento para sua perda.
O que só descobrimos um pouco mais tarde, é que Frank também era paciente desse hospício, e, incentivado por seus amigos, também ex-internos da instituição, vai tentar invadir o local e matar os médicos que abusaram e maltrataram deles por muito tempo. Frank é um cara pacífico, que tem lá suas neuroses, mas que só quer viver e amar.
A estória é para maiores de 18 anos, por conter muitas cenas de sexo, bebedeira e abusos de diversas formas. Frank é bem promíscuo, e, além de manter relações sexuais constantes com Shin, seu amigo descendente de orientais, também transa com mulheres e, em certo momento, até com a boneca Alice. Além disso, para curar suas mágoas e tentar esquecer a perda de Alice, ele está quase sempre bêbado.
Seus amigos são muito interessantes: psicologicamente atormentados e violentos, alimentam a loucura uns dos outros, tanto dentro quanto fora do hospício. E um plano de destruição arquitetado por um deles não poderia terminar bem.
A problemática do protagonista se desenvolve após ele retornar para o hospício, enquanto começam a por em prática sua vingança. Lá a narrativa mistura realidade com a imaginação de Frank, envolvendo muitos personagens de Alice no país das maravilhas, e a autora tece esse devaneios de forma tão peculiar, que o leitor consegue se sentir dentro da mente do personagem, sem perceber que passou do real para o imaginário. É tudo uma viagem maluca entre o que ele realmente está vendo e o que é fruto de sua imaginação perturbada.
Toda essa loucura é o diferencial da narrativa: enquanto o personagem discute consigo mesmo se realmente levou um tito que explodiu sua cabeça, o leitor sabe que isso não seria possível, já que ele ainda está consciente de seu corpo e de sua imagem no espelho. Ainda assim, o momento do tiro causa impacto no leitor, que espera que a qualquer momento Frank encontre a morte realmente.
A interação com a boneca Alice é outro ponto que merece destaque no livro. Ela é praticamente humana, apesar de manter algumas características de boneca, mas em diversos momentos ela fala com Frank, lhe joga algumas verdades na cara, o faz pensar se realmente está agindo corretamente, e põe em dúvida algumas de suas resoluções. Todo mundo sabe que ela é uma baal jointed, mas falam com ela normalmente, como se fosse humana. Alice acompanha Frank no hospício, e é ela quem o ajuda a se equilibrar entre o limite da realidade e a loucura.
Os capítulos são sempre nomeados com alguma mudança no comportamento de Alice, como por exemplo "Quando Alice aprende a ficar calada" ou "Quando Alice aprende a beijar", e é possível perceber um paralelo entre as ações do próprio Frank e as de Alice. Enquanto esperamos Alice aprender a ficar calada, observamos isso no protagonista, e de maneira sutil percebemos as atitudes dela como um espelho das de Frank.
Há diversos momentos de reflexão profunda sobre a vida, o universo e tudo mais durante a narrativa, mas de uma maneira totalmente integrada à estória, o que não cansa o leitor nem permite que ele perca o interesse. Depois de conhecer todos os problemas de Frank, como abuso sexual na infância, problemas mentais e a perda do grande amor, o leitor anseia pelo desfecho da estória, e conhecer o rumo que sua vida vai tomar depois de enfrentar seus piores fantasmas, ao lado da bonequinha.
O final é cheio de revelações, e eu particularmente me surpreendi com algumas delas. É difícil prever o que vai acontecer depois da invasão ao hospício, só sabemos que haverá muitas mortes, e que os piores medos dos personagens serão colocados à prova. Eles terão que enfrentar seus inimigos, enquanto enfrentam suas próprias neuroses. O leitor não sabe quem conseguirá escapar das garras da Rainha de Copas, e quem terá sua cabeça cortada, mas sabe que o sentimento dos personagens é verdadeiro, e que o livro todo trata de amar e ser amado, de todas as formas possíveis, sobre a verdadeira natureza do mundo em que vivemos e de como sobreviver a tudo isso.
Para o leitor que tem mais de 18 anos, ele livro é super indicado. As referências à Romeu e Julieta, Alice no país das maravilhas, ao escritor japonês Haruki Murakami e a cultura contemporânea como um todo eleva o interesse pela leitura, e transporta o leitor para um universo totalmente surreal, mas não permite que ele se distancie totalmente da realidade.
Ball jointed Alice
Priscilla Matsumoto
editora Draco
212 páginas
nota no Skoob: 4.0
nota do blog: 4.2
livro cedido pela editora em parceria
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Joana Masen, quando não está resenhando, pintando e bordando por aqui, está escrevendo poesia no blog
Milonga.
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