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quinta-feira, 18 de junho de 2015

A fada [Resenha]

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"Alguns jovens ganham presentes caros, passagens aéreas ou festas surpresas em seus aniversários de 18 anos. Melanie Aine ganhou o falecimento do pai, uma estranha tatuagem e a descoberta de que não era um ser humano. Como se tudo isso não fosse suficiente, Melanie ainda descobriu por detrás da enevoada e mística cidade de Londres um mundo fantástico que até poderia ignorar, se não descobrisse ser parte importante dele. Um legado que traz com ele diversas tragédias e problemas pessoais que ela não espera se adaptar, mas não sabe se terá opção. A única parte recompensadora parece ser seu encontro com um homem misterioso, oriundo de uma família bruxa poderosa, cuja relação caminha em uma linha bamba e tênue que separa afeto e fúria. Um afeto que pode levá-la à transcendência e à vida eterna. Uma fúria que pode conduzí-la à morte e ao esquecimento. Dentre muitos feitiços, lutas, criaturas mágicas e eventos sobrenaturais, 'A fada' é uma história de descobertas e superações, sobre como o amor pode fazer várias pessoas redescobrirem a vida e a magia nela." 

Esse foi o primeiro livro escrito por Carolina Munhóz, e ela era bastante jovem quando o fez. Isso fica bastante evidente durante a leitura; apesar de a estória ser consistente e possuir uma boa trama, ela é meio infantil, e até a linguagem usada pela autora contribui para essa condição.

No dia em que completou 18 anos, a jovem Melanie Aine ganhou uma tatuagem misteriosa, e perdeu seu pai de repente, ficando sozinha no mundo, já que sua mãe tinha ido embora. Morando em Londres, isolada de quase todos, exceto de um casal amigo dono de um pub, Mel passa seus dias lamentando suas perdas e tentando entender porque é diferente. Ela sabe que tem uma missão, mas ainda não descobriu qual.

Já no início, Melanie revela que é uma fada, e também apresenta ao leitor o mundo das fadas. A personagem visita esse universo para tentar descobrir qual a sua missão, logo depois de ter uma visão, no meio da floresta, de um par de olhos misteriosos. Mel acredita que precisa encontrar o dono daqueles olhos, e que ele está diretamente ligado à sua missão.

Assim, ela conhece Artur numa situação complicada em que ele a ajuda a ficar segura, e os dois se envolvem imediatamente. O romance é muito delicado e doce, e o casal acredita que nasceram um para o outro. Alguns acontecimentos os levam a descobrir detalhes de suas vidas que eles não se lembravam mais, e tudo só reforça a crença de que eles estão predestinados.

Claro que a conquista da felicidade não poderia ser tão simples, e, quando Mel percebe qual é a sua verdadeira missão na Terra, o relacionamento deles é colocado em segundo plano. Mas antes da fadinha tomar a decisão mais importante de sua vida, ela passa por um processo de conhecimento muito intenso, enquanto descobre o amor ao lado de Artur.

Ao mesmo tempo que abre seu coração e desfruta dos momentos que passa com Artur, Mel tenta entender as atitudes radicais tomadas por sua mãe, e percebe que seu destino é cumprir aquilo que lhe foi determinado, antes mesmo dela descobrir que era uma fada. A aceitação e a compreensão de ser quem ela é, ajudam Mel a assumir seu lugar no mundo.

O final tem dois momentos distintos: o primeiro, bastante corajoso e surpreendente, e que fecharia perfeitamente a estória, sem precisar de muitas explicações, pois é totalmente coerente com o enredo; e um segundo momento em que a autora optou por um clichê que, na minha opinião foi desnecessário. Gostei da perspectiva do futuro que ela usou, mas acho tudo poderia ter se encerrado com a decisão mais adulta que Mel tomou em toda a narrativa. Mas entendo que a autora quis manter o toque de magia na estória, e até uma pitadinha de romance, para deixar tudo mais atrativo para suas leitoras.

No final das contas, gostei do livro, apesar de não me identificar imediatamente com o estilo de narrativa, talvez por eu já não estar na faixa etária para a qual ele foi escrito. Foi um bom início de carreira para Carolina, e quero muito ler outro livro dela para acompanhar a evolução da sua escrita.


A fada
Carolina Munhóz
256 páginas
editora Fantasy Casa da Palavra
nota do Skoob: 3.4
nota do blog: 3.2


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Joana Masen, quando não está resenhando, pintando e bordando por aqui, está escrevendo poesia no blog Milonga.
Twitter: @joana_masen

terça-feira, 24 de setembro de 2013

O espadachim de carvão - resenha


"Filho de um dos quatro deuses de Kurgala, Adapak vive com o pai em sua ilha sagrada, afastada e adorada pelas diferentes espécies do mundo. Lá, o jovem de pele absolutamente negra e olhos brancos cresceu com todo o conhecimento divino a seu dispor, mas consciente de que nunca poderia deixar sua morada. Ao completar dezenove anos, no entanto, isso muda. Uma situação inesperada o obriga a fugir e lutar por sua própria vida, se expondo aos olhos do mundo pela primeira vez. Todos os seus conhecimentos teóricos e sua excelente técnica de combate têm que ser explorados durante essa fuga e na busca pela identidade daqueles que desejam acabar com os deuses de Kurgala."

