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quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Agora aqui ninguém precisa de si [Resenha]


"Recuerde, diz a placa imperativa em espanhol, enquanto o retrovisor do automóvel mostra o que já ficou no passado. 'Eu tenho uma coleção de esquecimentos/e apenas duas mãos para ver o mundo', lamenta o 'super-homem submisso' que não alcança o ritmo dos acontecimentos. Resta observar coisas mínimas como uma formiga ou imensas como o universo e seus astros. O tempo e o espaço, a insignificância e a morte são os principais temas deste volume de inéditos de Arnaldo Antunes, que oscilam entre o humor e a desilusão. Alternando poemas em verso e visuais, fotografias e 'prosinhas', a obra é marcada pela pluralidade, pelo registro pop e pela sonoridade, tão próprios ao artista, que assina também o projeto gráfico. Um diálogo sensível e desafiante com o homem contemporâneo."


Arnaldo Antunes é um grande poeta, no sentido mais amplo da palavra: ele transita entre música, poesia e arte, e faz tudo com perfeição. Suas  construções são excêntricas e contemporâneas, e podem agradar até mesmo aqueles que ainda não são acostumados a ler poesia.

"não sei
se não
sei ou
se não
sei que
sei
mas
esque
cerei"
(Não sei - página 121)

Sua visão do mundo está registrada nesse livro, tanto com palavras quanto com imagens, que ele usa para complementar suas construções poéticas, com uma habilidade que poucos artistas têm. E esse seu trabalho com poesia não é apenas um flerte: Arnaldo já ganhou um Prêmio Jabuti em 1992, por seu livro Iluminuras.

Dentre as diversas poesias inovadoras de Arnaldo também é possível encontrar algumas ao estilo clássico, com métrica e ritmo próprios, que demonstram sentimentos profundos e muita sensibilidade.

"Se ando cheio me dilua
se estou no meio conclua
se perco o freio me obstrua
se me arruinei reconstrua"
(Você que me continua - página 75)

Esse conjunto de rimas e imagens de Arnaldo retratam uma poesia urbana moderna, carregada de reflexões sobre o ser, o viver, que captou a essência do dia a dia que vivemos hoje. Fica claro que um poeta não é feito apenas de versos e rimas; ele também é feito de emoções e observação do comportamento humano e do universo ao seu redor. Enxergamos todas essas qualidades em Arnaldo Antunes e isso se reflete em seus poemas.
Para reparar - página 111


Como o próprio autor é o responsável pelo projeto gráfico do livro, tudo tem a cara dele, meio confuso, e ao mesmo tempo artístico. Vale a pena a leitura e a viagem visual proporcionada pelo livro.


Agora aqui ninguém precisa de si
Arnaldo Antunes
editora Companhia das Letras
152 páginas
nota do Skoob: 4.0
nota do blog: 4.2

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Joana Masen, quando não está resenhando, pintando e bordando por aqui, está escrevendo poesia no blog Milonga.
Twitter: @joana_masen

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Um pouquinho de... Poesia!

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.



Ao contrário das outras segundas-feiras, hoje não teremos quote, e sim, um poema inteiro, lembrando que hoje seria o aniversário de 102 anos do grande poeta Vinicius de Moraes.

Esse Soneto de Separação foi escrito por ele em 1938, na Inglaterra. Quer conhecer mais sobre a vida e a obra do poeta? Clique aqui e conheça o site oficial de Vinicius de Moraes.


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Joana Masen, quando não está resenhando, pintando e bordando por aqui, está escrevendo poesia no blog Milonga.
Twitter: @joana_masen

domingo, 11 de outubro de 2015

Fala, Rafa! - Pensador Cativante



Transformo a dor em pitangas de conforto.
Coloco vida nos sentimentos esquecidos.
Faço do caminho estreito uma estrada macia com pérolas brilhantes espalhadas.

Flutuo entre os continentes sem ao menos sair do lugar.
Mastigo desgosto e cuspo bondade.
Bato asas em uma constante altura usando apenas a literatura.

Faço o alfabeto interessante através das minhas palavras esdrúxulas e leves.
O que é pequeno enxergo recheado, e o grande simplesmente, vazio.
Em minha cartola retiro jujubas falantes e escritoras.

