"Na São Paulo dos anos 60, o adolescente Francisco de Hollander, encontra uma carta escrita em alemão dentro de um dos livros da vasta biblioteca paterna. Em meio a porres, roubos recreativos de carros a livros empoeirados, surgem pistas que denotam uma missão de vida inteira. Ao tentar traçar o destino de seu irmão alemão, parece também estar em jogo o narrador ganhar o respeito do pai, que, apesar dos arroubos intelectuais de Francisco, tem mais afinidade com Domingos, seu outro filho, galanteador contumaz, leitor da Playboy e da Luluzainha, e sempre a par das novas sobre Brigite Bardot. A despeito das tentativas de mediação da mãe, Assunta - italiana doce e enérgica, justa e compreensiva -, a relação dos irmãos é quase feita só de silêncio, competição e ressentimento. Num decurso temporal que chega à Berlim dos dias presentes, e que tem no horror da ditadura militar brasileira e nos ecos do Holocausto seus centros de força, esse livro conduz o leitor por caminhos vertiginosos através dessa busca pela verdade e pelos afetos."
O aguardado livro de Chico Buarque que conta a existência de um irmão alemão que ele nunca conheceu, me surpreendeu mais pelo estilo narrativo do autor do que pelo enredo em si. Tudo se desenrola a partir de um fato verídico - o pai de Chico realmente teve um filho na Alemanha, antes de se casar com sua mãe - explorado de maneira ficcional, alternando acontecimentos que poderiam ser reais com devaneios poéticos que vão desde a grande biblioteca do pai até a violência do Golpe Militar e do Holocausto.
Para os bookaholics, o que mais chama a atenção num primeiro momento é o enorme acervo de livros do pai de Ciccio, personagem principal e narrador da estória; o jornalista Sérgio de Hollander é muito bem conceituado em seu meio, e todos sabem que ele é um leitor voraz, por isso, as editoras, os escritores, as lojas, todos lhe enviam inúmeros livros, que se acumulam pela casa, já não tendo mais espaço no escritório, e tomam conta de todas as paredes, desde os quartos até a cozinha. A responsável pela organização de tantos volumes é Assunta, mãe de Ciccio, e ele faz questão de frisar que, sem ela, nem mesmo o pai encontraria nenhum livro naquelas prateleiras.
Ciccio é bastante reservado, tem apenas um amigo, com quem comete pequenos delitos durante a adolescência, quase não fala com o irmão, de quem herda só as ex-namoradas, e tem uma enorme vontade de se aproximar mais do pai, acreditando que se dariam bem por compartilharem o gosto pela literatura, mas o pai prefere se abrir com o irmão em longas conversas e não com ele.
Um dia Ciccio está mexendo em alguns livros do escritório quando encontra uma carta escrita em alemão, endereçada ao pai. Quando ele consegue traduzi-la, descobre que a carta fala sobre um filho que seu pai teria tido com uma jovem alemã no período em que morou naquele país. A partir daí começa a sua busca por informações a respeito desse meio irmão, e o seu desejo de conhecê-lo. Remexendo em mais livros ele acha uma foto da moça grávida, com seu pai bem mais jovem a seu lado, mas não se sente a vontade para perguntar a ele qualquer coisa sobre o assunto, muito menos para a mãe, com medo de fazê-la sofrer.
Ciccio faz algumas pesquisas e descobre um maestro que mora no Brasil e que poderia saber alguma coisa sobre o paradeiro do irmão alemão, mas o contato com ele é muito difícil, e a busca vai se complicando cada vez mais. O maior medo de Ciccio é que esse seu irmão tenha sido vítima do Holocausto e tenha morrido em algum campo de concentração, sem nunca ter sido identificado.
Enquanto isso, começa a ditadura no Brasil, e seu irmão, Mimmo, acaba desaparecendo, fato que cai como uma bomba na família, deixando seus pais numa tristeza profunda. Hora Ciccio consola a mãe, que está arrasada com a falta de notícias a respeito do irmão, hora ele busca por mais evidências da existência de Sérgio Ernst, o irmão alemão, mas em ambas as situações o que se depreende é que Ciccio não passa de um jovem inseguro e carente, que busca a todo custo ganhar mais carinho e atenção de seu pai, para que tenha mais confiança em si mesmo. Em alguns momentos o autor alterna o tempo presente da narrativa com uma imaginação do narrador, sonhando com como seria o desenrolar dos fatos se ele realmente ficasse frente a frente com o irmão, ou se tivesse oportunidade - ou talvez coragem - de quebrar a barreira que existe em seu relacionamento com o pai.
A narrativa pode ficar um pouco arrastada em alguns momentos, mas não entedia. Isso se dá pelo fato de os parágrafos serem muito extensos, e, para alguns leitores, pode haver uma perda no ritmo. O estilo de Chico aqui está mais para Saramago do que para Marcelo Rubens Paiva, com o emprego de palavras pouco usadas pelo grande público, e as frases têm uma construção mais formal, dando um ar mais intelectual à narrativa. Pode parecer que estou desmerecendo a obra, mas pelo contrário, estou elogiando: para quem reclama que alguns chick-lits da vida têm um vocabulário muito simples e pobre, essa é uma boa opção de leitura mais densa, que faz pensar.