O autor Affonso Solano cria em seu livro de estreia um universo fantástico totalmente novo, com algumas peculiaridades interessantes, como por exemplo, a medida de tempo em ciclos, e não em anos, como estamos habituados. Esse mundo novo exige que o leitor se adapte a ele enquanto desenvolve a leitura, ou que ele já seja um adepto da literatura fantástica, o que não é o meu caso, pois ainda estou iniciando nesse gênero literário. Mesmo assim, achei o livro muito bom. No início minha leitura ficou um pouco lenta, exatamente por estar em processo de adaptação e conhecimento do cenário onde a estória se passa, e depois de superada essa barreira pessoal, a leitura fluiu normalmente e se tornou muito interessante.

Adapak é um ser que tem a pele negra, diferentemente das demais criaturas de Kurgala, e isso causa estranheza em algumas pessoas, mas há uma razão para que ele seja assim, que é explicada no desfecho da estória. Ele também é um exímio lutador, treinado a vida toda para agir de acordo com um tipo de arte regida pelos Círculos, que vão direcionando o espadachim em suas decisões, e fazendo com que ele use suas habilidades de lutador apenas para se defender, e não para atacar.

Apesar de ser muito inteligente e conhecer quase todos os assuntos através de seus livros, Adapak é muito inocente, não sabe como agir com relação a outras pessoas e não entende algumas ironias ou malicias, tanto que, logo no início de sua fuga, ele é facilmente ludibriado por um aproveitador, e acaba preso sem motivo. Sua ingenuidade diante de situações comuns da vida é tão latente que em alguns momentos ele chega a parecer uma criança indefesa, mesmo já tendo 19 ciclos de idade. Essa é uma característica importante do personagem e é interessante ver como ele vai crescendo nesse sentido, deixando de ser tão puro, aprendendo o quanto o mundo pode ser cruel e descobrindo como ele deve reagir a isso sem ferir seus princípios.

Há grandes perdas pelo caminho de Adapak, mas ao mesmo tempo que isso o entristece e o deixa confuso quanto ao que realmente está acontecendo, também o fortalece e o ajuda a continuar buscando o real motivo de estar sendo perseguido. Nesse processo de autoconhecimento, até a perda de seu único amor ajuda na formação de sua personalidade, enquanto ele reflete sobre os motivos de ter sido abandonado pela mulher que amava e se o relacionamento dos dois foi mesmo tão intenso e verdadeiro como ele imaginava.

As cenas de luta são muito detalhadas e isso as deixa bem empolgantes: é possível imaginar claramente o cenário das disputas através das descrições do autor e até os movimentos de Adapak, precisos e eficientes, enquanto ele usa as espadas para se defender daqueles que o atacam.

O ápice da estória é quando Adapak descobre quem o está perseguindo e qual o motivo para isso. A essa altura, o protagonista já fez alguns poucos amigos, entre eles a capitã do barco em que ele atravessou o mar, chamada Sirara, e que o ajuda a encontrar respostas para algumas de suas dúvidas mais profundas. Então, quando seu algoz o cerca, pega Sirara como refém para persuadir Adapak a se entregar. Confesso que fiquei boquiaberta com o que aconteceu aqui, mas não darei nenhum spoiler.

O final da estória é feliz, e quando o livro acabou eu me sentia parte da vida de Adapak, queria saber o que iria acontecer depois e como ele se comportaria dali pra frente. Até para aqueles que, como eu, não são leitores típicos de fantasia, o livro vale muito a pena, É uma estória curtinha, que acaba nela mesmo, sem deixar enigmas para serem desvendados num segundo volume, com um estilo bem contemporâneo de narrativa e de fácil compreensão.

Destaco o estilo narrativo adotado por Solano, com duas linhas temporais distintas e que se intercalam, capítulo a capítulo, interrompendo o fluxo de leitura em momentos estratégicos e fazendo com que o leitor quebre aquela onda de adrenalina e tenha que voltar a um momento anterior, a outro lugar, com outros personagens e situações diferentes. Isso, além de um exercício para quem lê, mostra grande habilidade do autor, pois não é fácil trabalhar com esse tipo de escrita e conseguir manter a estória interessante para o leitor, que pode acabar esquecendo o que se passou anteriormente, ou até separar a estória em duas partes distintas, não fazendo o elo de ligação natural entre uma e outra.

Infelizmente, meu livro veio com alguns problemas de impressão: algumas páginas estão com as letras meio borradas. Nada que atrapalhe a leitura, mas para quem gosta de ler e guardar seus livros para sempre, o melhor é que eles não possuam esses defeitos.

Indico o livro para todos, e acho que seria interessante que mais jovens o lessem, por possuir uma linguagem bem acessível e dar uma boa base para a formação de leitores, servindo como porta de entrada para o universo fantástico.

"O espadachim de carvão"
Affonso Solano
editora Fantasy - Casa da palavra
256 páginas