-Você é mágico ?

-Não, sou um poeta.



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Rafa Peres, resenhista e crônista, mantém o blog Minha Versão das Coisas, onde publica todos os seus textos.
Twitter: @Raafaperes

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Sorteio Primavera Poética

Olá leitores! A primavera chegou, e com ela a chance de vocês ganharem mais um super livro aqui no blog!


















Sim meninos e meninas, o ator Rafael Vitti, aquele fofinho que já fez Malhação, também escreve poesia! E não é só isso: os poemas dele não são tradicionais, daqueles cheios de rimas e tal, ele faz uma poesia visual, artística, que mistura palavras com imagens e transforma esse livro numa viagem única. Vocês não vão querer perder esse sorteio, certo?



Então para participar é só preencher o formulário abaixo. A única entrada obrigatória é seguir a fanpage do blog. As demais são opcionais, mas aumentam as suas chances de ganhar.

Mãos a obra queridos leitores, quero ver todo mundo participando! Boa sorte!


a Rafflecopter giveaway

quarta-feira, 15 de julho de 2015

O Corvo: livro colaborativo

Olá leitores! Talvez a maioria de vocês já tenha ouvido falar do poema O Corvo, escrito por Edgar Alan Poe, certo? E vocês sabem que esse ano o texto mais conhecido de Poe está completando 170 anos? Pois é, aquela voz sinistra que fica repetindo never more já existe há quase 2 séculos, e para marcar essa data tão importante, a editora Empíreo está fazendo uma grande homenagem.














O livro colaborativo O Corvo, será uma compilação de diversos textos, de autores diferenciados, e imagens, que foram enviados para o site da editora. Infelizmente, o prazo para envio de textos e ilustrações já terminou =(

Mas o mais importante é saber que a Empíreo conta com a colaboração de todos, ainda que não seja por meio de textos. Através do site Kickante, todo mundo pode contribuir financeiramente para a produção dessa obra. É muito simples: acessem o site da Kikcante clicando aqui, e escolham qual o valor que querem doar. Para cada doação há uma recompensa, que vai desde ter o seu nome nos agradecimentos do livro até poster, camiseta, ecobag, e entradas para a noite de lançamento. Os valores vão de R$ 10,00 a R$ 1.600,00, e você pode contribuir com quanto quiser.




Até esse momento, eles já conseguiram arrecadar R$ 15.070,00, que correspondem a 60% da meta. E as doações podem ser feitas até o dia 8 de agosto.



Assistam ao vídeo explicativo, conheçam um pouquinho mais do projeto, e entrem no site para apoiar essa iniciativa:





Eu estou ajudando, e espero que mais pessoas possam participar. O livro vai ficar incrível! E se por acaso vocês ainda não conhecem o poema O Corvo, assistam ao vídeo abaixo e se encantem por essa obra clássica da literatura mundial, interpretada aqui pelo ator americando Vincent Price, com legendas da tradução feita por Fernando Pessoa:





Never more!!!!


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quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Esmeralda [Resenha - Parceria]



"Quando a lua surge no céu estrelado e o fogo crepita na fogueira como as chamas de uma fênix, um dueto se inicia. Convidada pelo imperador cigano, Esmeral responde ao seu canto com histórias em forma de prosa enquanto dança ao som da viola. Um dueto poético que mistura fé, magia e história. Assim a natureza surge em cada palavvra da cigana, nos ensinando sobre as belezas deste mundo."

Num livro cheio de poesias intimistas, a escritora Cida Santos presenteia o leitor com uma estória mística, onde os personagens vão refletindo sobre as questões da vida, do universo e tudo mais.

Um cigana muito bonita, trajando um exuberante vestido verde,  começa a contar histórias, quase fábulas, sobre a rosa, uma mulher misteriosa, que, aparentemente, lhe ensinou tudo o que sabe sobre amor, família e magia.

Ao redor de uma fogueira, um imperdor cigano dedilha seu violão e provê a trilha sonora para que Esmeralda declame seus poemas. Em cada um deles, ela fala sobre um assunto diferente, mas todos têm foco no amor, em suas diferentes formas; ao próximo, pelos filhos, amor entre homem e mulher. O cigano vai se empolgando com os cantos de Esmeralda e faz de seu violão a base para que a moça conte suas histórias.

