sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

O irmão alemão [Resenha]


"Na São Paulo dos anos 60, o adolescente Francisco de Hollander, encontra uma carta escrita em alemão dentro de um dos livros da vasta biblioteca paterna. Em meio a porres, roubos recreativos de carros a livros empoeirados, surgem pistas que denotam uma missão de vida inteira. Ao tentar traçar o destino de seu irmão alemão, parece também estar em jogo o narrador ganhar o respeito do pai, que, apesar dos arroubos intelectuais de Francisco, tem mais afinidade com Domingos, seu outro filho, galanteador contumaz, leitor da Playboy e da Luluzainha, e sempre a par das novas sobre Brigite Bardot. A despeito das tentativas de mediação da mãe, Assunta - italiana doce e enérgica, justa e compreensiva -, a relação dos irmãos é quase feita só de silêncio, competição e ressentimento. Num decurso temporal que chega à Berlim dos dias presentes, e que tem no horror da ditadura militar brasileira e nos ecos do Holocausto seus centros de força, esse livro conduz o leitor por caminhos vertiginosos através dessa busca pela verdade e pelos afetos."

O aguardado livro de Chico Buarque que conta a existência de um irmão alemão que ele nunca conheceu, me surpreendeu mais pelo estilo narrativo do autor do que pelo enredo em si. Tudo se desenrola a partir de um fato verídico - o pai de Chico realmente teve um filho na Alemanha, antes de se casar com sua mãe - explorado de maneira ficcional, alternando acontecimentos que poderiam ser reais com devaneios poéticos que vão desde a grande biblioteca do pai até a violência do Golpe Militar e do Holocausto.

Para os bookaholics, o que mais chama a atenção num primeiro momento é o enorme acervo de livros do pai de Ciccio, personagem principal e narrador da estória; o jornalista Sérgio de Hollander é muito bem conceituado em seu meio, e todos sabem que ele é um leitor voraz, por isso, as editoras, os escritores, as lojas, todos lhe enviam inúmeros livros, que se acumulam pela casa, já não tendo mais espaço no escritório, e tomam conta de todas as paredes, desde os quartos até a cozinha. A responsável pela organização de tantos volumes é Assunta, mãe de Ciccio, e ele faz questão de frisar que, sem ela, nem mesmo o pai encontraria nenhum livro naquelas prateleiras.

Ciccio é bastante reservado, tem apenas um amigo, com quem comete pequenos delitos durante a adolescência, quase não fala com o irmão, de quem herda só as ex-namoradas, e tem uma enorme vontade de se aproximar mais do pai, acreditando que se dariam bem por compartilharem o gosto pela literatura, mas o pai prefere se abrir com o irmão em longas conversas e não com ele.

Um dia Ciccio está mexendo em alguns livros do escritório quando encontra uma carta escrita em alemão, endereçada ao pai. Quando ele consegue traduzi-la, descobre que a carta fala sobre um filho que seu pai teria tido com uma jovem alemã no período em que morou naquele país. A partir daí começa a sua busca por informações a respeito desse meio irmão, e o seu desejo de conhecê-lo. Remexendo em mais livros ele acha uma foto da moça grávida, com seu pai bem mais jovem a seu lado, mas não se sente a vontade para perguntar a ele qualquer coisa sobre o assunto, muito menos para a mãe, com medo de fazê-la sofrer.

Ciccio faz algumas pesquisas e descobre um maestro que mora no Brasil e que poderia saber alguma coisa sobre o paradeiro do irmão alemão, mas o contato com ele é muito difícil, e a busca vai se complicando cada vez mais. O maior medo de Ciccio é que esse seu irmão tenha sido vítima do Holocausto e tenha morrido em algum campo de concentração, sem nunca ter sido identificado.

Enquanto isso, começa a ditadura no Brasil, e seu irmão, Mimmo, acaba desaparecendo, fato que cai como uma bomba na família, deixando seus pais numa tristeza profunda. Hora Ciccio consola a mãe, que está arrasada com a falta de notícias a respeito do irmão, hora ele busca por mais evidências da existência de Sérgio Ernst, o irmão alemão, mas em ambas as situações o que se depreende é que Ciccio não passa de um jovem inseguro e carente, que busca a todo custo ganhar mais carinho e atenção de seu pai, para que tenha mais confiança em si mesmo. Em alguns momentos o autor alterna o tempo presente da narrativa com uma imaginação do narrador, sonhando com como seria o desenrolar dos fatos se ele realmente ficasse frente a frente com o irmão, ou se tivesse oportunidade - ou talvez coragem - de quebrar a barreira que existe em seu relacionamento com o pai.

