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quinta-feira, 1 de outubro de 2015

As intermitências da morte [Resenha]


"Apesar da fatalidade, a morte também tem seus caprichos. Cansada de ser detestada pela humanidade, a ossuda resolve suspender suas atividades. De repente, num certo país fabuloso, as pessoas simplesmente param de morrer. E o que no início provoca um verdadeiro clamor patriótico, logo se revela um grave problema. Idosos e doentes agonizam em seus leitos sem poder ´passar desta para melhor'. Os empresários do serviço funerário se veem desprovidos de sua matéria-prima, hospitais e asilos geriátricos enfrentam superlotação e o negócio das companhias de seguro entra em crise. O governo não sabe o que fazer e a igreja se desconsola pois sem morte não há ressurreição e sem ressurreição não há igreja. Mas, na sua intermitência, a morte pode a qualquer momento retomar os afazeres de sempre. Então, o que vai ser da nação já habituada ao caos da vida eterna?".

Mais uma vez me aventurei a ler Saramago, e, se por um lado a estória agradou, por outro, o incrível talento para divagação que o autor tem  me deixou um tanto quanto cansada.

A premissa do livro é: a morte parou de trabalhar e as pessoas não morrem mais. Só com isso já seria possível criar vários cenários diferentes para a narrativa, e o autor é realmente bom e filosofar e alfinetar diversos setores da sociedade, então, ele consegue criar os mais diversos cenários para mostrar que a morte nada mais é que uma fase da própria vida, e que, se ninguém mais morresse, tudo seria muito mais complicado do que jamais imaginamos.

Logo de início já enfrentamos as dificuldades do governo, da igreja, das funerárias, dos hospitais, das casas de repouso, das companhias de seguro e das famílias das pessoas que não morrem. Imaginem você ter um familiar em casa, quase morrendo para sempre, sabendo que ele nunca vai se recuperar e também nunca vai morrer. Agora imaginem isso num âmbito maior, pelo ponto de vista do governo, por exemplo, que ficará eternamente com os aposentados recebendo seus salários, sem morrer jamais. Pior ainda, esse número de idosos só tende a crescer, já que a população continua envelhecendo normalmente, mesmo aqueles que ficam doentes ou inválidos, continuam vivos e dependentes do governo.

A igreja também acredita que viver para sempre não é um bom negócio, já que boa parte da sua doutrina prega que após a morte há ressurreição. Não havendo morte, não existe mais motivos para que os seguidores continuem a acreditar naquilo que a igreja ensina.

As funerárias, não têm mais clientes, as seguradoras não vendem mais seus produtos, já que ninguém vai precisar deles se viver eternamente. E os asilos e hospitais vão ficando cada vez mais cheios e sem condições de atender a todos que os procuram.

Inicialmente, quando a população percebeu que não se morria mais, houve uma grande comemoração: as pessoas ficaram tão felizes que não mais deixariam essa vida, que não pensaram em todos os problemas que isso poderia acarretar. Até que a euforia passou, e a dificuldade foi caindo sobre cada uma das famílias que tinha um enfermo em casa.

E é a partir daqui que o livro vai ficando lento e enrolado: o autor aproveita a situação vivida pelos personagens para criticar a igreja e o estado, repetidamente, e também para filosofar sobre a vida e a morte, muitas vezes usando metáforas e ditos populares que perdem sua função no texto, enquanto ele dá voltas e voltas para dizer o que realmente queria dizer. Isso é uma crítica e ao mesmo tempo um elogio, pois o autor consegue fazer tudo isso e ainda construir uma estória muito interessante.

Sendo a morte o personagem principal da estória, e também levando em consideração o próprio título do livro, eu esperava ela tivesse uma participação mais constante no decorrer da narrativa, mudando sempre de opinião, que voltasse a trabalhar de repente e do nada decidisse descansar novamente. Quando a morte efetivamente apareceu, o enredo pareceu tomar um rumo diferente: não se falou mais nas pessoas afetadas por sua greve, nem houve menção a qualquer problema citado anteriormente. Tudo passou a girar em torno da morte, e de uma situação que se tornou um desafio para ela. A resolução desse desafio é o desfecho do livro, e devo confessar que as últimas linhas me agradaram bastante, mas um ou dois capítulos antes do final, voltei a achar que a narrativa ficou lenta. Por fim, concluí que esse era o resultado esperado por Saramago, e aceitei.