Alguns poemas são bem delicados, e outros têm uma grande carga de pessoalidade, deixando claro que a autora colocou ali seus sentimentos mais íntimos. Dá para sentir nos versos a essência da escritora:

"Sou poetisa,
levo em minha mente
aquilo que ninguém vê 
que ninguém sente"

O interessante desse livro é que seus poemas constituem uma estória, mas antes eles eram apenas poemas simples, num livro independente, "O caldeirão da bruxa". A autora pegou essa obra e conectou cada uma de suas poesias com um enredo encantador. A princípio, quando li o primeiro livro, achei que os poemas não faziam sentido entre si, mas depois, ao vê-los constituindo uma estória, com coerência e dinamismo, tudo se encaixou.

A arte também é um ponto positivo: desde a capa, que deixa bem claro o toque de misticismo que seu interior traz, até o rodapé das páginas, que é lindamente enfeitado com arbustos e flores delicadas, que dão o toque de romantismo ao livro.

A poesia está presente aqui sim, mas mesmo que o leitor não tenha o hábito de ler esse gênero, o livro é indicado, e a leitura flui muito bem.


"Esmeralda"
Cida Santos
editora Arwen
134 páginas
nota do blog: 3,0
nota do Skoob: 2,9

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Dia do Poeta: a poesia no cinema

Olá leitores! Dia 20 de outubro foi nomeado como o Dia do Poeta no Brasil, ainda que a maioria dos brasileiros não dê a mínima para esse artista, tampouco para suas criações, o que é mesmo muito triste.

Então o assunto hoje é poesia, e não adianta torcerem o nariz, dizendo que não gostam e não entendem poesia! Ok, eu sei que algumas delas exigem um esforço grande para serem compreendidas, mas saibam que tem algumas tão simples e tão bonitas, que podem estar bem perto de vocês agora, sem que vocês percebam.




Um bom exemplo de aproximação da poesia é o cinema. De filmes vocês gostam, certo? Pois agora vou mostrar para vocês alguns filmes que foram inspirados em poemas, e tenho certeza que vocês vão ficar curiosos para conhecer essas obras ;)

"E ai, meu irmão, cadê você?": Filme de 2000 dirigido pelos irmãos Cohen, foi baseado no poema épico de Homero, "A odisseia" e teve George Clooney representando um Ulysses moderno.




"Mulan": Essa animação bonitinha da Disney é inspirada num clássico poema chinês do século VI chamado "Ballad of Mulan". Um trechinho do poema, traduzido do inglês, revela a base do enredo para o filme:

"Tsiek tsiek e tsiek novamente tsiek,
Mu-lan tece, de frente para a porta.
Você não ouve o som da laçadeira,
você só ouve os suspiros da filha.
Eles perguntam o que está no seu coração,
perguntam o que está em sua mente,
'Ninguém está no coração da filha,
ninguém está na mente da filha'.
Ontem à noite eu vi os cartazes,
o Khan está convocando muitas tropas,
a lista do exército está em doze pergaminhos,
em cada rolagem há nome do pai.
Pai não tem nenhum filho crescido,
Mu-lan não tem irmão mais velho.
'Eu quero comprar uma sela e um cavalo,
e servir no exército, em lugar do Pai'."


"O estranho mundo de Jack": o próprio Tim Burton é o autor do poema, que começou a escrever em 82, enquanto trabalhava como animador na Disney. Depois de oito anos, ele assinaria com a própria Disney para transformar seu poema em filme. Para ler o poema é só clicar aqui (em inglês).




"Coração valente": No século 15, muito antes de Mel Gibson nascer, o poema épico 'As actes e deidis de Illustre e Vallyeant campioun Schir William Wallace' era escrito. E foi com base nele que nasceu um dos melhores filmes de todos os tempos.