A narrativa pode ficar um pouco arrastada em alguns momentos, mas não entedia. Isso se dá pelo fato de os parágrafos serem muito extensos, e, para alguns leitores, pode haver uma perda no ritmo. O estilo de Chico aqui está mais para Saramago do que para Marcelo Rubens Paiva, com o emprego de palavras pouco usadas pelo grande público, e as frases têm uma construção mais formal, dando um ar mais intelectual à narrativa. Pode parecer que estou desmerecendo a obra, mas pelo contrário, estou elogiando: para quem reclama que alguns chick-lits da vida têm um vocabulário muito simples e pobre, essa é uma boa opção de leitura mais densa, que faz pensar.

Em resumo, se Ciccio encontra ou não o irmão alemão é mero detalhe, a estória toda é envolvente e tem inúmeros acontecimentos paralelos à essa busca muito interessantes, que vão nos dando uma ideia de como era viver na época da ditadura, e como seria interessante ter uma biblioteca tão bem servida quanto a de Sérgio Hollander.


O irmão alemão
Chico Buarque
editora Cia. das Letras
240 páginas
nota do Skoob: 3,9
nota do blog: 3,9



Joana Masen, quando não está resenhando, pintando e bordando por aqui, está escrevendo poesia no blog Milonga.
@joana_masen

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Fala, Rafa! - Fluxo Criativo



- Ora, quero um talento.
- Então escreva.
- Vou procurar no pote de azeite, ou sera que está congelado no freezer?
- Deixe o gelo quente. Escreva!
- Ô subconsciente estou peguntando, chega de afirmações.
- Talvez alguém na rua poderia me ajudar a encontrá-lo.
- Busca o seu caminho, Escreva!
- Nem que o meu talento esteja destinado a tacar estrelas no mar, quero mesmo assim, me conte.
- Mergulhe de cabeça na imaginação. Escreva!
- Tentei calcular algumas teorias e não consegui. Será que é por que os números sabem aonde ele está escondido?
- Você pode criar um gênio. Escreva!
- Plantei árvores e elas não floresceram.
- Invente um jardim. Escreva!
- Poderia virar astronauta mas não quero só pisar na lua.
- Pegue a lua na mão. Escreva!
- Gostaria de fazer a diferença no mundo.
- Pense em vários outros mundos, cuide deles. Escreva!
- Querido subconsciente?
- Essscre...
- JÁ ESTOU ESCREVENDO!
- Agora lembre-se: não importa o que e nem como, desde que o seu feito traga o bem como efeito, continue, o resto é asneira.


                         
Rafa Peres, resenhista e crônista, mantém o blog Minha Versão das Coisas, onde posta todos os seus textos.
@Rafaela Peres

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

O que eu li em janeiro


Ah janeiro! Mês tão aguardado, mas que passou tão rápido! Minhas leituras foram interessantes, e vou mudar um pouquinho a maneira de fazer esse resumo para vocês, só mostrando as capas dos livros e os links para as resenhas, quando houver, sem a sinopse do livro, que já está na resenha. Confiram:


Anexos, resenha aqui; Bela distração, resenha aqui; Kitty, resenha aqui.


Perdida, resenha em breve, e Não olhe para trás, resenha aqui.

E como já comentei com vocês num post anterior, estou participando do Reading Challenge 2015, criado pelo blog Mari The Reader (o banner está na lateral do blog), e esses livros já entraram em algumas categorias do desafio:

- um livro com uma única palavra no título: Anexos
- um livro com triângulo amoroso: Bela distração
- um livro com personagens não-humanos: Kitty
- o primeiro livro de um autor popular: Perdida
- um livro escrito por uma mulher: Não olhe para trás

Portanto, ainda faltam 45 livros para fechar esse desafio, que podem ser lidos e qualquer ordem. A lista ficou assim:


Conforme for avançando, vou atualizando a lista por aqui.

Agora me contem um pouco sobre a evolução da meta de leitura de vocês, ou sobre algum livro que vocês estejam lendo que se encaixe em alguma categoria do desafio. E o que acharam do novo formato desse post? Preferem com ou sem as sinopses dos livros?

Mês que vem eu volto com mais um resumo ;)


Joana Masen, quando não está resenhando, pintando e bordando por aqui, está escrevendo poesia no blog Milonga.
@joana_masen

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Um pouquinho de...

