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quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Bom de briga [Resenha]


"Na continuação de 'O azarão', Markus Zusak apresenta o emocionante 'Bom de briga': se no primeiro título o autor traz um romance de formação de um jovem incorrigível, infeliz consigo mesmo e com sua vida, agora ele exibe dois irmãos em busca de um propósito na vida. O livro retrata a evolução dos irmãos Cameron e Ruben Wolfe como seres humanos. No primeiro livro, a dupla estava sempre atrás de algo errado para fazer. Dessa vez eles entram no mundo das lutas amadoras de boxe, buscando independência para suas vidas. Enquanto Ruben mostra um talento nato para a coisa, Cam tenta apenas sobreviver; desde cedo, apanha e se levanta, mostrando que o que importa não é a força da pancada, mas se você tem a força necessária para se reerguer."

Esse é o segundo livro da trilogia dos Irmãos Wolfe, onde podemos perceber um crescente amadurecimento dos dois personagens principais, Cameron e Ruben. Se no primeiro volume eles eram só moleques que procuravam algo com o que passar o tempo, aqui eles já começam a ver as coisas de uma forma quase adulta: eles vão sentindo cada vez mais os problemas da família, como as dificuldades financeiras, a falta de uma convivência de qualidade e os grandes momentos de silêncio à mesa, e se distanciando cada vez mais daquilo que os divertia há algum tempo atrás.

O foco principal aqui é a transição entre infância e vida adulta, e Zusak o descreve de forma tão natural que é quase imperceptível durante a narrativa, até o momento em que, em meio a leitura, você para e pensa: é, acho que os meninos cresceram.

Além das dificuldades em se relacionar com o sexo feminino, Cameron ainda sente uma necessidade muito grande de encontrar seu lugar no mundo, de descobrir quem é e que tipo de pessoa será no futuro. Seu maior medo é se tornar um perdedor, alguém que aceita as barreiras que encontra pelo caminho sem ao menos tentar transpo-las. Ele acredita que, por ser um membro da família Wolfe, tem que ser um batalhador e nunca se deixar abater com as dificuldades, pois seu pai é assim.

De outro lado acompanhamos a mudança de Ruben, o irmão mais velho de Cameron e seu grande companheiro. Ele, diferentemente de Cam, tem uma visão menos romântica do mundo, apesar de também carregar consigo essa máxima de que os Wolfe nunca se deixam abater. Ruben acredita e apoia o irmão caçula, à sua maneira, muitas vezes quase sem demonstrar qualquer carinho por ele, mas sempre ficando ao seu lado.

Os dois meninos se envolvem num campeonato de luta amador, e têm que enfrentar adversários violentos e implacáveis, além de uma plateia exigente, que quer ver briga e sangue. A cada luta, o vencedor ganha um bom prêmio em dinheiro, e o perdedor fica apenas com a gorjeta dada pelos espectadores. Ruben luta com muita facilidade, como se tivesse nascido para aquilo, e nunca perde uma disputa sequer, já Cameron, em sua primeira vez no ringue, é quase massacrado pelo oponente.

Durante as lutas é que percebemos mais o crescimento pessoal dos personagens e a sutileza da escrita de Zusak, ele é capaz de descrever uma batalha sangrenta, que deixa Cameron quase em coma de maneira tão delicada que o leitor não fica em momento algum assustando ou com medo de que algo ruim (ou pior) lhe aconteça. Mais uma vez preciso mencionar que o escritor constrói seus parágrafos de maneira quase poética, e isso deixa o clima mais ameno. Ele usa essa mesma habilidade para inserir pequenas metáforas na narrativa que remetem àquele amadurecimento que eu citei logo no começo da resenha, deixando bem claro que os meninos estão se tornando adultos e se adequando a sua nova realidade.

Claro que as dúvidas amorosas continuam, e elas se apresentam de duas formas diferentes: enquanto Ruben fica com qualquer menina que se aproxime dele após as lutas, e depois as abandone como se não significassem nada, Cameron continua procurando uma garota para se dedicar, entregar seu coração e viver um amor de verdade. Ele não entende como o irmão consegue se manter tão distante de tudo isso, e continuar com relacionamentos tão superficiais.