"O corvo": Já foram feitas diversas adaptações desse poema de Edgar Allan Poe para os cinemas, mas as versões de 1935 e 1963 são as que apresentam mais referências à obra. Clique aqui para ler a versão em português do poema, traduzida por Fernando Pessoa. No vídeo a seguir, uma animação bonitinha do poema, vale a pena assistir:



É isso queridos leitores, a poesia está no ar, e quando vocês menos esperarem, ela vai cruzar o seu caminho. Não deixem de comentar, curtir e compartilhar esse post. Vamos espalhar poesia pela blogosfera!

E para quem quiser conhecer um pouquinho da minha poesia, basta acessar meu blog, Milonga, clicando aqui.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Parceria: Editora Arwen - Lançamento



Abrindo os trabalhos com a primeira Editora Parceira do blog, (uhu!!!), vou mostrar para vocês o próximo lançamento da Arwen, que, para minha alegria, é um livro de poesia:


"Esmeralda", da autora Cida dos Santos, será lançado em agosto. Confiram a sinopse:

"Quando a lua surge no céu estrelado e o fogo crepita na fogueira como as chamas de uma fênix, um dueto se inicia. Convidada pelo imperador cigano, Esmeralda responde ao seu canto com histórias em forma de prosa enquanto dança ao som da viola. Um dueto poético que mistura fé, magia e história. Assim a natureza surge em cada palavra da cigana, nos ensinando sobre as belezas deste mundo."

A autora Cida Santos é paulista e tem 71 anos. Começou a escrever cedo e incentivada a continuar, acreditou na beleza das suas palavras em forma de poemas. Virou escritora poetisa, que vê a vida de forma diferente e escreve a beleza daquilo que vive.

Estou super ansiosa para ler "Esmeralda", e em breve trago a resenha para vocês ;)

Para conhecerem mais sobre a Editora Arwen e seu catálogo, acessem: Site Oficial, Facebook, Twitter.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Sei Que Eu Sei News #12


Olá leitores! Venho compartilhar com vocês hoje uma notícia que me deixou mega empolgada. =)

"Florbela", filme baseado na vida da poeta portuguesa Florbela Espanca será lançado no Brasil em 1º de maio.

Dirigido por Vicente de Alves Ó, que também produziu uma série de 3 episódios para a TV RTP baseados na vida da poeta, o filme foi o mais visto em Portugal no ano de 2012.


O longa narra a vida de Florbela Espanca no ano de 1920: por ser uma mulher muito à frente de seu tempo, ela começa a se sentir entediada com a vida de casada, e acaba indo com seu irmão para Lisboa, a fim de aproveitar a vida de uma maneira mais frenética e agitada. Quando o irmão morre, ela entra numa fase de bloqueio criativo e percebe que só conseguirá seguir sua vida se continuar a escrever.


Teve apenas duas obras publicadas em vida: "Livro de mágoas" em 1919 (que, certamente, é o mais conhecido) e "Livro de Sóror Saudade" (1923). As demais antologias de sua autoria são póstumas e seus poemas retratam todo o sofrimento e inquietação que viveu em seus 36 anos. 

Em homenagem ao irmão Apeles, que foi vítima de um desastre de avião, Florbela escreveu a antologia de contos "As máscaras do destino", publicado em 1931.


Depois de tentar se matar duas vezes, a poeta tomou uma dose letal de barbitúricos após descobrir que sofria de um edema pulmonar que lhe tirou toda a vontade de viver, e morreu em 1930, no dia do seu 36º aniversário.

O filme parece retratar bem a personalidade audaciosa da escritora e todos os seus dramas. Assistam o trailer:


 

Ficou curioso para conhecer a obra de Florbela? No site Releituras existe uma página dedicada à poeta, com alguns de seus poemas mais conhecidos, cliquem aqui e acessem.

sexta-feira, 14 de março de 2014

Sexta de música #59 - Dia nacional da poesia


O dia nacional da poesia é hoje! *______* Ano passado teve post comemorativo, que vocês podem reler aqui.

Esse ano, na coluna musical, vou montar uma playlist com algumas canções que foram inspiradas em belíssimos poemas, de grandes autores. Entre os nomes mais conhecidos estão Chico Buarque, Cecília Meireles e, claro, Vinícius de Moraes.


Como disse Goethe: uma poesia que não nasceu para ser musicada, errou de profissão. Então, vamos ouvir os poemas que viraram canções e aproximam ainda mais pessoas da poesia.