"Não seria por mim que ele tomaria conhecimento do meu romance, muito menos com a trama que tenho em mente, ainda que as personagens reais figurem com nomes trocados ou referidos pelas iniciais. Só não posso impedir que um dia o receba como cortesia da editora, e o abra incrédulo, e o comece a ler de mau humor, e contra a vontade se deixe arrebatar pela narrativa que o remete a episódios perdidos na memória, quem sabe de um  livro vagamente alemão que Assunta não terá meios de encontrar nas estantes. E que ele se aflija sobremodo, porque sua memória literária sempre foi mais brilhante que a da própria existência, e talvez não tenha mais tempo de vida para reler sua biblioteca inteira. E que então me chame ao escritório e tussa duas vezes e indague em tom de voz ameaçador, entrecortado por falsetes suplicantes, o título do livro do qual copiei o meu. E que eu ria alto, aponte minha cabeça e diga: da minha Mangokopf, com base em fatos verídicos levantados à custa de anos de pesquisa."

(página 150, capítulo 13)




Joana Masen, quando não está resenhando, pintando e bordando por aqui, está escrevendo poesia no blog Milonga.
@joana_masen

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Lançamentos Farol Literário [Divulgação]

E ai leitores, já estão sabendo da notícia? A editora Farol Literário vai lançar mais livro de Teri Terry, autora da série "Reiniciados" aqui no Brasil!!!!


"Mind games" sai ainda esse ano, mas não foi divulgada a data.

E outro lançamento da Farol, super aguardado pelos leitores, teve sua sinopse oficial divulgada hoje. "Cure meu coração", de Melissa Walker chega às livrarias em março. Leiam a sinopse e segurem seus forninhos:

"Clem é uma adolescente de 16 anos que normalmente não estaria feliz em passar as férias de verão com a família a bordo de um veleiro. Mas, para se manter longe da confusão em que sua vida se transformou, ela prefere aceitar o fato de que, pelos próximos 3 meses, suas prováveis companhias serão apenas seus pais e sua irmã caçula.


Em terra firme ela deixa Amanda, sua melhor amiga de coração partido, rompendo um laço de amizade construído desde a infância. A bordo, tem de lidar com as consequências de suas escolhas e com o sentimento de culpa que a acompanha.


Em crise consigo mesma, ela embarca a bordo do Tudo é Possível, sem saber que na verdade o que a espera é uma viagem de descobertas sobre a amizade, o amor e o perdão."





Imperdível! Mais alguém ai está ansioso por esse lançamento?


Joana Masen, quando não está resenhando, pintando e bordando por aqui, está escrevendo poesia no blog Milonga.
@joana_masen

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Li até a página 100 e... #25


*** lembrando que esse post foi inspirado na ideia original do blog Eu leio, eu conto




Primeira frase da página 100:

"...sirenes, tocam os sinos de uma igreja, e a rua aos poucos recupera o movimento, os automóveis, os pedestres com suas sacolas, as babás com carrinhos de bebês, um moleque com a camisa da Seleção e uma bola debaixo do braço."

Do que se trata o livro?

É uma visão romantizada da existência do irmão alemão de Chico Buarque, filho que seu pai tivera na Alemanha antes de casar com sua mãe, e que ele nunca conseguiu encontrar.

O que você está achando até agora?

Ótimo. Cada capítulo parece um pequeno conto sobre determinado acontecimento na busca de Chico pelo irmão misterioso.

Melhor quote até aqui:

"O suprassumo da biblioteca eram onze volumes hospedados num nicho da sala de visitas, como que um altar cavado no centro da estante com espessas molduras de jacarandá que os segregavam dos livros por assim dizer plebeus. Essas raridades já foram doze, mas uma primeira edição de Hans Staden do século XVI fiz o favor de inutilizar. Foi num dia em que meu irmão me disse que, quando nasci, meu pai me tomou por um mongoloide. Eu nem sabia o que era mongoloide, foi a gargalhada do meu irmão que me acertou. Arrastei uma cadeira, alcancei o nicho e catei o livro que me pareceu mais sagrado, por causa das letras de ouro na capa dura. Espiacei página por página, depois ainda mijei em cima." 

Algum personagem merece destaque?

A mãe de Chico, que é a responsável pela organização da imensa biblioteca do pai, e é a única pessoa que sabe localizar qualquer livro nas prateleiras.

Vai continar lendo?

Sim.

Última frase dessa página:

"A Minhoca deve ter razão, e durante meu abraço vejo como as manchas de sangue no asfalto se apagam com a borracha dos pneus de Volkswagens, Fords e Simcas Chambord."


Joana Masen, quando não está resenhando, pintando e bordando por aqui, está escrevendo poesia no blog Milonga.
@joana_masen