Os conflitos familiares ainda estão presentes nesse livro, só que ficam um pouco mais para segundo plano. Grande parte da narrativa se concentra em mostrar ao leitor como é complicado deixar de ser criança, e ter que entrar na vida adulta ainda carregando alguns medos e inseguranças daquela fase. Aos poucos, o próprio Ruben vai mostrando para Cameron que a mudança faz parte da natureza humana, e que, apesar de ser difícil, eles vão conseguir crescer juntos. E o que os meninos acreditam que será muito ruim para a família, acaba os unindo ainda mais.

Cameron e Ruben só querem sobreviver, e para isso, caem e se levantam, sempre, apanham e batem, e aprendem que não é a força do soco que vale, mas sim, se você tem o que é necessário para aguentar as pancadas que recebe. Mais uma vez, Markus Zusak conquista com personagens fortes, complexos e muito reais, e com sua delicadeza para contar uma estória. Ele entretém, diverte e faz pensar, tão naturalmente, que o leitor nem percebe que está refletindo sobre si mesmo enquanto lê.

"Bom de briga"
Markus Zusak
editora Bertrand Brasil
208 páginas
nota do blog: 4
nota do Skoob: 4.2

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Um pouquinho de...

"Aonde isso foi parar? Perguntei para mim mesmo. Eu nem conseguia me lembrar da foto sendo tirada. Era mesmo  real?
Nesse momento, Sarah estava na escada dos fundos, chorando, e Rube e eu afundávamos no sofá, incapazes de ajudá-la. Steve não parecia se importar com nenhum de nós. 
Aonde isso foi parar? Pensei de novo. De que forma aquela imagem pôde se transformar nisso?
Será que os anos nos venceram?
Será que nos enfraqueceram?
Como foi que passaram feito grandes nuvens brancas, desintegrando com tanta lentidão que não podíamos nos dar conta delas?
De um jeito ou de outro, tudo estava muito ruim, e ia piorar."

(página 119, capítulo 10)

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

O azarão [Resenha]


"O jovem Cameron Wolfe, aos 15 anos, está perdido na vida e vive em conflito com sua família. Trabalha com o pai encanador e sua mãe está sempre brigando com os filhos, na pequena casa onde todos moram juntos. Steve é o mais velho e mais bem-sucedido. Sarah é a segunda filha, e está sempre dando uns amassos com o namorado. Rube é o terceiro e o mais próximo de Cameron. Os dois, além de boxeadores amadores, vivem armando esquemas para roubar as lojas e outros locais do tipo. Contudo, os planos nunca saem do papel. Esse é um livro que fala sobre a vida e as lições que podem ser tiradas dela."

Esse é o primeiro volume da trilogia que fala sobre os irmãos Wolfe, e "O azarão" nos introduz na vida da família, apresentando os personagens e traçando o perfil de cada um deles. Com pais que prezam muito a disciplina e fazem de tudo para manter as contas em dia, cada um dos irmãos tem seu próprio jeito de encarar a vida: enquanto o mais velho, Steve, já trabalha e é muito bem sucedido no futebol, a irmã Sarah só quer saber de namorar e se divertir. Os dois mais novos, Rube e Cam são meninos que estão se descobrindo, achando seu lugar no mundo.

Os irmãos mais novos são muito unidos, e estão sempre juntos, seja para criticar a irmã, que vive agarrada ao namorado, ou para planejar pequenos golpes, que eles acreditam que lhe darão algum status, mas que, infelizmente, eles nunca dão certo.

Há um diferencial nesse livro: o autor intercala os capítulos com a narrativa de sonhos que Cam tem. Nesses sonhos ele, geralmente, reflete as coisas que viveu, e algumas metáforas usadas nesses sonhos servem para aproximar o leitor da real personalidade de Cameron, ajudando a entender alguns de seus pensamentos mais complexos. 