Em resumo, se Ciccio encontra ou não o irmão alemão é mero detalhe, a estória toda é envolvente e tem inúmeros acontecimentos paralelos à essa busca muito interessantes, que vão nos dando uma ideia de como era viver na época da ditadura, e como seria interessante ter uma biblioteca tão bem servida quanto a de Sérgio Hollander.
O aguardado livro de Chico Buarque que conta a existência de um irmão alemão que ele nunca conheceu, me surpreendeu mais pelo estilo narrativo do autor do que pelo enredo em si. Tudo se desenrola a partir de um fato verídico - o pai de Chico realmente teve um filho na Alemanha, antes de se casar com sua mãe - explorado de maneira ficcional, alternando acontecimentos que poderiam ser reais com devaneios poéticos que vão desde a grande biblioteca do pai até a violência do Golpe Militar e do Holocausto.
Para os bookaholics, o que mais chama a atenção num primeiro momento é o enorme acervo de livros do pai de Ciccio, personagem principal e narrador da estória; o jornalista Sérgio de Hollander é muito bem conceituado em seu meio, e todos sabem que ele é um leitor voraz, por isso, as editoras, os escritores, as lojas, todos lhe enviam inúmeros livros, que se acumulam pela casa, já não tendo mais espaço no escritório, e tomam conta de todas as paredes, desde os quartos até a cozinha. A responsável pela organização de tantos volumes é Assunta, mãe de Ciccio, e ele faz questão de frisar que, sem ela, nem mesmo o pai encontraria nenhum livro naquelas prateleiras.
Ciccio é bastante reservado, tem apenas um amigo, com quem comete pequenos delitos durante a adolescência, quase não fala com o irmão, de quem herda só as ex-namoradas, e tem uma enorme vontade de se aproximar mais do pai, acreditando que se dariam bem por compartilharem o gosto pela literatura, mas o pai prefere se abrir com o irmão em longas conversas e não com ele.
Um dia Ciccio está mexendo em alguns livros do escritório quando encontra uma carta escrita em alemão, endereçada ao pai. Quando ele consegue traduzi-la, descobre que a carta fala sobre um filho que seu pai teria tido com uma jovem alemã no período em que morou naquele país. A partir daí começa a sua busca por informações a respeito desse meio irmão, e o seu desejo de conhecê-lo. Remexendo em mais livros ele acha uma foto da moça grávida, com seu pai bem mais jovem a seu lado, mas não se sente a vontade para perguntar a ele qualquer coisa sobre o assunto, muito menos para a mãe, com medo de fazê-la sofrer.
Ciccio faz algumas pesquisas e descobre um maestro que mora no Brasil e que poderia saber alguma coisa sobre o paradeiro do irmão alemão, mas o contato com ele é muito difícil, e a busca vai se complicando cada vez mais. O maior medo de Ciccio é que esse seu irmão tenha sido vítima do Holocausto e tenha morrido em algum campo de concentração, sem nunca ter sido identificado.
Enquanto isso, começa a ditadura no Brasil, e seu irmão, Mimmo, acaba desaparecendo, fato que cai como uma bomba na família, deixando seus pais numa tristeza profunda. Hora Ciccio consola a mãe, que está arrasada com a falta de notícias a respeito do irmão, hora ele busca por mais evidências da existência de Sérgio Ernst, o irmão alemão, mas em ambas as situações o que se depreende é que Ciccio não passa de um jovem inseguro e carente, que busca a todo custo ganhar mais carinho e atenção de seu pai, para que tenha mais confiança em si mesmo. Em alguns momentos o autor alterna o tempo presente da narrativa com uma imaginação do narrador, sonhando com como seria o desenrolar dos fatos se ele realmente ficasse frente a frente com o irmão, ou se tivesse oportunidade - ou talvez coragem - de quebrar a barreira que existe em seu relacionamento com o pai.
A narrativa pode ficar um pouco arrastada em alguns momentos, mas não entedia. Isso se dá pelo fato de os parágrafos serem muito extensos, e, para alguns leitores, pode haver uma perda no ritmo. O estilo de Chico aqui está mais para Saramago do que para Marcelo Rubens Paiva, com o emprego de palavras pouco usadas pelo grande público, e as frases têm uma construção mais formal, dando um ar mais intelectual à narrativa. Pode parecer que estou desmerecendo a obra, mas pelo contrário, estou elogiando: para quem reclama que alguns chick-lits da vida têm um vocabulário muito simples e pobre, essa é uma boa opção de leitura mais densa, que faz pensar.
Em resumo, se Ciccio encontra ou não o irmão alemão é mero detalhe, a estória toda é envolvente e tem inúmeros acontecimentos paralelos à essa busca muito interessantes, que vão nos dando uma ideia de como era viver na época da ditadura, e como seria interessante ter uma biblioteca tão bem servida quanto a de Sérgio Hollander.
O irmão alemão
Chico Buarque
editora Cia. das Letras
240 páginas
nota do Skoob: 3,9
nota do blog: 3,9
Joana Masen, quando não está resenhando, pintando e bordando por aqui, está escrevendo poesia no blog Milonga.
@joana_masen