1. E agora, José? - Paulo Diniz (poema de Carlos Drummond de Andrade)
2. Canção amiga - Milton Nascimento (poema de Carlos Drummond de Andrade)
3. Fanatismo - Fagner e Zeca Baleiro (poema de Florbela Espanca)
4. Morte e vida severina - Chico Buarque (auto de João Cabral de Melo Neto)
5. Rosa de Hiroshima - Secos e Molhados (poema de Vinícius de Moraes)
6. Canteiros - Fagner (Cecília Meireles)
7. Monte Castelo - Legião Urbana (trechos do soneto de Luís Vaz de Camões)
8. Amor pra recomeçar - Frejat (inspirada no poema "Desejo", de Victor Hugo)
9. Eu sei que vou te amar - Tim Maia (poema de Vinícius de Moraes)
10. Motivo - Fagner (poema de Cecília Meireles)

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Pelas janelas - resenha


"Graças à qualidade de artista, de artista-poeta, Juliano Cazarré tem um jeito especial, contemplativo e sensível, de ver o mundo. É este olhar que ele apresenta em 'Pelas janelas', a primeira reunião de seus versos a ser publicada e que fala sobre as frestas por onde podemos espiar a vida. Impressionam as múltiplas facetas do autor, assim como o talento com que ele desempenha cada uma delas: roteirista, cineasta, ator (que ficou conhecido por viver o personagem Adauto na novela Avenida Brasil) e, a partir de agora, poeta. Como Wagner Moura destaca na orelha do livro, a melhor definição para o autor é artista; nesse texto de apresentação Wagner ainda completa: 'De todos, o poeta é sem dúvida o sumo do sujeito que faz arte, pois todo artista o que quer é criar poesia'. Através das janelas, Juliano enxerga o mundo: ora em um detalhe, ora com uma visão mais ampla. Todos os ângulos e distâncias, entretanto falam a uma gama enorme de pessoas - tudo porque seus poemas, que tocam no âmago, são universais."

Foi uma agradável surpresa descobrir que por trás daquela aparência simples de Juliano Cazarré mora um poeta sensível e com uma visão  tão peculiar de coisas simples da vida. Em seu livro de estreia, o autor/ator/cineasta nos apresenta uma série de poemas temáticos, alguns minimalistas, outros cheios de significados e referências inteligentes, que são, com certeza, suficientes para acrescentar mais uma habilidade a Juliano: poeta.

Eu costumo ler bastante poesia, também as escrevo, e encontrei nesse livro um estilo bem peculiar de retratar diversos assuntos e situações usando a poesia, de maneira rica e perspicaz. Não sei se eu seria capaz de desenvolver tantos poemas falando sobre o mesmo assunto, com conteúdo e todos muito bem estruturados e fazendo sentido, usando as palavras com inteligência, nos lugares certos.

Para citar um exemplo da facilidade com que Juliano trabalha assuntos complexos com maestria e faz referências a outros gêneros e personagens literários, o poema "Dois sonetos para Bartleby" fala sobre a criação do escritor norte-americano Herman Melville, e que deu origem ao termo Síndrome de Bartleby, que é usada quando um escritor, após atingir o ápice literário, decide parar de escrever. De forma lúdica o poeta insere a situação criada no conto de Melville no seu universo de janelas, sem que isso pareça forçado:

"Muito já foi dito
sem definitivo parecer,
sobre os motivos do escriturário
para preferir não fazer.

O enigma, entretanto,
é de fácil resolver. 
Era a vista de sua janela,
pobre de coisas para ver.

............................................

Mas janelas eram tudo
o que Bartleby não tinha.
Copiando não criava

e pela janela não via.
Desse jeito, eu também,
não fazer preferiria."

Chama a atenção também a facilidade com que o autor trabalha suas frases para dizer muito com bem pouco, como nas pequenas quadrilhas espalhadas ao longo do livro, denominadas "Quadrinhas infames". E alguns poemas de um verso só, espalhados ao longo do livro, mostrando algumas vezes verdades cruéis, e outras vezes um toque de humor.

"O olho mágico é uma janela que esqueceu de crescer."