Apesar daquele estilo diferente de escrever que é característico do autor, e que pode assustar no começo da leitura, eu gostei bastante desse livro, principalmente pela ideia da ausência da morte e das dificuldades que isso acarreta, pois são coisas que jamais imaginamos, e sempre temos em mente que morrer é ruim. Claro, a morte é muito triste, mas é necessária, e a maior qualidade do livro de Saramago é nos fazer pensar sobre isso.


As intermitências da morte
José Saramago
editora Companhia das Letras
208 páginas
nota do Skoob: 4.5
nota do blog: 3.5


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Joana Masen, quando não está resenhando, pintando e bordando por aqui, está escrevendo poesia no blog Milonga.
Twitter: @joana_masen



segunda-feira, 6 de abril de 2015

Um pouquinho de...

"É o que acontece a todos nós, sempre fomos mais alguma vez, Tu nunca foste tanto, disse a mulher do primeiro cego, As palavras são assim, disfarçam muito, vão-se juntando umas com as outras, parece que não sabem aonde querem ir, e de repente, por causa de duas ou três, ou quatro que de repente saem, simples em si mesmas, um pronome pessoal, um advérbio, um verbo, um adjectivo, e aí temos a comoção a subir irresistível à superfície da pele e dos olhos, a estalar a compostura dos sentimentos, à vezes são os nervos que não podem aguentar mais, suportaram muito, suportaram tudo, era como se levassem uma armadura..."


(página 267)

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Ensaio sobre a cegueira [Resenha]

onde comprar: Americanas//Extra//Submarino 

"Um motorista parado no sinal se descobre subitamente cego. É o primeiro caso de uma treva branca, que logo se espalha incontrolavelmente. Resguardados em quarentena, os cegos se perceberão reduzidos à essência humana, numa verdadeira viagem às trevas. Esse livro é a fantasia de um autor que nos faz lembrar ´a responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam'. José Saramago nos dá aqui uma imagem aterradora e comovente de tempos sombrios, à beira de um novo milênio. Cada leitor viverá uma experiência imaginativa única. Num ponto onde se cruzam literatura e sabedoria, Saramago nos obriga a parar, fechar os olhos e ver. Recuperar a lucidez, resgatar o afeto: essas são as tarefas do escritor e de cada leitor, diante da pressão dos tempos e do que se perdeu."


Ler esse livro é uma tarefa tão árdua quanto satisfatória: uma narrativa intensa, que exige do leitor toda a sua atenção e capacidade de raciocínio. Saramago criou brilhantemente um universo que apavora, mas que deixa bem claro a todo momento que não somos tão importantes como acreditamos ser.

Repentinamente, e sem qualquer explicação, as pessoas começam a ficar cegas, e esse mal súbito vai se espalhando como uma grave epidemia, atingindo muitas pessoas num curto período de tempo. Quando as autoridades decidem tomar uma providência, não sabem ao certo como agir, nem para cuidar daqueles que já cegaram, nem para proteger os que ainda exergam para que não sejam contaminados também. Então, para tentar resolver a situação, eles decidem isolar todos os cegos - e aquelas pessoas que já tiveram contato direto com algum deles - num manicômio desativado, que, teoricamente, teria capacidade para acomodá-los com o mínimo de conforto.


Conforme mais pessoas vão cegando e sendo enviadas para o manicômio, o caos vai se instaurando no lugar: faltam camas para muita gente, a comida é pouca, não existem remédios nem tampouco manutenção ou limpeza nas dependências do prédio. E é a partir daqui que o leitor passa a sofrer e avaliar a importância das menores coisas, daquelas que já são tão corriqueiras que pensamos que não podemos viver sem.

A cada dia os cegos vão perdendo toda a sua condição humana, passando a viver quase como animais, sem o mínimo que se é necessário para manter sua decência, sua dignidade. Quando se tem que lutar por um prato de comida, pela possibilidade de fazer suas necessidades num banheiro, ou de apenas tomar um simples banho, fica impossível de viver com civilidade. Os conflitos são inevitáveis, e começam a surgir quando, dentre os cegos, surgem aquelas pessoas que nunca tiveram boa índole, e que na cegueira só conseguiram ficar ainda mais malvados. Alguns doentes passam a controlar a distribuição da pouca comida que recebem, e exigem que os demais cegos paguem por suas refeições. Ora, como se dinheiro e joias pudessem tem algum valor real na situação em que estão vivendo.