O autor escreve de maneira muito delicada, ressaltando as qualidades e os defeitos de seus personagens de maneira quase poética. Eu já tinha usado esse adjetivo para definir a escrita de Markus Zusak em "A menina que roubava livros", mas "O azarão" foi escrito antes dele, e já é possível identificar o mesmo estilo que o fez famoso. A forma como ele constrói as frases é muito peculiar e, apesar de ser um livro que se enquadra no gênero young adult, se o leitor não tiver um pouquinho de experiência, alguns trechos podem se tornar difíceis de compreender.

"Sim. Ele acertou. Ah, estava tudo bem. Era como um machado abrindo as minhas juntas, e depois minha cabeça foi atingida pela mão esquerda dele. Ela se lançou para a frente e parou no meu queixo.
Com força.
Aconteceu.
O céu desabou.
Fiquei sem ar.
O chão oscilou.
O chão.
O chão.
Balancei.
Errei.
Rube riu, sob a barba que estava nascendo."

Todas as dúvidas que afligem um menino de 15 anos estão presentes na narrativa: o medo de não ser aceito, as mudanças em seu corpo, a vontade de ser bonito, a descoberta do primeiro amor, e o desejo de conquistar seu espaço, criar sua identidade. Cameron tem momentos de reflexão muito interessantes, onde ele fala sobre seu amor pela família, o respeito que tem pelo pai, a admiração pelo irmão mais velho, e a vontade de encontrar uma menina com quem compartilhar seus anseios de felicidade.

Os meninos são bastante inocentes e é possível perceber em suas atitudes do dia a dia a falta de malícia que eles têm. Quando brincam de luta, cada um usando apenas uma luva, já que só têm um par delas, fica claro a proximidade que eles ainda mantêm da infância. E depois, quando percebem que o cachorro do vizinho está precisando da ajuda deles, notamos a percepção quase romântica que eles têm da realidade. O sinal mais evidente de que estão passando pela fase de transição entre infância e adolescência é a barba de Ruben, que está crescendo e ele insiste em não fazê-la, apesar dos protestos de seu pai.

O livro fala bastante sobre amizade: Cam tem em Rube seu amigo mais próximo, pois estão sempre juntos, são cúmplices um do outro, e trocam confidências à noite, antes de dormir, dividindo o mesmo quarto. Apesar dessa cumplicidade, Cameron tem medo de compartilhar seus medos mais profundos, e algumas dúvidas acabam ficando para o volume dois da série.

O destaque da estória fica para a bondade presente nos personagens. Mesmo quando Rube e Cameron planejam assaltar o consultório dentário que fica perto da casa deles, é possível identificar esse sentimento nos meninos. O autor deixa claro que as peripécias da dupla de irmãos não passa de  confusão adolescente e, mesmo não concordando com algumas atitudes deles, é totalmente possível entendê-los.

Com mais uma narrativa singela e cheia de emoção, Zusak nos contagia com o turbilhão se sensações vividas por Cameron Wolfe, e, a cada capítulo, nos afeiçoamos mais com esse jovem comum, que poderia ser qualquer um de nós.

O azarão
Markus Zusak
editora Bertrand Brasil
176 páginas
nota do blog: 4
nota do Skoob: 3.4

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Um pouquinho de...

"- Estou falando sério - diz baixinho, e tem algo no olhar que me faz pensar em 'O velho e o mar' e em como a vela remendada do velho parece a bandeira da derrota eterna. É como estão os olhos de Sarah. A cor da derrota esmaga as pupilas dela, mesmo que o gesto de cabeça, o sorriso e o movimento desajeitado com que se senta no sofá mostrem que ela ainda não se deu por vencida. Apenas vai continuar, como todos nós.
Sorria com teimosia.
Sorria com instinto, depois lamba as próprias feridas no mais escuro dos cantos escuros. Volte a abrir as cicatrizes nos dedos e se recorde delas."

(página 27, capítulo 2)