Até quem não tem o hábito de ler poesia vai gostar desse livro; ele é de fácil leitura e compreensão. Os poemas de Juliano têm muitas janelas a serem desvendadas, desde as mais óbvias até aquelas mais secretas e encantadoras. Do vidro do metrô a janelinha deixada pelo dente que acaba de cair, as visões do autor através de cada uma delas vai encantar a todos.

Pelas janelas
Juliano Cazarré
editora Dublinense
nota do blog: 5
nota do Skoob: 3
onde comprar: Submarino, Americanas e Saraiva

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Um pouquinho de...

"... a janela da poesia
é de todas a mais aberta.
Impossível fechá-la ou contê-la.
É ampla. É incompleta."

(Metajanela, página 77)

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Um pouquinho de...

 "O coração de um homem
não é um coração
se seu coração não for amado por uma mulher.
O coração de uma mulher
não é um coração
se seu coração não estiver amando um homem.
Mas o coração de um homem e de uma mulher apaixonados
pode ser pior do que não ter um coração
pois ao menos se você não tiver um coração
ele não morre quando partir aos pedaços."

(página 172, capítulo 10)

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Especial Vinícius de Moraes, 100 anos


Quem nunca cantarolou o verso "quando a luz dos olhos meus e a luz dos olhos teus resolvem se encontrar..."? Além de ser um belo trava línguas, essa é uma linda canção de Vinícius, bem romântica, como são várias de suas composições. No vídeo abaixo, ela é interpretada pelo próprio, acompanhado por Miúcha e Tom Jobim:


O poema escolhido para hoje é "O haver", que mostra uma faceta mais introspectiva do escritor, refletindo sobre a solidão (talvez a separação?), e um momento em que ele parece tentar explicar seus próprios sentimentos de poeta:

"Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
essa intimidade perfeita com o silêncio
resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
- Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido...
Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
essa mão que tateia antes de ter, esse medo
de ferir tocando, essa forte mão de homem
cheia de mansidão para com tudo quanto existe.
Resta essa imobilidade, essa economia de gestos 
essa inércia cada vez maior diante do Infinito
essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
essa irredutível recusa à poesia não vivida.
Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
do tempo, essa lenta decomposição poética
em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinícius.
Resta esse coração queimando como um círio
numa catedral em ruínas, essa tristeza
diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
ao ouvir passos na noite que se perdem sem história.
Resta essa vontade de chorar diante da beleza
essa cólera em face da justiça e o mal-entendido
essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
piedade de si mesmo e de sua força inútil.
Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
de pequenos absurdos, essa capacidade
de rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
e essa coragem para comprometer-se sem necessidade.
Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
de quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
e ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.
Resta essa faculdade incoercível de sonhar
de transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
de aceitá-la tal como é, e essa visão
ampla dos acontecimentos, e essa impressionante
e desnecessária presciência, e essa memória anterior
de mundos inexistentes, e esse heroísmo
estático, e essa pequenina luz indecifrável
a que às vezes os poetas dão o nome de esperança.
Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
de refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
de não querer ser príncipe senão do seu reino.
Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
pelo momento a vir, quando, apressada
ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada...
Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
esse eterno levantar-se depois de cada queda
essa busca de equilíbrio no fio da navalha
essa terrível coragem diante do grande medo, esse medo
infantil de ter pequenas coragens."

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Especial Vinícius de Moraes, 100 anos


No âmbito profissional, Vinícius era poeta, músico e diplomata. Já no pessoal, ela nada mais era que um poeta: um poeta apaixonado pelas palavras, pela boêmia e pelas mulheres. Tanto que sua composição musical de maior sucesso é, sem dúvida, "Garota de Ipanema".

Mundialmente famosa e regravada por inúmeros artistas, a canção foi composta em parceria com Tom Jobim, e sua primeira versão era assim: "vinha cansado de tudo/de tantos caminhos/tão sem poesia/tão sem passarinhos/com medo da vida/com medo do amor/quando na tarde vazia/tão linda no espaço/eu vi a menina/que vinha num passo/cheia de balanço/caminho do mar". Nem Tom nem Vinícius estavam satisfeitos com essa letra e, numa tarde qualquer, sentado na mesa do bar Veloso, o poetinha se inspirou numa moça que passava por ali e criou aquela que viria a ser a segunda música mais executada no mundo, perdendo apenas para "Yesterday", dos Beatles (para os desavisados, a garota era Helô Pinheiro).

