terça-feira, 16 de julho de 2013

J. K. Rowling e os pseudônimos da literatura

Essa semana houve um furor nas redes sociais acerca da revelação de J. K. Rowling, autora da saga Harry Potter, de que teria lançado um romance em abril passado sob o pseudônimo de Robert Galbraith.


Mas não há motivo para tanto estardalhaço. O uso de pseudônimos na literatura é mais frequente do que muita gente imagina, e os motivos que levam os autores a assumir outra personalidade são diversos. 

A loira está muito bem acompanhada nessa aventura de publicar obras com outro nome que não o seu: músicos já assumiram outra identidade para ver suas canções liberadas pela ditadura aqui no Brasil, e muitos autores, entre eles Machado de Assis e Olavo Bilac, escreveram textos polêmicos ou que defendiam opiniões políticas contundentes, sem se comprometer.

fonte: Veja
Talvez o caso mais famoso de um escritor que assumiu mais de um pseudônimo seja Fernando Pessoa: o poeta criou dezenas de personalidades diferentes, que não só tinham seus próprios textos e livros publicados, como também tinham biografia e personalidades individuais. Por exemplo, Álvaro de Campos, poeta e engenheiro português, porém, com educação inglesa, criticava a velocidade da vida moderna e Ricardo Reis era médico e sua obra focava no fim inexorável do todo e qualquer ser vivo.


Em outras épocas algumas mulheres se valiam de pseudônimos para poderem publicar seus livros, fugindo do preconceito que existia contra elas. As irmãs Brontë são um exemplo clássico disso: elas assinavam seus textos com nomes masculinos para poderem ser respeitadas no meio, já a literatura não era uma atividade a ser exercidas por damas. Outra que lançou mão desse artifício foi a francesa Amandine Dupin, que usava o nome George Sand para publicar seus romances nos anos 1800.


Até Agatha Christie entrou nessa brincadeira: entre 1930 e 1956, ela publicou seis romances de época sob o pseudônimo de Mary Westmacott. A rainha do gênero policial deixou sua especialidade um pouquinho de lado e usou os romances para tentar driblar sua timidez e se expressar melhor através das palavras.


Aliás, o motivo para eu escrever esse post foi a coincidência entre a revelação de J. K. e o lançamento de seu livro e o final da minha leitura de "Os desejos da Bela Adormecida", também de uma escritora muito famosa, mas lançado com um pseudônimo: Anne Rice, como A. N. Roquelaure.

No início da década de 80, já tendo lançado alguns dos seus melhores livros da série "Crônicas Vampirescas", incluindo "Entrevista com Vampiro", Anne achou que seria interessante escrever uma trilogia erótica baseada no conto de fadas "A Bela Adormecida", mas não o daria sua cara à tapa e assinou os livros com outro nome. Na minha opinião, ela deveria ter continuado apenas no universo vampiresco (mas vou falar disso na resenha que será postada na próxima quinta-feira).


Seja homem ou mulher, muitos escritores já tiveram suas razões para escrever usando nomes diferentes, sejam elas políticas, para driblar o preconceito, preservar uma reputação já consolidada ou simplesmente para transitar entre gêneros literários diferentes. Talvez nossa amiga J. K. Rowling tenha decidido seguir o exemplo de Stephen King que, depois de alcançar grande sucesso com o lançamento de seus dois primeiros livros ("Carrie, a estranha" e "O iluminado"), pediu a sua editora que publicasse alguns trabalhos seus com outro nome, para não encher o mercado literário com tantas obras do mesmo autor e para verificar se estava vendendo tão bem porque tinha talento de verdade ou era apenas sorte.

Acredito que Rowling tenha sentido vontade de escrever sem a pressão de agradar aos seus já milhares de leitores cativos, como um teste à sua própria capacidade de criar estórias boas e que sejam bem aceitas pelo público em geral. Como ela mesmo disse na recente entrevista em que revelou a publicação de "The Cuckoo's Calling",  "foi maravilhoso publicar sem forte promoção ou expectativas e ficar a par da acolhida estando oculta por um nome diferente, mesmo que com isso muitos editores tenham rejeitado seu trabalho". Tanta gente buscando um lugarzinho ao sol no mercado literário e a tia Jo esnobando o que já tem... vai entender...


Um comentário:

  1. Muito bom o post Joana. Acho que tem muito Marketing envolvido nesse tipo de "manobra". Não conheço a bibliografia da J.K., eu, como "não" leitor assíduo de fantasia, só consigo me recordar de HP (para os íntimos rs), mesmo assim por causa dos filmes.
    Mas pelo que eu entendi, resumindo a tosco modo: "Eu fiz um livro pra vender pra caramba, mas como o nome J. K. Rowling já está muito badalado e eu não queria me estressar, lancei com um nome falso pra ninguém encher meu saco e depois de publicado falei pra todo mundo que era meu. Agora você que é meu fã e não sabia que o livro era de J.K. Rowling, pode sair correndo pra comprar!"
    Não é tão altruísta quanto defender uma posição política ou religiosa em anonimato mas nos dias atuais, além de promover bastante a obra, concede a escritora um "salvo conduto", pois se ninguém gostar ou se os fãs não se identificarem com suas obras anteriores, ela simplesmente omite o livro da sua bibliografia oficial.
    Seu post me fez lembrar de um autor em especial que utiliza a mesma estratégia de venda para os seus livros: Lars Kepler, que na verdade não é um, mas duas pessoas, Alexander Ahndoril e Alexandra Coelho Ahndori, um casal sueco que escreve um tipo de romance policial, na mesma pegada do Christopher Reich (A Traição e A Farsa). Eles possuem publicações em seus nomes mas, utilizam o Lars Kepler para escreverem juntos um gênero fora do universo literário deles.

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