O mais interessante nesse livro é observar o comportamento das pessoas quando estão em situação extrema. Fica muito fácil julgar uns aos outros por todo e qualquer motivo, ou descontar a raiva e a frustração naquele que está mais próximo. Num grupo de pessoas que nunca se viram antes e que é obrigado a conviver sob extremo estresse, não há como evitar os desentendimentos.

Para complicar ainda mais tudo o que está acontecendo, temos a mulher do médico, a única pessoa dentre os confinados que ainda enxerga, e que mentiu para os policiais dizendo que estava cega, só para ficar junto de seu marido. O dilema vivido por ela é se perguntar se deve manter-se calada sobre a sua condição e continuar vendo todo o sofrimento dos outros cegos (além de saber qual a real situação do lugar onde estão vivendo), ou revelar que enxerga e correr o risco de ser praticamente escravizada pelos doentes, sendo obrigada a cuidar de tudo e de todos, assumindo funções que deveriam ser de responsabilidade das autoridades.

Outro detalhe que deixa o livro tão interessante quanto complexo é o estilo do autor, a forma como ele monta a narrativa, não conferindo nomes a nenhum dos personagens, e mesmo assim, fazendo com que o leitor possa distinguir facilmente cada um deles. É totalmente possível, apenas pelas características de cada personagem, saber quando é ele que está falando, ou quando estão falando sobre ele.

"... tão longe estamos do mundo que não tarda que comecemos a não saber  quem somos, nem nos lembrarmos  sequer de dizer-nos como nos chamamos, e para quê, para que iriam servir-nos os nomes, nenhum cão reconhece outro cão, ou se lhe dá a conhecer, pelos nomes que lhes foram postos, é pleo cheiro que identifica e se dá a identificar, nós aqui somos como uma outra raça de cães, conhecemo-nos pelo ladrar, pelo falar, o resto, feições, cor dos olhos, da pele, do cabelo, não conta, é como se não existisse..."

Além disso, a incrível capacidade de Saramago para construir um parágrafo interminável onde ele mistura tanto a descrição de uma cena quanto o diálogo entre os personagens. Talvez fique difícil de entender apenas com essa explicação, e realmente é, mas é essa dificuldade que deixa a leitura tão espetacular (e complicada).

"Que situação a nossa, senhor doutor, disse o primeiro cego, já não nos bastava estarmos cegos, viemos cair nas garras de uns cegos ladrões, até parece sina minha, primeiro foi o do carro, agora estes que roubam a comida, e ainda por cima de pistola, A diferença é essa, a arma, Mas os cartuchos não duram sempre, Nada dura sempre, contudo, neste caso, talvez fosse de desejar que sim, Porquê, Se os cartuchos vierem a acabar, será porque alguém os disparou, e nós já temos mortos de sobra, Estamos numa situação insustentável, É insustentável desde que aqui entrámos, e apesar disso vamo-nos aguentando..."

Com todos esses elementos, "Ensaio sobre a cegueira" não tem como ser um livro chato ou enfadonho, apesar de ser uma leitura lenta e exaustiva. A função do livro não é apenas entreter, apresentando ao leitor um mundo distópico e inimaginável, e sim, ensinar, fazer refletir, escancarar o quão pequenos somos todos nós. Só nos colcando no lugar de cada um daqueles cegos é que podemos ter uma exata noção de que nós não valemos nada, que uma única disfunção em nossa sociedade pode instaurar o caos e acabar com tudo o que nós conhecemos hoje.

"... mas o que ali verdadeiramente se necessitava era um poderoso jorro de mangueira que levasse à frente toda a merda, depois de uma brigada de canalizadores que viessem reparar os autoclismos, pô-los a funcionar, depois água, água em quantidade, para levar aos canos de esgoto o que ao esgoto deveria ir, depois, por favor, olhos, uns simples olhos, uma mão capaz de nos conduzir e guiar, uma voz que me diga, Por aqui. Estes cegos, se não lhes acudirmos, não tardarão a trnsformar-se em animais, pior ainda, em animais cegos."