"Garota de Ipanema" é uma música única, e seja cantada pelo próprio Vinícius ou nessa versão mais recente dos Los Hermanos, ela não perde sua essência e continua sendo a rainha da Bossa Nova:


Como poeta completo que era, Vinícius abusava da facilidade de escrever sonetos e de falar sobre o amor, mas o poema de hoje mostra sua habilidade em dizer muito em poucas palavras:

"Poética"
De manhã escureço
De dia ardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço
- Meu tempo é quando." 


terça-feira, 22 de outubro de 2013

Especial Vinícius de Moraes, 100 anos




 

Nem só de sonetos viveu esse poeta, por isso hoje vamos de "Ternura":

"Eu te peço perdão por te amar de repente
embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
das horas que passei à sombra dos teus gestos
bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
das noites que vivi acalentado
pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
e só te pede que te repouses quieta, muito quieta
e deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar estático da aurora."

Para embalar o poema, mais uma canção de autoria de Vinícius e Tom Jobim, que foi gravada em 1958 pela cantora Elizeth Cardoso em seu disco "Canção do amor demais", um dos mais importantes do movimento Bossa Nova. Esse álbum teve a participação de um jovem violonista, que tinha um estilo bem característico de tocar e praticamente determinou a batida que caracterizou a Bossa Nova, ajudando a torná-la famosa pelo mundo todo. Esse jovem prodígio era João Gilberto, que mais tarde viria ser referência para artistas como Caetano Veloso e Chico Buarque.

É o próprio João Gilberto que faz a interpretação definitiva de "Chega de saudade":


segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Especial Vinícius de Moraes, 100 anos


Vinícius de Moraes além de poeta também era compositor, e muitas músicas que você conhece são de sua autoria. No último sábado, 19, seria aniversário do poetinha e, por coincidência, fui a um casamento em que a noiva escolheu a canção "Eu sei que vou te amar" como uma das trilhas para a cerimônia. Essa é uma das várias obras de Vinicius que todo mundo conhece e gosta, e que traduz em poesia aquela declaração de amar que queremos fazer, mas não sabemos como. Provavelmente, a versão mais famosa é a cantada por Tom Jobim, um dos parceiros musicais de Vinícius:

 


 Vinícius tinha grande facilidade para escrever sobre o amor, e muitos de seus sonetos o têm como tema principal, como o "Soneto do amor total":

"Amo-te tanto, meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade
Amo-te, enfim, com grade liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude."

domingo, 20 de outubro de 2013

Especial Vinícius de Moraes, 100 anos



Um dos sonetos mais conhecidos e admirados de Vinícius é, sem dúvida, o Soneto de Fidelidade, principalmente por seu verso final: "... que seja eterno enquanto dure.". Essa é uma frase tão marcante e tão grandiosa, que envolve não apenas o amor, assunto principal do poema, mas todos os sentimentos e situações vividos pelas pessoas. Não queremos que tudo seja eterno? E a eternidade, como pode ser medida? O certo é que tudo acaba, e a eternidade está limitada pela duração do que se vive. Parece complexo, mas não é. Até o maior dos amores um dia finda, mas sua existência será eterna no coração de quem o viveu.

"De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais seu pensamento

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa lhe dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure."

No soneto, o autor promete fidelidade àquela pessoa com está se relacionando naquele momento, apenas e tão somente enquanto permanecerem juntos, ainda que alguém possa despertar-lhe algum interesse, ele continuará sendo fiel e vivendo seu amor. Mas, como nada é para sempre, ele não faz juras de amor para toda a vida, e sabe que, se algo acontecer e porventura o relacionamento acabar, ele poderá procurar um novo amor, e a fidelidade ao anterior não estará sendo violada.