Em diversos momentos, o autor nos atinge em cheio com suas considerações sobre a vida o universos e tudo mais, como que dando um tapa na cara de quem acredita que tem mais valor que outrem. Nesse livro Saramago reduziu todos os personagens a quase nada, tirando deles a identidade, para que ficasse muito claro que status, formação, profissão, poder aquisitivo não valem nada quando todos estão padecendo do mesmo mal: o distanciamento da condição humana e o afloramento do instinto de sobrevivência, que transforma a todos em seres quase irracionais, movidos pelo desespero e pela fome.

"... perguntar de que morreu alguém é estúpido, com o tempo a causa se esquece, só uma palavra fica, Morreu..."

A resenha ficou extensa e séria, quase tão complexa quanto o próprio livro, mas para quem chegou até aqui, é importante reafirmar que o livro é uma leitura única, e que, como foi dito na sinopse, cada leitor terá sua própria experiência sobre ela, e sua forma de encarar a vida vai mudar, aprendendo a valorizar até as menores coisas. Perder a visão, por si só, já é um desafio terrível, pior ainda seria perder a humanidade.


Ensaio sobre a cegueira
Jose Saramago
editora Cia. das Letras
312 páginas
nota do Skoob: 4.5
nota do blog: 4.8 


Joana Masen, quando não está resenhando, pintando e bordando por aqui, está escrevendo poesia no blog Milonga.
@joana_masen

quarta-feira, 1 de abril de 2015

O que eu li em março



Olá leitores! O mês de março também durou 189 dias para vocês? Para mim foi um mês muito arrastado, e o pior, as leituras também não renderam! Confiram:















Três míseros livros Joana???? Isso mesmo! Por mais que eu tenha tentado, não li tanto quanto nos outros meses, e tenho uma boa explicação para isso: como eu já disse na resenha, "A música do silêncio" foi um livro que demorou para engrenar, e por isso, demorei mais de 10 dias para ler as suas 130 páginas (shame on me); e o desafiador "Ensaio sobre a cegueira", que faz parte do Projeto Leitura 2015, também dificultou o andamento das leituras. Saramago era realmente um gênio, e sua narrativa, apesar de espetacular, complica a vida do leitor, principalmente por conta dos seus parágrafos intermináveis quase sem pontuação, que exigem atenção e dedicação total durante a leitura. Não se enganem, apensar de tudo isso, ele vale muito a pena! =)

E mesmo com tão poucos livros lidos, consegui eliminar mais alguns itens do Reading Challenge:

- um livro publicado neste ano: A música do silêncio;
- um livro que está lá embaixo na sua lista de leitura: confesso que não pretendia reler Ensaio sobre a cegueira tão cedo, mas graças ao Projeto, ele acabou furando a fila;
- um livro que você consegue ler em um dia: na verdade, não terminei em um dia, mas dá para ler Sem esperanças rapidinho.























Se interessaram pelo Reading Challenge? Ainda dá tempo de participar! Visitem o blog Mari the reader e saibam como ;)

E não deixem de me contar nos comentários como andam as leituras de vocês, ok?

Antes que eu me esqueça, esse post já vale para o Top Comentarista de abril, que vai ter um prêmio incrível, não percam!

XOXO


Joana Masen, quando não está resenhando, pintando e bordando por aqui, está escrevendo poesia no blog Milonga.
@joana_masen

segunda-feira, 30 de março de 2015

Um pouquinho de...

"A ideia é boa, experimentemos, e todos estiveram de acordo, que sim, que era uma boa ideia, só a rapariga dos óculos escuros não pronunciou palavra sobre esta questão de enxada ou pá, todo o seu falar, por enquanto, eram lágrimas e lamentos, A culpa foi minha, chorava ela, e era verdade, não se podia negar, mas também é certo, se isso lhe serve de consolação, que se antes de cada acto nosso nos puséssemos a prever todas as consequências dele, a pensar  nelas a sério, primeiro as imediatas, depois as prováveis, depois as possíveis, depois as imagináveis, não chegaríamos sequer a nos mover de onde o primeiro pensamento nos tivesse feito parar."


(páginas 83/84)








Joana Masen, quando não está resenhando, pintando e bordando por aqui, está escrevendo poesia no blog Milonga.
Twitter: @joana_masen