Abaixo, o vídeo com o próprio poeta declamando o soneto, e a melodia de "Eu sei que vou te amar", composição de Vinícius e imortalizada na voz do maestro Tom Jobim, tocando ao fundo:


sexta-feira, 18 de outubro de 2013

1, 2, 3... PIN! + Doodle do Google

Olá leitores! Já viram que máximo está o doodle do Google hoje?


Essa é apenas uma das muitas homenagens que veremos a partir de hoje ao centenário do poeta Vinícius de Moraes, do qual eu já falei um pouco neste post aqui.

O poetinha nasceu em 19 de outubro de 1913 e morreu em julho de 1980, mas sua obra continua viva e muito atual. Suas canções e seus poemas, principalmente os sonetos, vêm conquistando fãs fieis e apaixonados até hoje, e muitos programas de TV, internet e rádio aproveitarão essa lembrança de seus 100 anos para celebrar o trabalho de Vinícius e perpetuar toda a sua poesia.

Aqui no blog também falarei um pouco mais dele, então, não percam os posts dessa semana ;)

A imagem do Pinterest de hoje traz um pequeno trecho de um de seus poemas mais famosos, o "Soneto do amor total", que é perfeito, e foi um dos primeiros que eu conheci, fazendo com que eu me apaixonasse por seus sonetos:


quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Declamando poesia - Semana especial "Métrica"


Em "Métrica" o personagem de Will além de escrever poemas também participa de um grupo que declama poesia. A arte de declamar poesia é única e exige muito talento e dedicação, não é tão fácil quanto possa parecer num primeiro momento. Eu já tive uma experiência nessa área, e confesso que morri de vergonha ao ler (sim, tive que ler) um poema meu na frente de dezenas de pessoas desconhecidas e atentas, acostumadas a declamar, ler e escrever poesia. 



Em 2010, ainda na faculdade, fui com as amigas a um sarau organizado pela Casa do Poeta de Campinas, dentro da Academia Campineira de Letras (tem post aqui  contando tudo isso em detalhes). Eu não estava preparada para ler ou declamar nada, mas levei um livro com um de poemas, só para não chegar lá com as mãos abanando. Então, durante as apresentações dos poetas presentes, eis que o mestre de cerimônias (que chique!) se dirige à nós perguntando se alguém declama. Todas as meninas apontaram pra mim e praticamente me obrigaram a ir lá na frente ler o poema.

Toda essa história é para tentar mostrar o quão difícil é declamar poesia. Tem pessoas que o fazem com maestria, como a escritora e declamadora Rosana Marinho. Ela estava também no sarau e declamou um poema caipira, foi emocionante.


Will declama seus poemas em "Métrica", deixando-os ainda mais intensos e emocionantes; declamar é interpretar as palavras, impostar a voz corretamente, fazer gestos e expressões faciais que transmitam o significado daquilo que se está dizendo. Em alguns casos, ouvir um poema faz com que ele tome outro significado, fique mais claro e até mais cativante. Uma pessoa pode passar a se identificar com um poema ao ouvi-lo e não se sentir assim ao lê-lo. Tudo depende de quem interpreta. Aqui nesse site  o professor Pedro Mello fala um pouco da arte de declamar poesia, classificando-a como quase esotérica.


Falando mais um pouco sobre a arte de declamar e sobre seu início, achei esse texto no site "E-dicionário de termos literários", que vocês podem acessar clicando aqui:  


Uma das interpretações poéticas mais emocionantes que já ouvi foi feita pelo ator Juca de Oliveira, para a rádio Band News FM; ali ele tinha um quadro diário, o "Devaneio", onde lia belos textos e poesias de diversos autores (alguns dele mesmo), com uma voz poderosa e uma interpretação profunda, de causar arrepios nos ouvintes. No Youtube tem vários desses áudios para quem quiser conhecer (nesse canal aqui ), mas separei um que me chamou muito a atenção à época que ouvi no rádio: "Não sei quantas almas tenho", de Fernando Pessoa.

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Mesmo que você ainda não goste de poesia, com certeza vai passar a se interessar por elas depois de ler "Métrica". Então, faça o exercício: leia em voz baixa, depois tente declamar, ainda que sem decorar, vá lendo a poesia e fazendo a interpretação. Tenho certeza que você vai enxergar o gênero de forma totalmente diferente.